domingo, janeiro 15

Queria fazer-te muitas perguntas, mas a verdade é que éramos felizes no silêncio e no roçar de pés e pernas. Às vezes pensava ver ali dois ou três segundos, durante as manhãs que dormiamos e acordávamos mil vezes até serem horas marcadas para alguma coisa que teríamos de fazer separados, e saíamos a correr - ainda tenho que passar em casa - um de nós dizia, e tomar banho - às vezes, entre acordares e virar de lado, parecia-me ver um espaço para te fazer uma pergunta, só uma, mas saía-me quase sempre um conta-me uma história pequenina, e tu contavas e dormiamos 5 minutos mais até serem horas de alguma coisa que não nos incluiam aos dois.
Nunca te perguntei nada, tu também nunca me puseste em cheque. Aceitamos que o silêncio e o roçar de pés, aos sábados, ou em dias frios, nos chegavam.
Guardo ainda, anotada no verso do meu coração, a pergunta essencial - onde vais estar na próxima quarta-feira e na outra depois dessa e na seguinte e se não achas que eu e tu e dois meio copos de vinho não podemos ser o melhor plano para os próximos 7 anos?

terça-feira, janeiro 10

Não trocaria um amor velho por um amor novo - foi o que ele me disse. A trocar o meu amor, velho sim, de chinelos e sofá, seria pela liberdade. O teu amor limpo e cheio, ganhará as mesma rugas, mais cedo ou mais tarde.
Não trocou. Nem por um nem por outro.
Eu, livre, guardei o meu amor novo no bolso do casaco, ajustei o cachecol, e bati as asas.

quinta-feira, janeiro 5

Das mulheres não reza a história

Admito que 2017 ainda não me desiluiu. Bem sei que ainda só tem 5 dias, mas às vezes, na minha vida, 5 dias bastam para que se viva toda a idade média e o terceiro reich (eu não sou nada exagerada, convém que saibam!)
Entre ter o sol e o gato e café decente na varanda da minha casa - só isso bastaria para me fazer uma mulher feliz - a Courrier Internacional de Janeiro é sobre as mulheres e da sua ausência na História mundial. É que as mulheres estão aqui há tanto tempo como os homens e apesar de ter havido, em todas as épocas,  mulheres gigantes, delas não reza a História.
Alguém ouviu falar de Ana Nzinga que governou Ndongo e Matamba durante 40 anos, não permitindo aos colonos portugueses instalarem-se na região até à sua morte? E de Diana Budisavljevic que, ao mesmo tempo que Schindler salvou 1200 judeus do extermínio, salvou mais 12 mil crianças, na sua maioria sérvias, dos campos de concentração antissemitas e fascistas? Emily Hobhouse que denunciou as más condições dos campos de concentração ingleses para os Boers na África do Sul? A Ada Lovelace se deve o primeiro programa informático da História, já ouviram falar? Simone de Beauvoir será para sempre a mulher de Sartre e Anaïs Nin a amante de Henry Miller?
E mais próximas de nós, o que sabemos de Josefa de Óbidos? E alguma vez ouvimos falar de Carolina Beatriz Ângelo que em 1911, encontrando uma lacuna na lei, conseguiu votar para que logo de seguida a lei mudasse e outra vez as mulheres fossem votadas ao alheamento? Sophia de Mello Breyner já não é de leitura obrigatória na escola portuguesa e se virmos quem são os actuais comentadores políticos da televisao, jornais e revistas portuguesas, quantas mulheres encontram?

Toda a História foi escrita por homens e o papel das mulheres foi por eles desenhado - o estereótipo da mulher doce e terna, da mãe de família e cuidadora do esposo, a sensualidade e o silêncio, são o que o homem decidiu que a mulher seria e assim propagou pelos séculos fora - com leis, castigos mas também omitindo que poderiam ser outra coisa.

Não é fácil ser-se mulher (como aposto não ser fácil ser-se homem), mas quando nos escondem as mulheres gigantes e lideres e nos oferecem como exemplo apenas o papel de sedutora e de mãe, torna-se ainda mais difícil.

Obrigada Courrier, por nos mostrares as nossas heroínas.