Adormecer onde se ouve o mar.
Madrugar no grito do pássaros.
domingo, setembro 20
terça-feira, setembro 15
no dia em o Buddha tocou à campainha, com voz e farda de carteiro, havia uma borboleta morta no tapete.
é claro que eu não sabia de nada disto quando ouvi a campainha. o carteiro não gosta de subir as escadas, é sabido, como eu não gosto de ir à caixa de correio. passo meses sem lá ir. se quiserem cortem a água, mas tremo quando ponho a chave pequenina na fechadura. que más notícias, quantas contas, publicidades de canalizadores, espíritas, limpa-chaminés e viagens a fátima terei de deitar ao lixo em toda a minha vida? enquanto não instalarem um separador spam nas caixas de correio, tenciono lá ir 2 vezes por ano, mesmo correndo o risco de perder maravilhosas embalagens de mostarda potente enviada com amor da Alemanha (sim, been there) ou de receber postais de Natal no meio de Junho.
confio no atinado juízo do carteiro de me tocar à campainha caso a carta lhe cheire a amor ou o volume indiciar presente do bom. até à data, no que toca a embrulhos volumosos, a preguiça do senhor tem sido uma mais valia. no que toca às cartas de amor, pela sua ausência, presumo que as leve para casa para poupar o meu pobre coração.
hoje, portanto, havia volume e desculpou-se o carteiro quando cheguei lá a baixo 'é que está a chover tanto que não me deu para subir as escada', fiz de conta que entendi a lógica e subi com os olhos no remetente - Templo Budista, R. Dr. Josivalter - é partidinha, né? - Foz do Iguaçu, Brasil, Depois contei os selos - 12 selos entre os quais um de manicure (valor de R$1), um de sapateiro (valor de R$0,20) e um trompete (valor R$0,10) o que, parecendo que não, mostra muito o valor das coisas neste mundo. Tudo certo até agora. Um templo budista manda-me um volume para o local de trabalho, num dia de chuva, pejado de selos a mostrar a escala de valores.
desvio os olhos do embrulho, para abrir a porta do hostel et voilá - a borboleta. havia já 3 dias que vivia na ombreira da porta - tinha o ar cinzentão das traças que nunca se casam, gorda, com filhos espalhados por todos os armários a comer as camisolas de inverno enquanto a gente se distraí com os finos nas esplanadas, sempre ali à ombreira da porta como se ela fosse uma janela, a espiar quem entra e quem sai. mesmo assim, durante os últimos dias, dei-lhe educadamente os bons-dias e as boas-noites sem que ela sequer pestanejasse. ainda hoje de manhã, juro que a gorda senhora continuava instalada no canto superior esquerdo com ar sisudo. agora está no tapete. não está de barriga para o ar e não parece suicídio, não há asas nem antenas espalhadas, mas vê-se o rebordo laranja da combinação pelo que é óbvio que algo não está bem. olho para o embrulho do templo budista e olhe para a gorda senhora e penso se não terá sido Buddha a falar pela primeira vez do bater das asas de uma borboleta em Tóquio (Japan is always on mind) e o consequente tornado no novo mundo e se hoje alguém reclamar da falta de vento (nem uma agulha bulia na quieta melancolia das cerejeiras de Quioto) saibam que tudo começou à minha porta.
pego na senhora e no embrulho e pouso os dois na secretária. agora depois de morta, com as saias laranja à mostra a borboleta não parece assim tão gorda nem parece tão traça e pesa-me a consciência da história que lhe inventei quando a vi pela primeira vez. abro-lhe as asas tentando não lhe roubar o pó mágico que a permitia voar, só para a ver melhor. é bonita e podia ter vivido num jardim qualquer a pousar levemente como um hipopótamo de flor em flor.
volto-me para o embrulho. hesito antes de abrir. não tenho nada contra templos budistas, muito pelo contrário, mas estranho a ausência de nomes no remetente. o meu nome também não está no destinatário. abro de qualquer das formas, devagar, para não danificar nada, nem os selos, nem os carimbos espalhados por todo o envelope, poder guardar a morada Rua Dr. Josivalter, espreito a medo quando começo a ver contornos rosa e roxo. abro tudo e sai de dentro do envelope de papel industrial um saco plástico cor de rosa, com ursos e balões a sweet heart escrito repetidamente em fonte hello kitty. (não se questionem caros leitores, não voltem ao discurso do só tu Helena, já estás a inventar, estavas a ir tão bem e agora tinhas de meter ursos e balões e sacos de plástico cor de rosa! é verdade! e por ser verdade e porque eu, apesar de já não mentir há cerca de 20 anos, desde o fatídico episódio do Pedro e do Lobo, sei que a minha credibilidade ainda é duvidosa, documentei tudo em fotografia!). Dentro do saco de plástico cor de rosa e roxo com ursinhos com balões e com letras hello kitty a dizer sweet heart há livros. viro o saco 3 vezes à procura de uma nota, um envelope, uma assinatura e nada. abro finalmente o saco e há 10 livros. 5 livros diferentes. repetidos são "O Método Básico de Meditação" - 2 volumes e um caderno de argolas com uma gravura de um monge budista, uma inscrição ORBI Ordem Budista Internacional e uma outra inscrição em caracteres que penso serem chineses que eu não sei o que diz - 5 volumes. Para além deste 2, há o "Sabedoria - Revista bimestral do templo Tzong Kwan - Setembro, 14. Volume 77", o "O "Tao" da saúde e longevidade" do Mestre Pu-Hsien, com tradução de Victoria Lin e revisão de Chen Tsung Jye e o último volume, de Walpola Rahula, "What the Buddha taugh". Folheio cuidadosamente cada um dos livros e suas repetições à procura da carta que começaria por querida Helena, sei que andas meio perdida. Leio atentamente todos os nomes de todas as capas e contra capas à procura de um nome familiar (o Hsien diz-me alguma coisa e lembro-me do meu hóspede de Singapura que se passeava pela Europa numa mota comprada no Reino Unido para o efeito em 2012 mas era Tan e a última vez que falamos, em Janeiro deste ano a desejar o bom ano, não assinou mestre de coisa nenhuma). Nada. Nenhum livro vem com dedicatória, o saco de plástico com de rosa não trás recibo assinado. Ainda ligo à minha irmã mais velha - faz sentido, ela é que é toda budista, meditações, mindfullness e aposto que jurou a nossa senhora de fátima que me havia de salvar a alma desse por onde desse, faz sentido sim senhor, só pode, até porque ela gosta de mandar coisas pelo correio. Mas não, não só negou como já quer tudo para ela.
Hoje encontrei uma borboleta morta no tapete e por ter faltado à aula de anatomia patológica não sei como realizar necrópsias a membros da ordem Lepidóptera e por isso não posso dizer que foi por causas naturais.
Buddha is in the house, dentro de uma saco plástico cor de rosa e não sei quem o mandou até aqui.
Prometo, de qualquer das formas, de ler tudo até ao fim. não é hoje, que hoje estou noutras azáfamas. noutro dia. um dia. ler tudo e embora os bichos carpinteiros (e o gato) me impeçam de qualquer tentativa de meditação, ponderarei sobre o assunto e logo voltarei para vos contar.
sexta-feira, setembro 11
Um dia, antes de dormir, pintei o cabelo de cor de rosa (foi ontem), para descobrir no dia seguinte que essa era a exacta cor tendência para a próxima estação. Ainda antes de descobrir isto, porque da janela do meu quarto que dá para nascente e às 7.21, depois de calar momentaneamente o despertador, me informa da metereologia, havia nuvens que não me deixavam ver o plátano gigante do separador central da avenida, decidi ainda no ninho, edredon de meia estação enfiado até ao nariz, que hoje sairia de casa de casaco e quis o acaso que o primeiro da terceira gaveta a contar de cima fosse rosa como o meu cabelo e como a tendência, como vim a saber mais tarde.
De rosa, por acaso, pintei os lábios apenas porque não gosto das coisas muito arrumadinhas e já tinha as unhas de vermelho.
Antes de sair de casa, mesmo antes de rodar a chave, já passavam das 8.17 e os segundos já contavam na minha cabeça - daqui à padaria 143 segundos, da padaria ao hostel 66 segundos, escadas a galope, pousar carteira e chaves 43 segundos, quanto tempo leva a água para o café ferver (depende da temperatura da água no cano, se já alguém acordou e puxou a água quente do termoacumulador ou se ainda há o vazio da noite) entre 65 a 98 segundos, ainda falta pôr as compotas e o gelo à volta dos iogurtes, enquanto rodo a chaves de casa e faço a matemática possível, ainda olho as rosas de Carreço, secas, e lembro-me que rosas eram as flores onde pousavas os olhos nos grandes e calmos dias de Setembro e corro dia fora.
quarta-feira, setembro 2
Reza a história que hoje, não estando o dia a correr bem, faltavam 10 minutos para as 8, exactamente os mesmos 10 minutos que faltavam para o supermercado fechar, corri elevador abaixo e rua acima para comprar vinho e chocolate e a conta foi exactamente 7.77 €.
Provas não há porque pedi à menina para deitar o talão ao lixo para ninguém saber que na minha vida até as contas batem certo.
E uma pessoa se lembrar disto numa noite fresca e triste de Setembro? Há alguma justiça no mundo? Alguém merece?





