domingo, agosto 31
Aquele momento em que pensas que aguentaste tudo, que já ultrapassaste a fase má, que já estás fina, e que descobres que ainda há conversas que te põem em lágrimas, que haverá sempre versões da mesma velha história que te porão de joelhos e que haverá sempre aqueles 3 dias de férias que merecias mais do que a maioria das pessoas que vais passar em casa dos pais a chorar porque mesmo isso é menos mau do que o planeado.
sábado, agosto 30
Os divórcios são sempre difíceis. Quem fica com o quê depois de 10 anos de casa em comum. Eu fiquei com a tostadeira. Também fiquei com quase tudo o resto, mas não me importo muito e nem é por mal. 10 anos em que fui eu que comprei quase tudo mas salvo erro a tostadeira nem era minha, mas agora é e ainda bem, que ele nunca soube fazer mais do que tostas mistas e mesmo isso mal. Nunca se lembrou que oregãos é um ingrediente essencial para qualquer tosta, e por isto é no mínimo legítimo que a tostadeira tenha ficado comigo. Como o gato (presente de anos, por isso dele) ou os quadros da parede. As máquinas de lavar as coisas todas, o berbequim (meu), a cama, o sofá, o frigorífico, a comida toda que estava no frigorífico, incluindo os tuperwares com comida feita pela irmã dele. 10 anos em que eu comprei tudo para nós, para ele, pintei todas as paredes, servi todos os pequenos-almoços na varanda, decidi todas as férias e lhe comprei as sapatilhas.
Hoje ele levou os amigos e haverá sempre dias assim, sextas à noite em que ficarei em casa para que nenhum dos amigos tenha de fazer a impossível escolha - de quem gostas mais? do papá ou da mamã, fico em casa com os lápis de cor e com os oregãos e o bom vinho, na esperança de que se a nossa separação vier à baila, alguém lhe diga com as letras todas - é verdade, ficaste a perder no divórcio, mas não foi nos bens materiais.
Hoje ele levou os amigos e haverá sempre dias assim, sextas à noite em que ficarei em casa para que nenhum dos amigos tenha de fazer a impossível escolha - de quem gostas mais? do papá ou da mamã, fico em casa com os lápis de cor e com os oregãos e o bom vinho, na esperança de que se a nossa separação vier à baila, alguém lhe diga com as letras todas - é verdade, ficaste a perder no divórcio, mas não foi nos bens materiais.
terça-feira, agosto 26
O meu pai não teve rapazes. Somos 3 raparigas. Mais a mãe, a empregada,
as cadelas, as gatas, a sogra durante uns tempos. Uma casa cheia de mulheres pequenas, género feminino espalhado pela casa toda, todos os quartos, pensos higiénicos em todos os quartos de banho, alguns maus humores esterogénicos, mas não muito - talvez a síndrome pré-menstrual seja mais evidente quando há muita testosterona a assistir, nunca havia muitas fitas lá em casa, nem desejos nem choros nem gritaria fora da habitual confusão de uma casa cheia de mulheres. Também não havia, que me recorde, cor-de-rosa. Nem bonecadas espalhadas pelos cantos, havia uma única barbie que foi oferta de uma vizinha alemã ao ver o meu desespero na relutância da minha mãe em oferecer-me o icon feminino da pernas desproporcionais e copas D+ - nós que temos perna curta e mamas pequenas e que fomos educadas a fazer-nos valer mais pelo que nos passa dentro da cabeça do que pelos sedosos cabelos loiros. E mesmo essa bárbie, que depois passou para a mais nova, não vestia mini-saias de seda rosa choque como as outras - vestia vestidos pelo joelho com padrão igual aos nossos que a minha mãe se entretinha a fazer a partir das nossas bainhas no sobe baixa remenda da máquina de costura de quem tem 3 filhas com alguns anos de diferença. Não havia fitas de veludo para o cabelo porque não era preciso - os cabelos eram todos curtos e assim não havia choros na hora de pentear. Não havia sapatos de verniz mas havia galochas com bonecada diversa.
O meu pai não teve rapazes mas também não lhes sentiu a falta que quem cresce em casas assim, não tem o género marcado na pele e como tal, tanto aprende a fazer tartes de chocolate e natas como pode manusear um machado.
domingo, agosto 24
às vezes a vida dá-nos um pontapé e nem sempre é injusto, nem sempre é mau levar um pontapé. às vezes é mesmo o que precisamos, um valente pontapé na canela, daqueles que nos deixam a ganir e a dizer what the fuck. na pior das hipóteses faz-nos parar de correr um bocado. deixa-nos a mancar e a mancar passamos pelas coisas mais devagar, olhamos para elas com olhos de ver.
às vezes a vida dá-nos 20 pontapés e aí já não é tão bom. e só não entendo como continuo em pé, com as pernas todas pisadas, como ainda escovo o cabelo e vou trabalhar com um sorriso na cara. a mancar, toda negrinha, com o pulso torcido e neste momento só me questiono - o que é que é perciso para me deitar abaixo? e digo isto sem cinísmo. já nem reclamo com a vida. olho para o pontapé e digo - olha-me este? que quer este? o que é que eu não vi desta vez? como é que me vou virar? e é que vou! não tenham dúvidas! e não vai ser de gatas, nem com lágrima no canto do olho que isso já passou. isso foi um momento mau ali em Janeiro, talvez Fevereiro, mas já estamos quase em Setembro e Setembro é o meu mês!
se for preciso sei onde se vende um incenso "sai de mim coisa ruim", e ainda nem sequer experimentei acender velinhas à nossa senhora de uma coisa qualquer ou juntar-me à festa da igreja universal do reino de deus que é logo ali do outro lado da rua na minha casa, e até aposto que é divertido, que eu bem os ouço do alto do meu 5º andar aos domingos à noite.
vai tudo correr bem. daqui é a nada é Novembro, querida vida, e em Novembro eu tenho férias. 15 dias só para mim. e se até lá tudo continuar a dar para o torto, lá irei torta de férias, levarei o reumon-loção e uns brufens na mala et voilá mundo comigo, tudo isto terá importância nenhuma quando entrar no avião.
e se Dezembro continuar a empurrar-me escadas abaixo, oh do not worry, não há nada que eu não seja capaz de fazer.
querida mãe, vê se dormes qualquer coisa, que eu por aqui durmo muito bem.
às vezes a vida dá-nos 20 pontapés e aí já não é tão bom. e só não entendo como continuo em pé, com as pernas todas pisadas, como ainda escovo o cabelo e vou trabalhar com um sorriso na cara. a mancar, toda negrinha, com o pulso torcido e neste momento só me questiono - o que é que é perciso para me deitar abaixo? e digo isto sem cinísmo. já nem reclamo com a vida. olho para o pontapé e digo - olha-me este? que quer este? o que é que eu não vi desta vez? como é que me vou virar? e é que vou! não tenham dúvidas! e não vai ser de gatas, nem com lágrima no canto do olho que isso já passou. isso foi um momento mau ali em Janeiro, talvez Fevereiro, mas já estamos quase em Setembro e Setembro é o meu mês!
se for preciso sei onde se vende um incenso "sai de mim coisa ruim", e ainda nem sequer experimentei acender velinhas à nossa senhora de uma coisa qualquer ou juntar-me à festa da igreja universal do reino de deus que é logo ali do outro lado da rua na minha casa, e até aposto que é divertido, que eu bem os ouço do alto do meu 5º andar aos domingos à noite.
vai tudo correr bem. daqui é a nada é Novembro, querida vida, e em Novembro eu tenho férias. 15 dias só para mim. e se até lá tudo continuar a dar para o torto, lá irei torta de férias, levarei o reumon-loção e uns brufens na mala et voilá mundo comigo, tudo isto terá importância nenhuma quando entrar no avião.
e se Dezembro continuar a empurrar-me escadas abaixo, oh do not worry, não há nada que eu não seja capaz de fazer.
querida mãe, vê se dormes qualquer coisa, que eu por aqui durmo muito bem.
quarta-feira, agosto 20
e dançariamos, meu amor, descalços na sala. mesmo sem música, só assim, devagarinho. eu descansando a cabeça no teu ombro, cada um dentro da sua cabeça, cada um com mil palavras por dizer, palavras sem forma, nem som, talvez um suspiro. Ficariamos ali, meu amor, olhos fechados, até um de nós ter frio, até me pisares ou eu te pisar ou uma buzina soar lá fora, ou qualquer coisa que quebrasse o éter.
terça-feira, agosto 5
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)
ai como me dói esta diferença de género. os homens com os pés na mesa de café e as mulheres a aspirar o mundo todo como eu aspiro. a casa. o amor. as crianças. as flores todas. a calma e o rodopio. e os homens que só aspiram quando é páscoa ou quando as mulheres estão doentes, o que é nunca.
a maioria das minhas amigas casou mal. é mesmo assim. não é que não sejam felizes, acho que são, mas não têm um grande companheiro em casa. ajudam. vão ajudando. quando elas pedem, até vão eles ao supermercado às compras mensais. se pedirem muito e se houver um impedimento de maior, até são capazes de levar os miúdos ao pediatra. é claro que em troca elas desunham-se o resto do ano.
diz-me um amigo com um sorriso na cara, e ao mesmo tempo com alguma pena de mim pendurada nos olhos, que querias rapariga? há 100 anos estavas fechada em casa, nem votavas nem tinhas emprego nem tinhas direito a opinião. e eu suspiro. é verdade. mas nós mulheres temos o cérebro em reboliço há muitos milhares de anos, foram muitos milhares de anos sentadas à frente do toucador a pintar as bochechas com afinco mas o cérebro não pára enquanto pintamos, sabem? Não votavamos nem trabalhavamos nem podiamos sair do país e estavamos destinadas a deixar a barriga crescer vezes sem conta, mas pensávamos ai quando isto der a volta... ai quando eu puder estudar ler escrever sair para a rua de mini-saia trabalhar numa empresa ganhar dinheiro meu. ai que ninguém me pára.
a minha empregada que trabalha de sol a sol, as manhãs todas e as tardes todas e que corre de um canto para o outra da cidade de autocarro, a minha empregada que até nem se importa de trabalhar aos feriados porque às vezes se diverte mais em minha casa do que na casa dela que o marido não a leva a passear, a minha empregada que é uma despachada, pede para receber o subsídio de férias em dinheiro que é para o marido não lhe arranjar destino para aquilo e assim ainda compra umas sapatilhas iguais às minhas, aquelas vermelhas que ela gosta tanto.
não sei se são os homens que não são companheiros ou se são as minhas amigas que se contentam com pouco. eu também já me contentei com pouco. ou contentei-me com o que havia, muito ou pouco. elas também se contentam com o que há. ele até ajuda, dizem de vez em quando. e eu vejo-os de braços cruzados enquanto elas correm para apanhar os 2 filhos que cada um corre para o seu lado e eles de braços cruzados, olhando ao longe para ver se está tudo em ordem e enquanto nenhum estiver na eminência de se meter debaixo de um carro posso continuar aqui a falar com o meu amigo sobre a crise do BES.
e eu sempre a pensar, dá-lhe um grito. envergonha-o à frente de toda a gente, na praça de república, diz-lhe que já se mexia um bocadinho. e depois lembro-me de quão ofendido o meu ex-namorado ficava quando eu fazia piada da sua perguiça, como se ela existisse mas não fosse para ser falada. lembro-me como ele me deixou porque eu nunca parava em casa, porque não tinha tempo para as noites de copos até às 9 da manhã, porque eu não queria ser como elas, porque eu também não gosto de ir ao supermercado, também não gosto de arrumar a roupa toda, porque eu também gosto de chegar a casa e ter a comida na mesa e poder pôr os pés em cima da mesa e beber um martini e penso ó miúdas aguentem que isto de ficar sozinha é o que acontece a quem acha que o século XXI já chegou às mulheres.
deixem-se estar que assim ainda têm uns mimos e alguém com quem dividir as contas e com quem marcar férias no Alentejo, deixem-se estar quietas. pode ser que as vossas filhas tenham melhor sorte. deixem-se estar assim, ó cheias de doçura, ó super-mulheres, deixem-se estar que não há principes encantados, até eu já descobri isso. deixem-se estar que não há nada melhor do que dormir enroscada.
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)
ai como me dói esta diferença de género. os homens com os pés na mesa de café e as mulheres a aspirar o mundo todo como eu aspiro. a casa. o amor. as crianças. as flores todas. a calma e o rodopio. e os homens que só aspiram quando é páscoa ou quando as mulheres estão doentes, o que é nunca.
a maioria das minhas amigas casou mal. é mesmo assim. não é que não sejam felizes, acho que são, mas não têm um grande companheiro em casa. ajudam. vão ajudando. quando elas pedem, até vão eles ao supermercado às compras mensais. se pedirem muito e se houver um impedimento de maior, até são capazes de levar os miúdos ao pediatra. é claro que em troca elas desunham-se o resto do ano.
diz-me um amigo com um sorriso na cara, e ao mesmo tempo com alguma pena de mim pendurada nos olhos, que querias rapariga? há 100 anos estavas fechada em casa, nem votavas nem tinhas emprego nem tinhas direito a opinião. e eu suspiro. é verdade. mas nós mulheres temos o cérebro em reboliço há muitos milhares de anos, foram muitos milhares de anos sentadas à frente do toucador a pintar as bochechas com afinco mas o cérebro não pára enquanto pintamos, sabem? Não votavamos nem trabalhavamos nem podiamos sair do país e estavamos destinadas a deixar a barriga crescer vezes sem conta, mas pensávamos ai quando isto der a volta... ai quando eu puder estudar ler escrever sair para a rua de mini-saia trabalhar numa empresa ganhar dinheiro meu. ai que ninguém me pára.
a minha empregada que trabalha de sol a sol, as manhãs todas e as tardes todas e que corre de um canto para o outra da cidade de autocarro, a minha empregada que até nem se importa de trabalhar aos feriados porque às vezes se diverte mais em minha casa do que na casa dela que o marido não a leva a passear, a minha empregada que é uma despachada, pede para receber o subsídio de férias em dinheiro que é para o marido não lhe arranjar destino para aquilo e assim ainda compra umas sapatilhas iguais às minhas, aquelas vermelhas que ela gosta tanto.
não sei se são os homens que não são companheiros ou se são as minhas amigas que se contentam com pouco. eu também já me contentei com pouco. ou contentei-me com o que havia, muito ou pouco. elas também se contentam com o que há. ele até ajuda, dizem de vez em quando. e eu vejo-os de braços cruzados enquanto elas correm para apanhar os 2 filhos que cada um corre para o seu lado e eles de braços cruzados, olhando ao longe para ver se está tudo em ordem e enquanto nenhum estiver na eminência de se meter debaixo de um carro posso continuar aqui a falar com o meu amigo sobre a crise do BES.
e eu sempre a pensar, dá-lhe um grito. envergonha-o à frente de toda a gente, na praça de república, diz-lhe que já se mexia um bocadinho. e depois lembro-me de quão ofendido o meu ex-namorado ficava quando eu fazia piada da sua perguiça, como se ela existisse mas não fosse para ser falada. lembro-me como ele me deixou porque eu nunca parava em casa, porque não tinha tempo para as noites de copos até às 9 da manhã, porque eu não queria ser como elas, porque eu também não gosto de ir ao supermercado, também não gosto de arrumar a roupa toda, porque eu também gosto de chegar a casa e ter a comida na mesa e poder pôr os pés em cima da mesa e beber um martini e penso ó miúdas aguentem que isto de ficar sozinha é o que acontece a quem acha que o século XXI já chegou às mulheres.
deixem-se estar que assim ainda têm uns mimos e alguém com quem dividir as contas e com quem marcar férias no Alentejo, deixem-se estar quietas. pode ser que as vossas filhas tenham melhor sorte. deixem-se estar assim, ó cheias de doçura, ó super-mulheres, deixem-se estar que não há principes encantados, até eu já descobri isso. deixem-se estar que não há nada melhor do que dormir enroscada.
domingo, agosto 3
ele disse que se eu pudesse pintava mundo todo. todos os muros velhos, as paredes do meu quarto, cadeiras partidas, folhas de papel frescas e brancas, as costas de todos os amantes, fotografias antigas. é verdade, se eu pudesse juntava um pouco de amarelo, algum azul petróleo, risquinhas brancas, uma outra flor a este mundo tão triste. e este Verão tão incerto, tão cinzento a cada dois dias, este ano tão monótono, tão cheio de altos e baixos e mesmo assim tão feito de dias uns a seguir aos outros, pintava-o todo de trincha e havia de ser azul traineira, ou verde musgo húmido ao sol da manhã.
O que ele não sabe, o meu amor, é que debaixo da manga comprida do casaco a que estes dias de Agosto sempre obriga, o meu braço direito trás sempre um desenho a lembrar-me que também o meu corpo pode ter melhores dias e que, apesar do vento e da chuva e das contas para pagar, apesar das más notícias e da crónica falta de liquidez, sou eu mesma que escrevo o meu fado e que há flores e pássaros e musiquinhas pop a pedir para serem vestidas em antebraços pálidos.
O que ele não sabe, o meu amor, é que debaixo da manga comprida do casaco a que estes dias de Agosto sempre obriga, o meu braço direito trás sempre um desenho a lembrar-me que também o meu corpo pode ter melhores dias e que, apesar do vento e da chuva e das contas para pagar, apesar das más notícias e da crónica falta de liquidez, sou eu mesma que escrevo o meu fado e que há flores e pássaros e musiquinhas pop a pedir para serem vestidas em antebraços pálidos.
sexta-feira, agosto 1
os carteiros já não sabem porque é que alguém os inventou. já esqueceram. pensam que estão ao serviço das finanças ou do senhor do fraque. pensam que dentro de todos os envelopes vêm contas para pagar porque é isso que os seus colegas carteiros lhes deixam nas suas caixas de correio. a conta de luz, a conta da água, a conta do gás, seguro do carro, finanças, extractos do banco com números cada mês mais minguantes, a anuidade da revista, a notificação do IMI, do IMT, a carta do tribunal por causa do processo do divórcio, das partilhas complicadas que não vai sobrar nada depois de pago o advogado e ainda vou ter de matar a cunhada e aí é que vai ser. as contas todas do mundo, até as contas do anterior inquilino, contas para quem nunca aqui morou, mais os catálogos da La Redoute, da Moviflor, do Readers Digest, a publicidade do stand de veículos usados, do minipreço, do professor caramba que promete curar todos os males do mundo, a publicidade dos limpa-chaminés e eu queria era fechar a lareira que aquilo só serve para entrar frio nos dias de vento e inverno e assim aumentar ainda mais a conta da luz e a conta do gás.
os carteiros já não sabem, mas há cartas com marcas de baton, há cartas com perfume, há cartas com postais de amigos para colar no frigorífico, envelopes almofadados que atravessam mares cheinhos de amor e saudades, há carinhos que viajam dentro de envelopes.
os carteiros não sabem que há pessoas como eu que escrevem cartas todos os dias e que se pudessem, se tivessem tempo de ir até aos cada vez mais raros postos de correio, as mandavam a todas, escritas à mão ou dactilografadas na minha Smith-Corona HCESAR herdada do avô, onde aprendi a escrever cartas ainda antes de saber escrever kksdljfgirgkjxbvjksbvjksf kdfjs odfjksj f flsçdlkf plim tab e com a qual ainda brinco no dias de hoje porque há coisas que por mais velhas que sejam nunca perdem o seu charme e cartas de amor e máquinas de escrever são só duas dessas coisas e não há teclados ou emails que as substituam.
os carteiros não sabem porque nunca tiveram um amor embarcado ou em terra distante, porque para eles o atirar o envelope para dentro da caixa de metal é só um gesto mecânico e nunca suspiraram pela hora do carteiro porque os carteiros são eles próprios e nínguém suspira pela sua própria hora.
os carteiros não sabem que há pessoas como eu, que passaram todas as contas para facturas electrónicas e que quando vão à caixa do correio é com o coração apertado, numa louca esperança de um mimo que o mundo me habituou mal e já recebi cartas de amor, chocolates, livros inesperados de amigos escritores, cartas de amigos emigrados, desenhos dos meus sobrinhos, postais de sítios distantes e outros do outro lado da rua e que o meu frigorífico tamanho familiar enorme para a família que não tenho, não tem espaço para mais e que a única peça de madeira que fiz nas aulas de trabalhos manuais foi um pequeno baú que já não fecha e não é pela falta de jeito mas porque já não cabem dentro dele 34 anos de cartas e postais, alguns já com a tinta tão desaparecida que só a minha excelente memória me permite lembrar o beijo que os meus pais mandaram das suas férias a Bruxelas tinha eu 3 anos.
o meu carteiro não sabe porque se calhar já nem sequer é carteiro, às tantas é apenas funcionário de nível III, e por isso mesmo foi com muita pena que eu hoje lhe deixei uma reclamação que talvez lhe retire a promoção daqui a 25 anos, porque ele não sabe que o meu coração saltita ao ver selos e carimbos e porque ninguém lhe ensinou que o amor às vezes vai de uma cidade para a outra dentro de um envelope de correio verde pré-pago e hoje era um desses dias. tenho pena que as pernas lhe cansem e que o prédio de 3 andares sem elevador lhe seja um entrave e que a falta de amor aos que saboreiam os presentes assim mesmo, em pacotes almofadados, o tenham feito atirar o meu presente-surpresa para cima da caixa de correio na entrada do prédio, como se fosse mais uma conta que se não fosse entregue haveria sempre de chegar ao seu destino, mais dia menos dia. tenho pena que ele nunca tenha recebido um pacote-surpresa. tenho pena que ele tenha pressa de acabar o seu serviço para poder chegar ao final do dia e tirar a farda de funcionário nível III e sentar-se a ver televisão. tenho pena, senhor carteiro, que hoje o seu dia termine com um raspanete e digo-lhe só que até tem sorte, que podia ter sido com uma reclamação por escrito, tivesse eu tempo e não estivesse tão feliz pelo facto de o acaso não ter querido que o meu presente fosse roubado da entrada do prédio e de ainda haver pessoas que, como eu, adoram selos e envelopes e a espera da entrega de amor via postal
os carteiros já não sabem, mas há cartas com marcas de baton, há cartas com perfume, há cartas com postais de amigos para colar no frigorífico, envelopes almofadados que atravessam mares cheinhos de amor e saudades, há carinhos que viajam dentro de envelopes.
os carteiros não sabem que há pessoas como eu que escrevem cartas todos os dias e que se pudessem, se tivessem tempo de ir até aos cada vez mais raros postos de correio, as mandavam a todas, escritas à mão ou dactilografadas na minha Smith-Corona HCESAR herdada do avô, onde aprendi a escrever cartas ainda antes de saber escrever kksdljfgirgkjxbvjksbvjksf kdfjs odfjksj f flsçdlkf plim tab e com a qual ainda brinco no dias de hoje porque há coisas que por mais velhas que sejam nunca perdem o seu charme e cartas de amor e máquinas de escrever são só duas dessas coisas e não há teclados ou emails que as substituam.
os carteiros não sabem porque nunca tiveram um amor embarcado ou em terra distante, porque para eles o atirar o envelope para dentro da caixa de metal é só um gesto mecânico e nunca suspiraram pela hora do carteiro porque os carteiros são eles próprios e nínguém suspira pela sua própria hora.
os carteiros não sabem que há pessoas como eu, que passaram todas as contas para facturas electrónicas e que quando vão à caixa do correio é com o coração apertado, numa louca esperança de um mimo que o mundo me habituou mal e já recebi cartas de amor, chocolates, livros inesperados de amigos escritores, cartas de amigos emigrados, desenhos dos meus sobrinhos, postais de sítios distantes e outros do outro lado da rua e que o meu frigorífico tamanho familiar enorme para a família que não tenho, não tem espaço para mais e que a única peça de madeira que fiz nas aulas de trabalhos manuais foi um pequeno baú que já não fecha e não é pela falta de jeito mas porque já não cabem dentro dele 34 anos de cartas e postais, alguns já com a tinta tão desaparecida que só a minha excelente memória me permite lembrar o beijo que os meus pais mandaram das suas férias a Bruxelas tinha eu 3 anos.
o meu carteiro não sabe porque se calhar já nem sequer é carteiro, às tantas é apenas funcionário de nível III, e por isso mesmo foi com muita pena que eu hoje lhe deixei uma reclamação que talvez lhe retire a promoção daqui a 25 anos, porque ele não sabe que o meu coração saltita ao ver selos e carimbos e porque ninguém lhe ensinou que o amor às vezes vai de uma cidade para a outra dentro de um envelope de correio verde pré-pago e hoje era um desses dias. tenho pena que as pernas lhe cansem e que o prédio de 3 andares sem elevador lhe seja um entrave e que a falta de amor aos que saboreiam os presentes assim mesmo, em pacotes almofadados, o tenham feito atirar o meu presente-surpresa para cima da caixa de correio na entrada do prédio, como se fosse mais uma conta que se não fosse entregue haveria sempre de chegar ao seu destino, mais dia menos dia. tenho pena que ele nunca tenha recebido um pacote-surpresa. tenho pena que ele tenha pressa de acabar o seu serviço para poder chegar ao final do dia e tirar a farda de funcionário nível III e sentar-se a ver televisão. tenho pena, senhor carteiro, que hoje o seu dia termine com um raspanete e digo-lhe só que até tem sorte, que podia ter sido com uma reclamação por escrito, tivesse eu tempo e não estivesse tão feliz pelo facto de o acaso não ter querido que o meu presente fosse roubado da entrada do prédio e de ainda haver pessoas que, como eu, adoram selos e envelopes e a espera da entrega de amor via postal
Primeiro dia de Agosto e o tempo está frio e está cinzento e está triste. Hoje é um dia a preto e branco e não há sombras e como não há sombras não tirarei fotografias o que torna o dia ainda mais frio e cinzento e triste.
Se pudesse (ai se eu pudesse...) atirava-nos para o sofá - tu eu e o gato - cobria-nos com uma manta, fazia uma tarte de pêra e um chá de lúcia-lima e faziamos uma maratona de filmes, ou viamos a volta à Portugal em bicicleta a chegar ali à Avenida da Liberdade a partir do sofá, ou outra coisa qualquer, o dia inteiro em cima do sofá - é proibido pôr o pé no chão! Punha o rádio no on e no off o telefone. Não falariamos do massacre de Gaza, não pegariamos no computador. Se pudesse, hoje não saia à rua nem que os cigarros acabassem, nem que não houvesse nada no frigorífico e nos apetecesse gelado. Trancava a porta e abria todos os estores e ficavamos a olhar para o mundo a passar do outro lado do vidro.
Mais nada.
Os teus braços e os meus braços e as minhas pernas enroladas nas tuas.
Se pudesse (ai se eu pudesse...) atirava-nos para o sofá - tu eu e o gato - cobria-nos com uma manta, fazia uma tarte de pêra e um chá de lúcia-lima e faziamos uma maratona de filmes, ou viamos a volta à Portugal em bicicleta a chegar ali à Avenida da Liberdade a partir do sofá, ou outra coisa qualquer, o dia inteiro em cima do sofá - é proibido pôr o pé no chão! Punha o rádio no on e no off o telefone. Não falariamos do massacre de Gaza, não pegariamos no computador. Se pudesse, hoje não saia à rua nem que os cigarros acabassem, nem que não houvesse nada no frigorífico e nos apetecesse gelado. Trancava a porta e abria todos os estores e ficavamos a olhar para o mundo a passar do outro lado do vidro.
Mais nada.
Os teus braços e os meus braços e as minhas pernas enroladas nas tuas.
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