terça-feira, abril 16

Como não pagar impostos em Portugal

Todos os anos chego a esta altura e começo a ficar com calafrios. Há insónias, angústias, cefaleias, pesadelos (uma vez cheguei a sonhar que não tinha feito a cadeira de BioMatemática e que, como tal, para além de tudo, nem sequer era veterinária) e um absurdo medo da caixa do correio (peço desculpa pelo silêncio que deixo de resposta às cartas de amor que vão morrendo lá dentro no bafo medonho de uma missiva das finanças).
O ano passado foi difícil. Dia um de Maio, último do prazo, (lembro-me como se fosse hoje - levantei-me cedo, vestido o vestido azul e fui para uma esplanada ler a Patty Smith, bebi um café e uma água das pedras, escrevi uma história acerca de fantasmas, voltei para casa porque havia vento e o meu vestido azul não o aguentava, almocei demoradamente uma sandwich de salmão fumado com um sumo de laranjas de Carreço) sentei-me no sofá, com tempo e calma e boa disposição para entregar o IRS. Quase todas as pessoas que eu conheço já o tinham feito e eu conheço gente que até nem é muito esperta, pelo que havia em mim coragem e determinação para o fazer, pela primeira vez, com dignidade e quiça, até algum estilo. Não aconteceu. Cerca de 6 horas depois peguei no telefone e a chorar pedi à minha mãe, que estava de férias algures no Adriático e que àquela hora deveria estar a beber um Aperol com vista para o mar, que me resolvesse aquilo. Quinze minutos depois, com a declaração enviada, a chamada terminou com um "Helena, quando eu voltar para a semana, lembra-me de irmos ao cartório declarar-te financeiramente irresponsável e eu passo a dar-te uma semanada", ao que eu assenti com um sorriso entre fungadelas do choro e do alívio e ainda hoje não percebo porque não aceito a proposta.
Este ano, desta vez antecipando-me largamente ao prazo final, comecei ontem a preencher a declaração. De-va-ga-ri-nho. Abri o site das finanças e logo assim de rajada levei com a informação de que já abriu a época para o pagamento do IMI. Zás! Respirei fundo e disse - uma coisa é uma coisa e hoje vou dedicar-me ao senhor IRS. Na verdade, aquele teste até tem perguntas simples - sei o meu número de contribuinte, confirmar a minha morada, validar o meu estado civil - neste momento há em mim a grande felicidade de ser solteira e sem filhos e regozijo-me com a quantidade de campos que sou poupada, por isso mesmo, a responder -, confirmar o meu email e o número de telefone... até aqui tudo bem. Também me orgulho (dá jeito) não ter recebido nenhuma herança (já não faz parte dos meus sonhos ficar rica às custas de um tio rico na Suiça acerca de quem nunca ouvi falar!) mas depois levo com um "derivado do facto de a senhora estar a recibos verdes, não fazemos mais nada por si. proceda ao preenchimento do anexo B, sem passar na casa partida e receber 5€". "CAE?" é a primeira pergunta em que me esbarro. Pergunto ao google "CAE veterinária". Resposta pronta 75000 e eu com um sorriso de vitória (ai que ainda é desta que eu resolvo problema sozinha!!!), introduzo mas só cabem 4 dígitos. 7500. hum.... é capaz de não ser a mesma coisa. Pergunto outra vez e agora sai-me o 1410. Já cabe, pelo que aceito. Na linha a seguir escrevo o 75000 (cabe!) e sigo sem fazer mais perguntas. "Quanto pagou de segurança social o ano passado?" Ora... eu paguei aquilo que me mandaram pagar, a tempo e horas, mas quanto, assim quanto mesmo, não sei. Como a minha auto-estima ainda está em alta, lembro-me que há uns tempos recebi uma password da Segurança Social e lá vou eu ao site investigar isso. Resposta "Não possui qualificação válida para esta operação". Não?, a sério? E anotei na minha agenda "ir à Segurança Social durante a hora de almoço, a correr, porque eles lá sabem isto de certeza". Saltei esse parágrafo e entro nos rendimentos. "Quanto ganhou?" Como vocês não sabem? Obrigam-me a preencher recibos electrónicos, mil campos de cada vez, e chegam a Abril e não se lembram? Abro mais uma janela de finanças (a paciência começa a estalar) e somo os valores dos recibos verdes. Voilá! Mas eis que... os recibos emitidos em 2019 referentes a trabalho em 2018 entram onde? O tio google assobia para o lado e eu procuro a agenda onde ainda há pouco anotei a ida à Segurança Social, risco e anoto "não esquecer de não almoçar. loja do cidadão - segurança social + finanças". Fechei o computador e voltei ao mundo real.
Hoje lá fui com o estômago a resmungar. Primeira à segurança social "Não, nós também não sabemos. Sabemos, no entanto, acerca desta dívida..." e eu não, obrigada. Isso é para outro dia. Eu estou aqui por causa de 2018, 2019 é um problema que eu tenciono resolver em 2020, na melhor das hipóteses. Mas se não sabem quanto paguei... como é que eu preencho o IRS? "ah... pois... tem razão... olhe, os senhores das finanças devem saber!" e sigo para as Finanças. Começo com o habitual pedido de desculpas e informando que devem falar comigo como com uma pessoa com uma atraso mental considerável. Exponho humildemente a situação e o senhor do balcão 2 diz "hum... estou a ver... mas não sabe que tem um prazo de 5 dias para emitir as facturas?" não, não sei - eu de olhos no chão. "E não sabe que o prazo para A é até 15 de Janeiro e B 1 de Fevereiro e que isto está tudo mal?" e eu pois, eu avisei. Não sei nada dessas coisas. E presumo que não dê para apagar, certo? Ou emprestar-me uma máquina do tempo e eu juro que volto a Outubro e faço tudo direitinho? Ou então - digo eu já com os olhos bem abertos - podia dizer-me o que eu posso fazer agora para preencher a declaração. "hum... pois... é que isto é muito subjectivo..." e disto levanta-se, vai ao armário, escolhe uma capa, senta-se de novo, folheia centenas de páginas, escolhe uma, levanta-se de novo, vai à fotocopiadora, volta para a mesa, senta-se e com um sorriso entrega-me duas páginas e diz "como poderá ver pela leitura deste artigo, a situação é ambígua. Pode fazer C e rezar pelo melhor ou fazer D e esperar por um pedido de esclarecimento para o próximo ano." e com um sorriso termina com um "posso ajudar em mais alguma coisa?" Solucei 7 insultos para dentro do estômago, em forma de refeição rápida e saí para a rua.
Sabem qual é a melhor forma de pagar os impostos? É não os pagar. Houve uma vez que fiz isso, não preenchi nada, não entreguei nada, não queimei nenhuma hora de almoço nem nenhum neurónio , zero insónias e um mês depois do prazo terminar apareceu na minha caixa do correio um bilhete postal que era claro. Pague este valor até à data x. Eu paguei, ignorei o facto de parte daquilo ser multa, e continuei na minha vida.
Quando aceitei o contrato com a vida adulta, admito que não li as letras pequenas (eu sou hipermetrope, senhores, e para mais odeio adendas), não percebi que era preciso um doutoramento em altas finanças. Na inexistência do concurso televisivo "Quem casar com um Taxman?" (isso sim era serviço público), tenciono, em breve, meter os papeis para me desvincular da adulticidade. Com os cabelos brancos que me cresceram nos últimos dois dias (pareço o Assange, senhores, esbracejando pelas ruas. fora a barba. a barba mantenho-a bem aparada) tenciono juntar-me ao clube sénior que viaja em cruzeiros e que não põe os pés em terra, fica ali junto à piscina do barco do amor, bebendo bebidas coloridas com chapéus, só para não ser apanhado em repartições das finanças.
ps - não esperem novos episódios. já falei com a minha mãe e até os papéis me darem como velhinha imbecil, serei filha.


quarta-feira, abril 3

Eu quero que alguém comigo acredite que ainda é possível ser se feliz. Não! Quero que alguém comigo diga que só importa ser-se feliz. Que comigo diga que se dane a imortalidade e as obras, os cifrões e a segurança na reforma. Alguém que comigo  faça uma proposta ao tempo para que este não nos aborreça mais com chamadas telefónicas ou emails ou prazos de entrega - 'damos-te, ó tempo, as meias para dobrares até ao fim de ti, para que também tu estejas entretido. Nós temos mais que fazer. A felicidade é um trabalho árduo e laborioso e já não nos sobram nem os 80 anos pela frente. Sai dji baixo.'
Quero alguém que tenha o vagar de antigamente nos finais de tarde, aquele respeito fúnebre pelo adeus ao sol, o desprezo sincero pelas horas no momento do abraço.
Afinal, é sempre de tempo que falamos quando falamos de amor.