As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)
ai como me dói esta diferença de género. os homens com os pés na mesa de café e as mulheres a aspirar o mundo todo como eu aspiro. a casa. o amor. as crianças. as flores todas. a calma e o rodopio. e os homens que só aspiram quando é páscoa ou quando as mulheres estão doentes, o que é nunca.
a maioria das minhas amigas casou mal. é mesmo assim. não é que não sejam felizes, acho que são, mas não têm um grande companheiro em casa. ajudam. vão ajudando. quando elas pedem, até vão eles ao supermercado às compras mensais. se pedirem muito e se houver um impedimento de maior, até são capazes de levar os miúdos ao pediatra. é claro que em troca elas desunham-se o resto do ano.
diz-me um amigo com um sorriso na cara, e ao mesmo tempo com alguma pena de mim pendurada nos olhos, que querias rapariga? há 100 anos estavas fechada em casa, nem votavas nem tinhas emprego nem tinhas direito a opinião. e eu suspiro. é verdade. mas nós mulheres temos o cérebro em reboliço há muitos milhares de anos, foram muitos milhares de anos sentadas à frente do toucador a pintar as bochechas com afinco mas o cérebro não pára enquanto pintamos, sabem? Não votavamos nem trabalhavamos nem podiamos sair do país e estavamos destinadas a deixar a barriga crescer vezes sem conta, mas pensávamos ai quando isto der a volta... ai quando eu puder estudar ler escrever sair para a rua de mini-saia trabalhar numa empresa ganhar dinheiro meu. ai que ninguém me pára.
a minha empregada que trabalha de sol a sol, as manhãs todas e as tardes todas e que corre de um canto para o outra da cidade de autocarro, a minha empregada que até nem se importa de trabalhar aos feriados porque às vezes se diverte mais em minha casa do que na casa dela que o marido não a leva a passear, a minha empregada que é uma despachada, pede para receber o subsídio de férias em dinheiro que é para o marido não lhe arranjar destino para aquilo e assim ainda compra umas sapatilhas iguais às minhas, aquelas vermelhas que ela gosta tanto.
não sei se são os homens que não são companheiros ou se são as minhas amigas que se contentam com pouco. eu também já me contentei com pouco. ou contentei-me com o que havia, muito ou pouco. elas também se contentam com o que há. ele até ajuda, dizem de vez em quando. e eu vejo-os de braços cruzados enquanto elas correm para apanhar os 2 filhos que cada um corre para o seu lado e eles de braços cruzados, olhando ao longe para ver se está tudo em ordem e enquanto nenhum estiver na eminência de se meter debaixo de um carro posso continuar aqui a falar com o meu amigo sobre a crise do BES.
e eu sempre a pensar, dá-lhe um grito. envergonha-o à frente de toda a gente, na praça de república, diz-lhe que já se mexia um bocadinho. e depois lembro-me de quão ofendido o meu ex-namorado ficava quando eu fazia piada da sua perguiça, como se ela existisse mas não fosse para ser falada. lembro-me como ele me deixou porque eu nunca parava em casa, porque não tinha tempo para as noites de copos até às 9 da manhã, porque eu não queria ser como elas, porque eu também não gosto de ir ao supermercado, também não gosto de arrumar a roupa toda, porque eu também gosto de chegar a casa e ter a comida na mesa e poder pôr os pés em cima da mesa e beber um martini e penso ó miúdas aguentem que isto de ficar sozinha é o que acontece a quem acha que o século XXI já chegou às mulheres.
deixem-se estar que assim ainda têm uns mimos e alguém com quem dividir as contas e com quem marcar férias no Alentejo, deixem-se estar quietas. pode ser que as vossas filhas tenham melhor sorte. deixem-se estar assim, ó cheias de doçura, ó super-mulheres, deixem-se estar que não há principes encantados, até eu já descobri isso. deixem-se estar que não há nada melhor do que dormir enroscada.
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)
ai como me dói esta diferença de género. os homens com os pés na mesa de café e as mulheres a aspirar o mundo todo como eu aspiro. a casa. o amor. as crianças. as flores todas. a calma e o rodopio. e os homens que só aspiram quando é páscoa ou quando as mulheres estão doentes, o que é nunca.
a maioria das minhas amigas casou mal. é mesmo assim. não é que não sejam felizes, acho que são, mas não têm um grande companheiro em casa. ajudam. vão ajudando. quando elas pedem, até vão eles ao supermercado às compras mensais. se pedirem muito e se houver um impedimento de maior, até são capazes de levar os miúdos ao pediatra. é claro que em troca elas desunham-se o resto do ano.
diz-me um amigo com um sorriso na cara, e ao mesmo tempo com alguma pena de mim pendurada nos olhos, que querias rapariga? há 100 anos estavas fechada em casa, nem votavas nem tinhas emprego nem tinhas direito a opinião. e eu suspiro. é verdade. mas nós mulheres temos o cérebro em reboliço há muitos milhares de anos, foram muitos milhares de anos sentadas à frente do toucador a pintar as bochechas com afinco mas o cérebro não pára enquanto pintamos, sabem? Não votavamos nem trabalhavamos nem podiamos sair do país e estavamos destinadas a deixar a barriga crescer vezes sem conta, mas pensávamos ai quando isto der a volta... ai quando eu puder estudar ler escrever sair para a rua de mini-saia trabalhar numa empresa ganhar dinheiro meu. ai que ninguém me pára.
a minha empregada que trabalha de sol a sol, as manhãs todas e as tardes todas e que corre de um canto para o outra da cidade de autocarro, a minha empregada que até nem se importa de trabalhar aos feriados porque às vezes se diverte mais em minha casa do que na casa dela que o marido não a leva a passear, a minha empregada que é uma despachada, pede para receber o subsídio de férias em dinheiro que é para o marido não lhe arranjar destino para aquilo e assim ainda compra umas sapatilhas iguais às minhas, aquelas vermelhas que ela gosta tanto.
não sei se são os homens que não são companheiros ou se são as minhas amigas que se contentam com pouco. eu também já me contentei com pouco. ou contentei-me com o que havia, muito ou pouco. elas também se contentam com o que há. ele até ajuda, dizem de vez em quando. e eu vejo-os de braços cruzados enquanto elas correm para apanhar os 2 filhos que cada um corre para o seu lado e eles de braços cruzados, olhando ao longe para ver se está tudo em ordem e enquanto nenhum estiver na eminência de se meter debaixo de um carro posso continuar aqui a falar com o meu amigo sobre a crise do BES.
e eu sempre a pensar, dá-lhe um grito. envergonha-o à frente de toda a gente, na praça de república, diz-lhe que já se mexia um bocadinho. e depois lembro-me de quão ofendido o meu ex-namorado ficava quando eu fazia piada da sua perguiça, como se ela existisse mas não fosse para ser falada. lembro-me como ele me deixou porque eu nunca parava em casa, porque não tinha tempo para as noites de copos até às 9 da manhã, porque eu não queria ser como elas, porque eu também não gosto de ir ao supermercado, também não gosto de arrumar a roupa toda, porque eu também gosto de chegar a casa e ter a comida na mesa e poder pôr os pés em cima da mesa e beber um martini e penso ó miúdas aguentem que isto de ficar sozinha é o que acontece a quem acha que o século XXI já chegou às mulheres.
deixem-se estar que assim ainda têm uns mimos e alguém com quem dividir as contas e com quem marcar férias no Alentejo, deixem-se estar quietas. pode ser que as vossas filhas tenham melhor sorte. deixem-se estar assim, ó cheias de doçura, ó super-mulheres, deixem-se estar que não há principes encantados, até eu já descobri isso. deixem-se estar que não há nada melhor do que dormir enroscada.
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