os carteiros já não sabem porque é que alguém os inventou. já esqueceram. pensam que estão ao serviço das finanças ou do senhor do fraque. pensam que dentro de todos os envelopes vêm contas para pagar porque é isso que os seus colegas carteiros lhes deixam nas suas caixas de correio. a conta de luz, a conta da água, a conta do gás, seguro do carro, finanças, extractos do banco com números cada mês mais minguantes, a anuidade da revista, a notificação do IMI, do IMT, a carta do tribunal por causa do processo do divórcio, das partilhas complicadas que não vai sobrar nada depois de pago o advogado e ainda vou ter de matar a cunhada e aí é que vai ser. as contas todas do mundo, até as contas do anterior inquilino, contas para quem nunca aqui morou, mais os catálogos da La Redoute, da Moviflor, do Readers Digest, a publicidade do stand de veículos usados, do minipreço, do professor caramba que promete curar todos os males do mundo, a publicidade dos limpa-chaminés e eu queria era fechar a lareira que aquilo só serve para entrar frio nos dias de vento e inverno e assim aumentar ainda mais a conta da luz e a conta do gás.
os carteiros já não sabem, mas há cartas com marcas de baton, há cartas com perfume, há cartas com postais de amigos para colar no frigorífico, envelopes almofadados que atravessam mares cheinhos de amor e saudades, há carinhos que viajam dentro de envelopes.
os carteiros não sabem que há pessoas como eu que escrevem cartas todos os dias e que se pudessem, se tivessem tempo de ir até aos cada vez mais raros postos de correio, as mandavam a todas, escritas à mão ou dactilografadas na minha Smith-Corona HCESAR herdada do avô, onde aprendi a escrever cartas ainda antes de saber escrever kksdljfgirgkjxbvjksbvjksf kdfjs odfjksj f flsçdlkf plim tab e com a qual ainda brinco no dias de hoje porque há coisas que por mais velhas que sejam nunca perdem o seu charme e cartas de amor e máquinas de escrever são só duas dessas coisas e não há teclados ou emails que as substituam.
os carteiros não sabem porque nunca tiveram um amor embarcado ou em terra distante, porque para eles o atirar o envelope para dentro da caixa de metal é só um gesto mecânico e nunca suspiraram pela hora do carteiro porque os carteiros são eles próprios e nínguém suspira pela sua própria hora.
os carteiros não sabem que há pessoas como eu, que passaram todas as contas para facturas electrónicas e que quando vão à caixa do correio é com o coração apertado, numa louca esperança de um mimo que o mundo me habituou mal e já recebi cartas de amor, chocolates, livros inesperados de amigos escritores, cartas de amigos emigrados, desenhos dos meus sobrinhos, postais de sítios distantes e outros do outro lado da rua e que o meu frigorífico tamanho familiar enorme para a família que não tenho, não tem espaço para mais e que a única peça de madeira que fiz nas aulas de trabalhos manuais foi um pequeno baú que já não fecha e não é pela falta de jeito mas porque já não cabem dentro dele 34 anos de cartas e postais, alguns já com a tinta tão desaparecida que só a minha excelente memória me permite lembrar o beijo que os meus pais mandaram das suas férias a Bruxelas tinha eu 3 anos.
o meu carteiro não sabe porque se calhar já nem sequer é carteiro, às tantas é apenas funcionário de nível III, e por isso mesmo foi com muita pena que eu hoje lhe deixei uma reclamação que talvez lhe retire a promoção daqui a 25 anos, porque ele não sabe que o meu coração saltita ao ver selos e carimbos e porque ninguém lhe ensinou que o amor às vezes vai de uma cidade para a outra dentro de um envelope de correio verde pré-pago e hoje era um desses dias. tenho pena que as pernas lhe cansem e que o prédio de 3 andares sem elevador lhe seja um entrave e que a falta de amor aos que saboreiam os presentes assim mesmo, em pacotes almofadados, o tenham feito atirar o meu presente-surpresa para cima da caixa de correio na entrada do prédio, como se fosse mais uma conta que se não fosse entregue haveria sempre de chegar ao seu destino, mais dia menos dia. tenho pena que ele nunca tenha recebido um pacote-surpresa. tenho pena que ele tenha pressa de acabar o seu serviço para poder chegar ao final do dia e tirar a farda de funcionário nível III e sentar-se a ver televisão. tenho pena, senhor carteiro, que hoje o seu dia termine com um raspanete e digo-lhe só que até tem sorte, que podia ter sido com uma reclamação por escrito, tivesse eu tempo e não estivesse tão feliz pelo facto de o acaso não ter querido que o meu presente fosse roubado da entrada do prédio e de ainda haver pessoas que, como eu, adoram selos e envelopes e a espera da entrega de amor via postal
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