terça-feira, agosto 26

O meu pai não teve rapazes. Somos 3 raparigas. Mais a mãe, a empregada, as cadelas, as gatas, a sogra durante uns tempos. Uma casa cheia de mulheres pequenas, género feminino espalhado pela casa toda, todos os quartos, pensos higiénicos em todos os quartos de banho, alguns maus humores esterogénicos, mas não muito - talvez a síndrome pré-menstrual seja mais evidente quando há muita testosterona a assistir, nunca havia muitas fitas lá em casa, nem desejos nem choros nem gritaria fora da habitual confusão de uma casa cheia de mulheres. Também não havia, que me recorde, cor-de-rosa. Nem bonecadas espalhadas pelos cantos, havia uma única barbie que foi oferta de uma vizinha alemã ao ver o meu desespero na relutância da minha mãe em oferecer-me o icon feminino da pernas desproporcionais e copas D+ - nós que temos perna curta e mamas pequenas e que fomos educadas a fazer-nos valer mais pelo que nos passa dentro da cabeça do que pelos sedosos cabelos loiros. E mesmo essa bárbie, que depois passou para a mais nova, não vestia mini-saias de seda rosa choque como as outras - vestia vestidos pelo joelho com padrão igual aos nossos que a minha mãe se entretinha a fazer a partir das nossas bainhas no sobe baixa remenda da máquina de costura de quem tem 3 filhas com alguns anos de diferença. Não havia fitas de veludo para o cabelo porque não era preciso - os cabelos eram todos curtos e assim não havia choros na hora de pentear. Não havia sapatos de verniz mas havia galochas com bonecada diversa.
O meu pai não teve rapazes mas também não lhes sentiu a falta que quem cresce em casas assim, não tem o género marcado na pele e como tal, tanto aprende a fazer tartes de chocolate e natas como pode manusear um machado.


 

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