Diz a Simone de Beauvoir no seu "Segundo Sexo" que as mulheres nunca alcançaram o seu potencial porque nunca souberam unir-se. Todas as outras restantes revoluções da história foram feitas com base no paradigma nós contra os outros - os trabalhadores contra os patrões, os ricos contra os pobres, os pretos contra os brancos, os povos ocupados contra os seus opressores, cristãos contra os muçulmanos, os ecologistas contra os poluidores. A nossa fraqueza - ou a nossa força, digo eu - é não querermos ser contra os homens. Não somos o oposto dos nossos pais, não estamos do outro lado da barricada dos nossos maridos, não queremos estar contra os nossos filhos, não queremos o mal aos nossos amantes. Não queremos guerra com os que são iguais a nós em quase tudo. A nossa fraqueza - a nossa maior força - é sermos quase sempre contra a guerra, a nossa grande diferença é querermos mais o bem que o mal. Não conseguimos ver o mundo das mulheres contra os homens, porque não nos achamos melhores do que eles, mais merecedoras, mais fortes, mais inteligentes ou mais altas. Somos diferentes em alguns aspectos, mas sem que essas diferenças sejam para melhor ou para pior. É muito difícil fazer a revolução sem ser contra alguém e nós, mulheres, para piorar a situação, sofremos sempre um pouco da Síndrome de Estocolmo. Vivemos apaixonadas pelos nossos opressores, amamos de morte os nossos filhos e morremos todos os dias de medo de que se não formos nós a apanhar as meias do chão, ninguém as irá apanhar.
No dia 24 de Outubro de 1975, 90% das mulheres Islandesas "tiraram o dia de folga" - não compareceram nos seus empregos, não fizeram a lide doméstica e não trataram dos filhos. Muitas fábricas fecharam, não houve serviços telefónicos nem jornais, a maioria das escolas não chegou a abrir já que as professoras não compareceram, voos foram cancelados porque não havia assistentes de bordo e os senhores executivos dos bancos tiveram de ir para as caixas para os manter abertos. Os homens tiveram de levar as suas crianças para o trabalho (já que os trabalhadores das creches são quase sempre mulheres) e ausência das mulheres nas cozinhas de todo o país fez com que as salsichas esgotassem nos supermercados. Foi um acto de coragem brutal! 25mil mulheres juntaram-se no centro de Reykjavik para reclamar os seus direitos, para mostrar a importância que têm no mundo e a falta que fazem todos os dias. No ano seguinte o parlamento islandês passou a lei que obriga à igualdade de direitos entre os géneros e 5 anos depois foi eleita a primeira mulher presidente do mundo. A Islândia classifica-se todos os anos entre os 10 países com melhor qualidade de vida a nível mundial de acordo com a OCDE (Portugal ficou-se pelo 29º lugar, entre os 38 países analisados o ano passado). A Islândia classifica-se, nos dias de hoje, também de acordo com a OCDE, no topo no que toca a empregos e rendimentos, conexões sociais, bem-estar, estado de saúde, qualidade do meio ambiente, segurança pessoal, educação e qualificação da sua população.
Não acredito que as mulheres Islandesas gostem menos da sua família do que a Portuguesas, não me acredito que não lhes tenha custado não dar o pequeno-almoço às crianças naquele dias, mas deixaram de se encantar com o orgulho de dizer "ai se não fosse eu não sei o que era de vocês" com que tantas mulheres ainda se vai alimentando para aguentar os dias demasiados pesados. Se não forem as mulheres a limpar o chão da cozinha, alguém o vai limpar. Se as mulheres decidirem que não aceitam ser pagas abaixo dos seus colegas, serão aumentadas. Se as mulheres não infantilizarem os seus companheiros e não perdoarem aos patrões ("a verdade é que quando a criança está doente eu até posso faltar sem ser despedida"), se as mulheres se unirem e deixarem de querer ser todas super-mulheres (rotas, descalças, cheias de olheiras, sem tempo para o ginásio ou um copo com os amigos, com sentimentos de culpa por não terem o corpo capa de revista, muito mais velhas ao chegar à meia idade do que os seus companheiros), se deixarem de apontar os dedos às outras mulheres por não disfarçarem o cansaço tão bem, se não tomarem nos seus ombros todo o peso do mundo pedindo nada em troca, talvez comecem a ser valorizadas.
Se as mulheres (as portuguesas e as outras) deixarem o Síndrome de Estocolmo pelo Síndrome de Reykjavic, talvez o título "Segundo Sexo" deixe de fazer sentido, por deixar de haver um Primeiro. Nós somos 52% da população mundial. Acham mesmo que não podemos mudar o mundo?




Sem comentários:
Enviar um comentário