terça-feira, dezembro 30

há dias em que é preciso deixar a tristeza entrar, como o sol nas paredes da sala à hora de almoço. deixá-la pousar nas paredes como quem não veio para ficar. a mesa posta para um. ir buscar um copo extra para o amigo imaginário, fazer de conta que ainda alguém ressaca no quarto.



 o Sérgio Godinho a contar a história da fechadura que nunca mudei, a cantar este 2º andar direito que fica no 5º piso. voltar a ter saudades dos dias em que não podia tudo. podes, podes tudo o que quiseres mensagem do messenger recebida às 3h22m da manhã. sem contexto. alguém que sabia que hoje teria de a ler. e de sofrer a ansiedade de poder tudo. eu sei. posso tudo mas hoje preferia não poder. já me passa, não se alarmem, amanhã voltarei a não querer namorado, voltarei a querer trazer para a minha casa, para a minha mesa, para o café da esquina, para a minha cama, quem bem me apetecer e ir embora no segundo em que me der na gana, mas hoje não. hoje queria que alguém decidisse o que seria para jantar, uma corda no calcanhar, alguém a quem contar que a Louise Bourgeois hoje me tocou outra vez, alguém que me beijasse o pescoço só porque o viu por baixo do cabelo apanhado, alguém a quem eu pudesse dizer - esta casa é o meu presente para ti, o sol nas paredes são o meu presente para ti, queres um café? uma tangerina? este desenho mostra o que eu sinto, consegues sentir também? sem eu explicar? os pássaros na parede dão a sala um ar de amor. é pena que nunca tenham visto nenhum.olho com inveja daqueles pedaços de barro pintado e vidrado junto à parede amarela e questiono-me porque não me fogem também, porque insistem em ficar ali com leveza, hoje que trago o coração pesado. se eu fosse um canto gostaria de ser aquele, a leveza das asas, o ar inocente do Ringo e do Bob Dylan, o amarelo onde o sol de Inverno não chega nem precisa de chegar, mas não sou. hoje sou o corredor, frio, todas as portas todas as possibilidades sim podes tudo o que quiseres e eu parada. também posso ficar aqui. não há sol, não há nada para fazer e ninguém me vê.

quinta-feira, novembro 27

Não há muitos momentos assim, muito menos aos 35 anos, em que as paixões são obrigatoriamente (ou não,  talvez seja eu que esteja errada) mais sustentadas, mais sentidas na pele, mas receber um abraço do Sérgio Godinho... e caríssimos, não foi como na canção, não havia coros nem guitarras, havia vinho a rodos em ambas as partes, 6 copos para além da dose (não contem à minha mãe) em cada um dos lados (e vão doze!), mas ainda assim lhe pude dizer (não foi ao ouvido) que mais do que vidasduplas (que trago assinado mas o que eu queria era o autografo no pano-cru que custou ao meu pai 250$00 e do qual aprendo ainda hoje, na balada da Rita e no Primeiro Dia, tudo o que há para aprender sobre a vida) ele, o Sérgio,  tem uma vida múltipla,  tem muitas vidas múltiplas, vidas das quais ele nunca saberá, como a nossa, minha e dele, como as mil viagens que fizemos para o Alentejo antes de haver A1, cassete riscada que nós salvavamos por a sabermos de trás para a frente, ou como eu não troquei a fechadura nem ele reclamou dos seus anéis, como tantas Lisboas amanheceram na sua voz, Necas e bêbedos,  cruzando a cidade triste que amanhecia, quantas Etelvinas, Albertinas, quantas pessoas sozinhas adormeceram com a esperança de encontrar o seu homem à beira-rio. Ele sorriu e disse que todos temos as nossas vidas nas vidas dos outros e eu disse-lhe que se alguma vez estivesse triste, que se lembrasse que, na minha vida ele (e eu), era feliz.




quinta-feira, outubro 16

Estou a apagar a minha existência pelo corte da faca. Uns suicidam-se rápido, tiro na tempora, salto de uma ponte ou frasco de comprimidos. Outros matam-se por dentro fibrosando o fígado ou os pulmões, afogando-se em óleos polinsaturados, rissóis e panados. Eu decidi que se é para morrer, cada dia que passa vou ficando mais pequena. O primeiro passo foi assumir que com facas rombas não se vai lá. Fui à lojinha das coisas bonitas para a cozinha, aquela à entrada do shopping de primeira geração onde já só se vai ao Pingo Doce que por lá resiste, e comprei 3 facas - brancas, gume afiado, para diferentes propósitos. Achei por bem não assumir ao balcão o principal motivo da compra - chamariam o apoio à vítima ou os polícias da automutilação, ou se calhar nem por isso. Agora que penso, mais valia ter pedido uma faca para me cortar devagarinho, uma faca para ir cortando, fatia a fatia - com o mundo distraído em que vivemos, o mais provável era franzirem a sobrancelha mas rapidamente agarrarem o telefone para perguntar ao fornecedor qual era a faca mais própria para o efeito - o cliente tem sempre razão e não estamos em tempos de desapontar a malta. Mas não foi assim e eu não estou aqui para mentir - foi uma faca pequena para descascar, uma para propósitos intermédios e uma grande para o melão ou, caso seja necessário, esfaquear um qualquer assassino que por acaso me apareça lá em casa.
Cada dia vou ficando mais pequena. Aos dias impares faço dieta aos pares corto uma fatias. Quando em semanas, como esta, os dias ímpares são ao mesmo tempo dias pares (ontem foi 15 e quarta) troco tudo e faço o que bem me apetece e normalmente acompanho com um copo de vinho maduro tinto, de preferência Alentejo.
Ontem fiz uma das boas - não só retirei 1cm de polegar como me roubei uma bela porção de impressão digital ao mesmo tempo. É que já me apercebi que até ser só o coraçãozinho a palpitar (o plano é e sempre foi ir aparando os pontas de mim mesma até deixar só o core) vai demorar muito tempo e aproveitei para me pôr a jeito para uma bela carreira no mundo do crime.
Caso saibam de alguém à procura de gente pequena, que caiba dentro de caixas ou passe facilmente entre barras e que tenha pouca possibilidade de deixar impressões digitais identificáveis, para um pequeno mas proveitoso crime e talvez uma ida ao tasco para celebrar com os miudos a seguir, por favor contactem-me.

domingo, outubro 12

Et voilá, o fim-de-semana está quase a acabar.
Os Linda Martini são os maiores e partem a loiça toda, o Rodrigo Amarante é, à falta de outras palavras e porque esta lhe encaixa quase na perfeição,  um fofinho (Rodrigo, querido, da próxima, se vais tocar músicas dos Little Joy, a Keep me in mind punha-me a correr para o palco e olha que acho que nos entenderiamos na perfeição).
Para memória futura ficará a informação de que há salas VIP de bares no Porto onde se ouve os Hanson e o Sting (não me perguntem o que fazia eu numa sala VIP - parece que para entrar é só encontrar a porta dos fundos e entrar à grande pela cozinha mas sinceramente, não me voltam a apanhar noutra).
Isto é o desabafo de quem nunca tem fins-de semana, para quem ter 20h de folga, é quase como estar de férias numa praia da polinésia francesa!
tenho dito!

sexta-feira, outubro 10

Entre a minha solidão e a tua há a distância dos telefones calados, o barulho dos autocarros que partem mais do que chegam, uma sinfonia de bolso a tocar na aparelhagem, um copo de vinho e outro vazio que insisto em pôr junto à garrafa apesar de saber que não vens (são manias).
Entre a minha solidão e a tua estão cigarros fumados ao frio, as frequentes olhadelas à caixa de spam e a imagem de um país distante onde nenhum de nós está.
Entre a tua solidão e a minha estão os meses de Verão chuvoso e o início do Outono, está o Ozu, estão as palavras honestas que de tão honestas parecem loucas e, entretanto, o meu copo de vinho já está vazio como o teu.

segunda-feira, outubro 6

A minha casa tem dias muito pobres.
Há meio garrafa de whiskey que tenho vergonha de acabar sozinha, 4 quadrados de chocolate de culinária (a caminho de 3), 5 morangos, não há vinho (quer dizer, há uma garrafa de CARM reserva mas não a posso beber sem quem ma ofereceu), não há cerveja (até há mas é uma Leffe de litro oferecida com amor por uns hóspedes e gostava de a partilhar).
Não há gelado, nem bolachas de manteiga, nem brownies do pingo doce.
Há rum, vodka, gin (é do barato), um licor polaco marado, licor de noz e vinho do Porto... mas seriously... quem bebe sozinha estas coisas num domingo à noite?
Há um cigarro. Há uma erva holandesa que cheira que é uma delícia mas não há mortalhas nem paciência para fazer uma paciência.
Não há pão mas há queijo. E há bolachas maria meladas.
E há café. Muito. Infelizmente acho que são horas de ir dormir.

domingo, outubro 5

Já podia ir para casa. Ainda não é sequer meia-noite e podia ir dormir na minha cama. Mas olha,  hoje trouxe-te até aqui e foi aqui que passei o dia contigo e agora não me apetece ter de lavar a loiça de há 3 dias e aperceber-me que só há pratos e copos e chávenas de café impares da solidão das horas das refeições e aqui nunca estou sozinha.
Se possibilidade houvesse de que estivesses sentado na soleira da minha porta, não tinha hesitado um segundo. Na sua ausência, agora que já aprendi a aceitar que a vida nem sempre nos corre como gostaríamos,  opto por este quarto mais pequeno, quase austero - uma cama com colchão ortopédico duro quase demais para a princesa da ervilha (moi même), com roupa espalhada pelo chão e a máquina de limpeza a vapor a um canto.
Fico bem porque hoje te trouxe até mim e lá fomos felizes nesta minha maneira de nos inventar na minha cabeça. Vou abrir o livro e vou ler-te um ou dois parágrafos num esforço extra para não fazer o Gonçalo M. Tavares corar de lost in translation. Escolherei as mais finas palavras da tua língua para seguir os passos do senhor Valéry como se em Stratford-upon-Avon ele morasse. Depois,  espero que aproveites a calada da noite para te ires embora de mansinho que não me posso dar ao luxo de viver embeiçada todos os dias por alguém que não existe e amanhã é domingo no mundo e toda a gente sabe que os domingos são sempre dias difíceis para os solitários como eu.

quinta-feira, outubro 2

A carta está escrita. Poder-se-ia dizer que o mais difícil está feito. Branco sobre cartão. 3 meses a cortar as palavras até ficarem só as essenciais. Nem um ponto a mais. Sem reticências, sem parentesis, sem hifens e lembranças paralelas. Nem uma assinatura. É só um convite - would you? will you? shall we? só não resisti à referência musical. desculpa, mas o meu cérebro tem este problema. há sempre uma música que fala por mim, que me permite com 2 palavras dizer uma imensidão de sons, um poema, uma paisagem.
Já tenho o selo, o envelope. Sei onde está o marco do correio mais próximo - 5 minutos daqui, se for devagar, se parar para um cigarro. Não devia parar para um cigarro - digo a mim mesma. Nem devia sair com carteira. Devia sair daqui com a carta numa mão e as chaves de casa na outra - um único objectivo, sem distracções, sem possibilidade de esquecimentos ou adiamentos ou outras coisas que fazem com que cartas como estas acabem no fundo de uma gaveta de uma cómoda. Se é para acabar no fundo de uma gaveta, que seja na dele, que eu já tenho gavetas que chegue, na minha casa, cheias de cartas de amor, gavetas que não voltaram a ser abertas, gavetas que terão para sempre o mesmo conteúdo, clips, carregadores de telemóveis antigos, óculos de cinema 3D, recados com beijos e postais com saudades. Não preciso de mais gavetas assim.
Ainda não escrevi a morada no envelope. Está aqui à minha frente parado há cerca de uma hora. Também ainda não o fechei. Há uma ansiedade miudinha a adiar, e o facto de só sair às 6 - tens tempo, demora o tempo todo, desde que a envies hoje, tem de ser hoje, amanhã não haverá coragem maior do que hoje.
E descobri agora que os selos já não são de lamber.
 
Enviada

segunda-feira, setembro 22

usa as palavras todas quando falares comigo. esquece essa coisa das meias palavras. as palavras não estão gastas e quando estiverem também nem vale a pena dizê-las, farrapos são para o lixo. diz as palavras todas, usa até palavras em Inglês, I do that frequently. se souberes uma ou outra em Francês e o sotaque não te deixar ficar mal, atira-as também para o meu colo, que eu gosto. brinca com elas, faz trocadilhos mas não as poupes que não é por isso que vais rico.
quando falares comigo, manda-as cheias, redondos vocabulos, letras umas a seguir às outras, gordas. usa e abusa da pontuação, dos hifens e das figuras de estilo. e se tiveres fome, pede-me um pão, não comas as palavras - eu já comi muitas palavras e com isso só consegui perder peso.
eu adoro os parabéns atrasados. um dois três dias depois, um mês depois. queria que daqui a três meses alguém me encontrasse na rua e me abraçasse e dissesse parabéns querida, muitos anos de vida, ouvi dizer que fizeste anos algures este ano, felicidades. 
o corpo é uma coisa, a pessoa é outra. são vontades de ser diferentes. às vezes quase opostas. o meu corpo quer muitas coisas que eu não quero, mas às vezes é preciso fazer-lhe a vontade. o meu corpo quer cigarros na varanda à noite, mesmo que chova e eu não quero porque faz mal e porque está a chover e o meu corpo não quer saber se está a chover porque quer e é como uma criança, o meu corpo. quando quer quase faz birra. o meu corpo quer mãos em cima dele, nas suas pernas, beijos nas costas, sexo puro e duro, cama desarrumada, roupa a voar, é o que ele quer. eu queria outras coisas, queria um amor fofinho, alguém com quem ver filmes em dias de chuva, alguém cujo ombro tenha o relevo exacto das minhas orelhas e o meu corpo não quer saber de nada disso. já mo disse. quero carne! e eu que quero ser vegetariana e ele a gritar por carne - dá-me carne Helena! um pedaço de carne para morder e abraçar e puxar cabelos, carne que se esquece entre as refeições, tenho fome Helena!
é uma bestazinha, o meu corpo. quem olha não adivinha. pequeno, sempre moderadamente escondido atrás da minha pessoa, discreto dentro de umas jeans e uma t-shirt, raramente se exubera com baton vermelho. arzinho de quem anda sempre distraído e de quem não se importa de passar fome. mas isso é por fora. entre mim e o meu corpo há lingerie preta com rendas, lá lhe faço a vontade. e quando estamos sozinhos em casa, lá o deixo passear-se com ar esfomeado, cabelo solto, pernas nuas estendidas no sofá, unhas dos pés vermelhas à mostra. e se é dia descanso lá o deixo andar de cuecas pela casa, ponho-lhe um vinil a tocar e deixo-o dançar descalço na sala - solta-te para aí. se é dia de descanço lá o deixo trazer um rapaz para casa - eu que estou farta de rapazes, dEUS nosso senhor, dá-me um homenzinho! - deixo a bestazinha à solta, deixo-o não dormir e desfazer a cama toda, diverte-te corpo tonto, vem-te seis vezes seguidas, não há de ser nada. amanhã terei tempo para arrumar tudo, apanhar os pedaços, lavar a roupa, pôr uma música menos eléctrica, tomar um banho bom, limpar-te e rir-me de ti e das tuas loucuras, mandar uma mensagem a dizer no worries, no hurry, chicken curry! amigos como antes. afogar o quero mais, quero mais, dá-me mais em chá de Lúcia-Lima, faço uma chaleira das grandes e comer fruta e cereais até o corpo se ver o estômago cheio e se acalmar um bocadinho, se calar um pouco, e me deixar ler um livro ao som de música clássica, sentada direitinha no sofá, o meu corpo que não gosta de ler, que queria ouvir o Artic Monkeys e rebolar no chão quieto, fica, menos, já brincaste ontem, dorme um bocadinho agora enquanto eu me sento aqui a ser pessoa, se faz favor.

sábado, setembro 20

Happy hippie birthday to me

Nunca os anos me pesaram nos ombros e se fizermos bem as contas, só ganhei um dia desde ontem - não havia motivo para tanto alvoroço.
A todos os que ontem celebraram comigo o fim do Verão que não houve (eu própria considerei não adicionar este ano ao meu calendário pessoal mas como houve Inverno, lá aceitei) com abraços e beijos e brindes e telefonemas e mensagens de todos os cantos deste nosso globozinho, mas acima de tudo com muita amizade e amor - um grande OBRIGADA! (vénia com mãos à Amália)
Que o Outono seja soalheiro e que haja outros dias (com ou sem motivos de maior) para celebrarmos o facto de ainda por cá andarmos.

Está tudo nos detalhes. É o que fica, no final - os detalhes. Os momentos que mais ninguém vê, o pássaro que naquele dia cantou 3 segundos depois do despertador se calar, a flor de sardinheira que caiu na relva no dia de vendaval, a estranha sequência de fotografias que fazem um arco-íris no feed do tumblr, coisas que acidentalmente acontecem no momento certo, ou que acontecem no momento exacto em que estamos a olhar para elas.
São só os detalhes que ficam.
Tudo o resto acontece a toda a gente de forma igual. Toda a gente se apaixona, todos os corações se partem, todos têm sucessos e insucessos e dores de costas e amigos e traições. Tudo isso são histórias banais.
Só os detalhes contam como história individual e irrepetível.
Reza a minha história que hoje, faziam 5 minutos do dia em que faço trinta e meio anos, a Sara Tavares entrou na sala e pôs a tocar o Chet Baker.

segunda-feira, setembro 15

Eu já fui feliz!, sabem?
É como a coisa de ser rica. Também já fui rica. Fui rica durante muitos anos. Na verdade nunca fui rica, mas sou nascida e crescida em classe média-alta (dizem os meus pais, que eu sempre me senti rica). Mesmo sendo de classe média-alta (ou o que quer que eles digam) não como peixe congelado. É mesmo assim e não me venham com coisas, peixe congelado não vale de nada e país à beira mal plantado, 943km de costa e apenas 260km na horizontal (no mapa espalmado em cima da mesa) não justificam que alguém tenha de comer  tal coisa!
Mas dizia eu (primeira frase) eu já fui feliz. Era no tempo dos aquários,  é verdade, era no tempo em que os olhos dele eram peixes verdes. Era no tempo em que eu era inocente.  Mas era feliz. Era no tempo em que eu, feminista desde o umbigo, corria à hora de almoço do trabalho de pequena (e nem média) empresária para uma casa onde vigorava a ressaca para fazer uma omelete de rúcula e convidar um sonâmbulo para a mesa. 
Dizem os amigos, que só nos viam nas mesas de copos das quais eu tinha de fugir cedo para poder ser gente grande, e não uma ressaca só, no dia seguinte (há gente que gosta de viver todos os dias, mesmo que canse), que estou melhor assim, com tempo para ginásio e longos cabelos loiros. Dizem que perdi as rugas de quem tem de ser preocupar por dois. Mas eu era feliz, mesmo que agora nem perceba bem porquê, mas era.
Já não sinto falta nenhuma desses dias mas ainda não sou feliz como era. Falta-me a inocência das mãos dadas e tenho saudades de chegar a casa e ter um jantar na mesa. Acima de tudo, ainda preciso de encontrar novos planos, deixar os outros. Custa um bocadinho esta coisa dos planos falhados, os filhos que a esta hora já teriam o quarto pintado, mas é só isso. Dizem os amigos, às vezes até os improváveis, que estou melhor assim, que sou mulher e que mulheres precisam de homens (ou de mulheres, conforme o gosto) e ele é um miúdo, bom para beber uns copos e pouco mais porque nunca se sabe a que horas se vai pôr a pé e eu explico - não é ele que me dói, meus queridos, ele já não me dói porque já morreu e mesmo que ande para aí com arzinho feliz e copo na mão, já não é quem foi, o que me dói, meus queridos amigos, é a minha vidinha, que não foi assim que a desenhei, e se sim, tenho tempo para o ginásio e posso comer massa e legumes quantos dias seguidos me apetecer, também tenho dias em que chego a casa e estou cansada e tenho o mundo todo nos ombros e o gato não pára de miar e só queria uma mão nas minhas pernas e ombro onde pousar a cabeça enquanto adormeço no sofá.

Domingos longos

Trabalhar 13 horas seguidas custa.
Trabalhar 13 horas seguidas num domingo custa muito.
Trabalhar 13 horas seguidas num domingo depois de dormir 4 horas custa horrores.
O gato, que não gosta nada de ficar em casa sozinho, até gosta destes dias porque sabe que o jantar vai ser cereais com iogurte e que o copo vai sobrar para ele.

domingo, setembro 14

Ele diz que eu sou fofinha. Eu odeio. Ele que é um rock & roller, skinny jeans e t-shirt rota. Ele que acerta sem pestanejar debaixo dos óculos nas minhas ilustrações favoritas - "são as fofinhas". E eu reclamo.  Não sou fofinha coisa nenhuma, nunca fui. Maria-rapaz, mau feito, mania de sabe-tudo (as rugas-vincos entre as sobrancelhas são testemunha), incansável, mulher de armas, isso sim, agora fofinha... nunca vesti cor-de-rosa, nunca tive sapatos de verniz nem laços nos cabelos. De fofinha tenho as tatuagens com flores no ombro (poderão, nos dias que correm, pessoas com tatuagens ser fofinhas?) que servem apenas para me lembrar que apesar de tudo, APESAR DE TUDO (ai que este tudo continua a crescer, todos os dias, todos os meses, todo o 2014) ainda há coisas bonitas no mundo - lembra-te Helena, das flores, das árvores, dos pássaros, dos poemas do Eugénio de Andrade, lembra-te Helena do cão e dos teus sobrinhos, do abraço do gato quando chegas a casa. Eu que trago sempre o corpo pisado, nódoas negras por toda a parte (até por dentro), que tropeço até nos meus próprios dedos dos pés, incapaz de usar um tacão, nem cunha (de qualquer tipo), que me escondo atrás dos óculos ou de uma discussão política para fugir aos olhares ou aos elogios. Fofinha... e ele que tem uma paixoneta por mim que eu finjo não ver ri-se e diz fofinha sim, com um mundo só meu, cheio de fadas e flores pequeninas e sombras dançantes e músicas com sininhos.

E ele que diz que quando pensa em mim pensa nas músicas fofinhas que já escreveu e eu torço o nariz.

Depois ponho uma das fofinhas dele a tocar e penso que não é assim tão mau.

quarta-feira, setembro 10

aquele sítio onde ser apenas uma vigésima parte do todo é a melhor coisa do mundo (o cão, apesar de ser mais um Gomes, não conta)

terça-feira, setembro 2

há dias em que uma pessoa acorda e a única coisa que pode realmente desejar é que ele acabe sem partir um joelho ou sem que caia um avião à nossa porta. é deixar as horas correr, andar de pantufas com sola antiderrapante, comer apenas só comida acabada de fazer, não pensar sequer em tocar em maionese que está calor, não tentar abrir uma garrafa de vinho que o saca-rolhas não é instrumento de confiança. É trabalhar com afinco, cautelosamente, sorriso educado nos lábios, cordialidade forçada. Não tentar pôr um prego na parede ou trocar qualquer lâmpada.

depois há anos assim.

de 2014 só espero que acabe. não calçarei tacões, não arriscarei qualquer mergulho, não mudarei de shampoo ou de detergente da roupa. deixar passar todas as horas. todas as 2869 horas que faltam para o final do ano. usar creme anti-rugas que a espera às vezes deixa marcas profundas. pôr um alarme para regar as plantas, arrancar as ervas daninhas, dar de comer ao gato comida de lata uma vez por semana, pagar as contas no momento em que elas chegam. fazer uma manta de uma só cor, de um só ponto, infinita, ponto de tricot seguido de ponto de tricot. uma mortalha enorme, que me dê pelo menos 3 voltas completas se por acaso calhar de morrer.

segunda-feira, setembro 1

Pequena Elegia de Setembro



Reza a história que era má. Uma beata de primeira com uma depressão crónica com agudizações frequentes de bater portas e chorar copiosamente. Reza a história que trazia sempre pouca doçura nas palavras e nos gestos e que por ela a minha mãe nunca tinha feito mais do que a quarta classe, mas estes rumores não posso realmente confirmar porque não foi esta a avó Arminda que conheci. Da sua maldade só me lembro que fazia esperas às toupeiras de sachola na mão e que matava as lesmas com sal.
Beata sim. Passavamos todos os anos umas semanas de verão com ela na aldeia (ou na Póvoa das barracas às riscas) e lembro-me bem das idas à missa (as únicas missas que frequentei na vida, à excepção de um ou dois casamentos e alguns funerais), lembro-me de quanto a entristecia que não soubessemos rezar e de como nos punha nas mãos a Cruzada para leitura de férias. É a única pessoa que eu conheço que garantidamente foi para o céu. Não sendo rica (e sendo até bastante sumítica), comprou o seu lugar. Comprou missas funebres em vida com medo que a família de ateus que deixou não lhe fizesse a vontade. Foi à missa todos os dias da sua vida até se mudar para casa dos meus pais, as pernas já não aguentavam tanto sobe e desce de escadas, a vida sozinha numa aldeia perdida no meio do Minho, a vontade de continuar a jardinar e a subir escadas toscas para apanhar limões e a doença a começar a dar os seus sinais. Aí passou a ir à missa aos Domingos. A minha mãe acordava-a "Mãezinha, vamos à missa", deixava-a à porta da igreja e ia buscá-la uma hora depois. Um dia, depois da missa, não apareceu. A minha mãe deve ter-se atrasado 5 minutos e ela lá achou que era melhor aproveitar então foi a duas missas seguidas. Um dia "Mãezinha, vamos à missa" e ela " Já não é preciso. O senhor padre disse que já não era preciso. Que já vou para o céu." E nunca mais foi à missa. Nem nunca mais a vi com o terço nas mãos em ladainha continua como nas viagens para o Alentejo, nunca mais a vi a chorar a nossa não crença, nunca mais a ouvi dizer "Graças a Deus, muitas, graças com Deus, poucas". A garantia do céu relaxou-lhe a alma, passou a sorrir mais, a trazer a doçura de quem já não tem medo de coisa nenhuma. Ninguém sabe se o padre se fartou dela ou se lhe foi por amor que lhe prometeu o lugar.
A casa da avó Arminda ainda tem um cheiro só dela. Cheira a limonada com limões acabados de apanhar do limoeiro ao lado das escadas e água gelada da mina. Cheira a salpicão do Bengança e nossas senhoras que medem a humidade. Cheira a pó e a portas fechadas, arcas e uvas americanas. Cheira a sol a entrar por cortinas de poliéster brancas para divisões sempre às escuras. Ainda lá vou de tempos a tempos, roubar bocadinhos de memórias, o aparador, o rádio do avô, uma ou outra camisa, as taças esbotenadas da marmelada para plantar cactos. Da última vez que lá tive, encontrei-lhe a perúca. Era igual ao cabelo dela, preto, curto, muito arranjado, de quando eu era pequena. Deve tê-la comprado quando foi operada à cabeça para retirar o quisto. Quisto benigno no lobo frontal cuja cirurgia lhe roubou o olfacto (nervo olfactivo a passar mesmo ali à frente) mas que lhe deu, de acordo com o meu pai, de quem nunca amiga (ó homem tolo que roubou a minha mãe do altar e de uma santa existência abençoada pela igreja), doçura. Um ligeira lobotomia frontal que lhe controlou a depressão que os choques electricos e as medicações não conseguiram durante anos.
Faz este mês 2 anos que morreu depois de prolongado Alzheimer. Um doce Alzheimer. Sentada na sala a olhar para o infinito e a empregada perguntava "Quem é dona Arminda?" e ela hesitava "É a Ana?" e nem olhava para mim, só olhava para a Fernanda, com voz de menina a responder à pergunta da professora. "É a Leninha!, dona Arminda" e ela sorria. "Porque foste viver para tão longe, Leninha?", eu que vivo a 60km, "É em Braga, não é? Porque foste viver para tão longe Leninha? Estás bonita, estás gorda!" e dava-me uma palmada no rabo e sorria, orgulhosa das minhas carnes que ter carnes é não passar fome. E voltava ao seu silêncio, ou à leitura de qualquer coisa, ou a olhar as rosas. Depois a doença foi-se aprofundando, e a Fernanda perguntava "Quem é Dona Arminda?" e os olhos pequeninos olhavam para mim e olhavam para ela e eram só dúvida. Eu de mão dada com ela "É a Leninha avó, estás boa?" e os olhos continuavam a olhar com dúvida mas a mão apertava um bocadinho a minha e a dúvida era o Alzheimer e a mão era a minha avó.
Morreu no dia 15 de Setembro de 2012. Num lar. Aguentou anos a fio de doença, sondas nasais, colo, fraldas, beijos na testa, os mimos dos bisnetos. Desistiu no dia seguinte a ir para o lar. Eram só 2 ou 3 dias, avó, era só enquanto a minha mãe estava internada, mas ela não ouviu. Pensou que era a sério. Faltou-lhe a mão que conhecia, faltou-lhe a voz à qual já não respondia há anos, que provavelmente nem entendia há anos, faltou-lhe o beijo na testa e partiu. Na verdade, aguentou-se muito mais do que alguma vez seria de esperar. Sentada ou deitada, a olhar pela janela, a olhar as rosas dos grandes e calmos dias de Setembro.
Mas deixa-te estar assim, ó cheia de doçura. Agora e para sempre serás este poema.

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste, 

mas deve haver um caminho 

para regressar da morte. 

Estás sentada no jardim, 

as mãos no regaço cheias de doçura, 

os olhos pousados nas últimas rosas 

dos grandes e calmos dias de setembro. 



Que música escutas tão atentamente 

que não dás por mim? 

Que bosque, ou rio, ou mar? 

Ou é dentro de ti 

que tudo canta ainda? 



Queria falar contigo, 

dizer-te apenas que estou aqui, 

mas tenho medo, 

medo que toda a música cesse 

e tu não possas mais olhar as rosas. 

Medo de quebrar o fio 

com que teces os dias sem memória. 



Com que palavras 

ou beijos ou lágrimas 

se acordam os mortos sem os ferir, 

sem os trazer a esta espuma negra 

onde corpos e corpos se repetem, 

parcimoniosamente, no meio de sombras? 



Deixa-te estar assim, 

ó cheia de doçura, 

sentada, olhando as rosas, 

e tão alheia 
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

domingo, agosto 31

Aquele momento em que pensas que aguentaste tudo,  que já ultrapassaste a fase má, que já estás fina, e que descobres que ainda há conversas que te põem em lágrimas, que haverá sempre versões da mesma velha história que te porão de joelhos e que haverá sempre aqueles 3 dias de férias que merecias mais do que a maioria das pessoas que vais passar em casa dos pais a chorar porque mesmo isso é menos mau do que o planeado.

sábado, agosto 30

Os divórcios são sempre difíceis.  Quem fica com o quê depois de 10 anos de casa em comum. Eu fiquei com a tostadeira. Também fiquei com quase tudo o resto, mas não me importo muito e nem é por mal. 10 anos em que fui eu que comprei quase tudo mas salvo erro a tostadeira nem era minha, mas agora é e ainda bem, que ele nunca soube fazer mais do que tostas mistas e mesmo isso mal. Nunca se lembrou que oregãos é um ingrediente essencial para qualquer tosta, e por isto é no mínimo legítimo que a tostadeira tenha ficado comigo. Como o gato (presente de anos, por isso dele) ou os quadros da parede. As máquinas de lavar as coisas todas, o berbequim (meu), a cama, o sofá, o frigorífico,  a comida toda que estava no frigorífico,  incluindo os tuperwares com comida feita pela irmã dele. 10 anos em que eu comprei tudo para nós, para ele, pintei todas as paredes,  servi todos os pequenos-almoços na varanda,  decidi todas as férias e lhe comprei as sapatilhas.
Hoje ele levou os amigos e haverá sempre dias assim, sextas à noite em que ficarei em casa para que nenhum dos amigos tenha de fazer a impossível escolha - de quem gostas mais? do papá ou da mamã, fico em casa com os lápis de cor e com os oregãos e o bom vinho, na esperança de que se a nossa separação vier à baila, alguém lhe diga com as letras todas - é verdade, ficaste a perder no divórcio, mas não foi nos bens materiais.

terça-feira, agosto 26

O meu pai não teve rapazes. Somos 3 raparigas. Mais a mãe, a empregada, as cadelas, as gatas, a sogra durante uns tempos. Uma casa cheia de mulheres pequenas, género feminino espalhado pela casa toda, todos os quartos, pensos higiénicos em todos os quartos de banho, alguns maus humores esterogénicos, mas não muito - talvez a síndrome pré-menstrual seja mais evidente quando há muita testosterona a assistir, nunca havia muitas fitas lá em casa, nem desejos nem choros nem gritaria fora da habitual confusão de uma casa cheia de mulheres. Também não havia, que me recorde, cor-de-rosa. Nem bonecadas espalhadas pelos cantos, havia uma única barbie que foi oferta de uma vizinha alemã ao ver o meu desespero na relutância da minha mãe em oferecer-me o icon feminino da pernas desproporcionais e copas D+ - nós que temos perna curta e mamas pequenas e que fomos educadas a fazer-nos valer mais pelo que nos passa dentro da cabeça do que pelos sedosos cabelos loiros. E mesmo essa bárbie, que depois passou para a mais nova, não vestia mini-saias de seda rosa choque como as outras - vestia vestidos pelo joelho com padrão igual aos nossos que a minha mãe se entretinha a fazer a partir das nossas bainhas no sobe baixa remenda da máquina de costura de quem tem 3 filhas com alguns anos de diferença. Não havia fitas de veludo para o cabelo porque não era preciso - os cabelos eram todos curtos e assim não havia choros na hora de pentear. Não havia sapatos de verniz mas havia galochas com bonecada diversa.
O meu pai não teve rapazes mas também não lhes sentiu a falta que quem cresce em casas assim, não tem o género marcado na pele e como tal, tanto aprende a fazer tartes de chocolate e natas como pode manusear um machado.


 

domingo, agosto 24

às vezes a vida dá-nos um pontapé e nem sempre é injusto, nem sempre é mau levar um pontapé. às vezes é mesmo o que precisamos, um valente pontapé na canela, daqueles que nos deixam a ganir e a dizer what the fuck. na pior das hipóteses faz-nos parar de correr um bocado. deixa-nos a mancar e a mancar passamos pelas coisas mais devagar, olhamos para elas com olhos de ver.
às vezes a vida dá-nos 20 pontapés e aí já não é tão bom. e só não entendo como continuo em pé, com as pernas todas pisadas, como ainda escovo o cabelo e vou trabalhar com um sorriso na cara. a mancar, toda negrinha, com o pulso torcido e neste momento só me questiono - o que é que é perciso para me deitar abaixo? e digo isto sem cinísmo. já nem reclamo com a vida. olho para o pontapé e digo - olha-me este? que quer este? o que é que eu não vi desta vez? como é que me vou virar? e é que vou! não tenham dúvidas! e não vai ser de gatas, nem com lágrima no canto do olho que isso já passou. isso foi um momento mau ali em Janeiro, talvez Fevereiro, mas já estamos quase em Setembro e Setembro é o meu mês!
se for preciso sei onde se vende um incenso "sai de mim coisa ruim", e ainda nem sequer experimentei acender velinhas à nossa senhora de uma coisa qualquer ou juntar-me à festa da igreja universal do reino de deus que é logo ali do outro lado da rua na minha casa, e até aposto que é divertido, que eu bem os ouço do alto do meu 5º andar aos domingos à noite.
vai tudo correr bem. daqui é a nada é Novembro, querida vida, e em Novembro eu tenho férias. 15 dias só para mim. e se até lá tudo continuar a dar para o torto, lá irei torta de férias, levarei o reumon-loção e uns brufens na mala et voilá mundo comigo, tudo isto terá importância nenhuma quando entrar no avião.
e se Dezembro continuar a empurrar-me escadas abaixo, oh do not worry, não há nada que eu não seja capaz de fazer.
querida mãe, vê se dormes qualquer coisa, que eu por aqui durmo muito bem.

quarta-feira, agosto 20

e dançariamos, meu amor, descalços na sala. mesmo sem música, só assim, devagarinho. eu descansando a cabeça no teu ombro, cada um dentro da sua cabeça, cada um com mil palavras por dizer, palavras sem forma, nem som, talvez um suspiro. Ficariamos ali, meu amor, olhos fechados, até um de nós ter frio, até me pisares ou eu te pisar ou uma buzina soar lá fora, ou qualquer coisa que quebrasse o éter.


terça-feira, agosto 5

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)


ai como me dói esta diferença de género. os homens com os pés na mesa de café e as mulheres a aspirar o mundo todo como eu aspiro. a casa. o amor. as crianças. as flores todas. a calma e o rodopio. e os homens que só aspiram quando é páscoa ou quando as mulheres estão doentes, o que é nunca.
a maioria das minhas amigas casou mal. é mesmo assim. não é que não sejam felizes, acho que são, mas não têm um grande companheiro em casa. ajudam. vão ajudando. quando elas pedem, até vão eles ao supermercado às compras mensais. se pedirem muito e se houver um impedimento de maior, até são capazes de levar os miúdos ao pediatra. é claro que em troca elas desunham-se o resto do ano.
diz-me um amigo com um sorriso na cara, e ao mesmo tempo com alguma pena de mim pendurada nos olhos, que querias rapariga? há 100 anos estavas fechada em casa, nem votavas nem tinhas emprego nem tinhas direito a opinião. e eu suspiro. é verdade. mas nós mulheres temos o cérebro em reboliço há muitos milhares de anos, foram muitos milhares de anos sentadas à frente do toucador a pintar as bochechas com afinco mas o cérebro não pára enquanto pintamos, sabem? Não votavamos nem trabalhavamos nem  podiamos sair do país e estavamos destinadas a deixar a barriga crescer vezes sem conta, mas pensávamos ai quando isto der a volta... ai quando eu puder estudar ler escrever sair para a rua de mini-saia trabalhar numa empresa ganhar dinheiro meu. ai que ninguém me pára.
a minha empregada que trabalha de sol a sol, as manhãs todas e as tardes todas e que corre de um canto para o outra da cidade de autocarro, a minha empregada que até nem se importa de trabalhar aos feriados porque às vezes se diverte mais em minha casa do que na casa dela que o marido não a leva a passear, a minha empregada que é uma despachada, pede para receber o subsídio de férias em dinheiro que é para o marido não lhe arranjar destino para aquilo e assim ainda compra umas sapatilhas iguais às minhas, aquelas vermelhas que ela gosta tanto.
não sei se são os homens que não são companheiros ou se são as minhas amigas que se contentam com pouco. eu também já me contentei com pouco. ou contentei-me com o que havia, muito ou pouco. elas também se contentam com o que há. ele até ajuda, dizem de vez em quando. e eu vejo-os de braços cruzados enquanto elas correm para apanhar os 2 filhos que cada um corre para o seu lado e eles de braços cruzados, olhando ao longe para ver se está tudo em ordem e enquanto nenhum estiver na eminência de se meter debaixo de um carro posso continuar aqui a falar com o meu amigo sobre a crise do BES.
e eu sempre a pensar, dá-lhe um grito. envergonha-o à frente de toda a gente, na praça de república, diz-lhe que já se mexia um bocadinho. e depois lembro-me de quão ofendido o meu ex-namorado ficava quando eu fazia piada da sua perguiça, como se ela existisse mas não fosse para ser falada. lembro-me como ele me deixou porque eu nunca parava em casa, porque não tinha tempo para as noites de copos até às 9 da manhã, porque eu não queria ser como elas, porque eu também não gosto de ir ao supermercado, também não gosto de arrumar a roupa toda, porque eu também gosto de chegar a casa e ter a comida na mesa e poder pôr os pés em cima da mesa e beber um martini e penso ó miúdas aguentem que isto de ficar sozinha é o que acontece a quem acha que o século XXI já chegou às mulheres.

deixem-se estar que assim ainda têm uns mimos e alguém com quem dividir as contas e com quem marcar férias no Alentejo, deixem-se estar quietas. pode ser que as vossas filhas tenham melhor sorte. deixem-se estar assim, ó cheias de doçura, ó super-mulheres, deixem-se estar que não há principes encantados, até eu já descobri isso. deixem-se estar que não há nada melhor do que dormir enroscada.

domingo, agosto 3

ele disse que se eu pudesse pintava mundo todo. todos os muros velhos, as paredes do meu quarto, cadeiras partidas, folhas de papel frescas e brancas, as costas de todos os amantes, fotografias antigas. é verdade, se eu pudesse juntava um pouco de amarelo, algum azul petróleo, risquinhas brancas, uma outra flor a este mundo tão triste. e este Verão tão incerto, tão cinzento a cada dois dias, este ano tão monótono, tão cheio de altos e baixos e mesmo assim tão feito de dias uns a seguir aos outros, pintava-o todo de trincha e havia de ser azul traineira, ou verde musgo húmido ao sol da manhã.






O que ele não sabe, o meu amor, é que debaixo da manga comprida do casaco a que estes dias de Agosto sempre obriga, o meu braço direito trás sempre um desenho a lembrar-me que também o meu corpo pode ter melhores dias e que, apesar do vento e da chuva e das contas para pagar, apesar das más notícias e da crónica falta de liquidez, sou eu mesma que escrevo o meu fado e que há flores e pássaros e musiquinhas pop a pedir para serem vestidas em antebraços pálidos.

sexta-feira, agosto 1

os carteiros já não sabem porque é que alguém os inventou. já esqueceram. pensam que estão ao serviço das finanças ou do senhor do fraque. pensam que dentro de todos os envelopes vêm contas para pagar porque é isso que os seus colegas carteiros lhes deixam nas suas caixas de correio. a conta de luz, a conta da água, a conta do gás, seguro do carro, finanças, extractos do banco com números cada mês mais minguantes, a anuidade da revista, a notificação do IMI, do IMT, a carta do tribunal por causa do processo do divórcio, das partilhas complicadas que não vai sobrar nada depois de pago o advogado e ainda vou ter de matar a cunhada e aí é que vai ser. as contas todas do mundo, até as contas do anterior inquilino, contas para quem nunca aqui morou, mais os catálogos da La Redoute, da Moviflor, do Readers Digest, a publicidade do stand de veículos usados, do minipreço, do professor caramba que promete curar todos os males do mundo, a publicidade dos limpa-chaminés e eu queria era fechar a lareira que aquilo só serve para entrar frio nos dias de vento e inverno e assim aumentar ainda mais a conta da luz e a conta do gás.

os carteiros já não sabem, mas há cartas com marcas de baton, há cartas com perfume, há cartas com postais de amigos para colar no frigorífico, envelopes almofadados que atravessam mares cheinhos de amor e saudades, há carinhos que viajam dentro de envelopes.

os carteiros não sabem que há pessoas como eu que escrevem cartas todos os dias e que se pudessem, se tivessem tempo de ir até aos cada vez mais raros postos de correio, as mandavam a todas, escritas à mão ou dactilografadas na minha Smith-Corona HCESAR herdada do avô, onde aprendi a escrever cartas ainda antes de saber escrever kksdljfgirgkjxbvjksbvjksf  kdfjs  odfjksj f  flsçdlkf plim tab e com a qual ainda brinco no dias de hoje porque há coisas que por mais velhas que sejam nunca perdem o seu charme e cartas de amor e máquinas de escrever são só duas dessas coisas e não há teclados ou emails que as substituam.


os carteiros não sabem porque nunca tiveram um amor embarcado ou em terra distante, porque para eles o atirar o envelope para dentro da caixa de metal é só um gesto mecânico e nunca suspiraram pela hora do carteiro porque os carteiros são eles próprios e nínguém suspira pela sua própria hora.

os carteiros não sabem que há pessoas como eu, que passaram todas as contas para facturas electrónicas e que quando vão à caixa do correio é com o coração apertado, numa louca esperança de um mimo que o mundo me habituou mal e já recebi cartas de amor, chocolates, livros inesperados de amigos escritores, cartas de amigos emigrados, desenhos dos meus sobrinhos, postais de sítios distantes e outros do outro lado da rua e que o meu frigorífico tamanho familiar enorme para a família que não tenho, não tem espaço para mais e que a única peça de madeira que fiz nas aulas de trabalhos manuais foi um pequeno baú que já não fecha e não é pela falta de jeito mas porque já não cabem dentro dele 34 anos de cartas e postais, alguns já com a tinta tão desaparecida que só a minha excelente memória me permite lembrar o beijo que os meus pais mandaram das suas férias a Bruxelas tinha eu 3 anos.

o meu carteiro não sabe porque se calhar já nem sequer é carteiro, às tantas é apenas funcionário de nível III, e por isso mesmo foi com muita pena que eu hoje lhe deixei uma reclamação que talvez lhe retire a promoção daqui a 25 anos, porque ele não sabe que o meu coração saltita ao ver selos e carimbos e porque ninguém lhe ensinou que o amor às vezes vai de uma cidade para a outra dentro de um envelope de correio verde pré-pago e hoje era um desses dias. tenho pena que as pernas lhe cansem e que o prédio de 3 andares sem elevador lhe seja um entrave e que a falta de amor aos que saboreiam os presentes assim mesmo, em pacotes almofadados, o tenham feito atirar o meu presente-surpresa para cima da caixa de correio na entrada do prédio, como se fosse mais uma conta que se não fosse entregue haveria sempre de chegar ao seu destino, mais dia menos dia. tenho pena que ele nunca tenha recebido um pacote-surpresa. tenho pena que ele tenha pressa de acabar o seu serviço para poder chegar ao final do dia e tirar a farda de funcionário nível III e sentar-se a ver televisão. tenho pena, senhor carteiro, que hoje o seu dia termine com um raspanete e digo-lhe só que até tem sorte, que podia ter sido com uma reclamação por escrito, tivesse eu tempo e não estivesse tão feliz pelo facto de o acaso não ter querido que o meu presente fosse roubado da entrada do prédio e de ainda haver pessoas que, como eu, adoram selos e envelopes e a espera da entrega de amor via postal

Primeiro dia de Agosto e o tempo está frio e está cinzento e está triste. Hoje é um dia a preto e branco e não há sombras e como não há sombras não tirarei fotografias o que torna o dia ainda mais frio e cinzento e triste.
Se pudesse (ai se eu pudesse...) atirava-nos para o sofá - tu eu e o gato - cobria-nos com uma manta, fazia uma tarte de pêra e um chá de lúcia-lima e faziamos uma maratona de filmes, ou viamos a volta à Portugal em bicicleta a chegar ali à Avenida da Liberdade a partir do sofá, ou outra coisa qualquer, o dia inteiro em cima do sofá - é proibido pôr o pé no chão! Punha o rádio no on e no off o telefone. Não falariamos do massacre de Gaza, não pegariamos no computador. Se pudesse, hoje não saia à rua nem que os cigarros acabassem, nem que não houvesse nada no frigorífico e nos apetecesse gelado. Trancava a porta e abria todos os estores e ficavamos a olhar para o mundo a passar do outro lado do vidro.
Mais nada.
Os teus braços e os meus braços e as minhas pernas enroladas nas tuas.

quarta-feira, julho 30

o massacre dá na tv e não é retrospectiva

o que fazer com esta impotência de ver um genocídio na televisão?

sem entrar nos pormenores da origem da culpa, que na verdade está bem definida já que ninguém pode dar o que não é seu e a resolução de oferecer um pedaço de terra que não lhes pertencia em 1948 não deixa qualquer dúvida, mas esquecendo isso, fazendo de conta que este problema começou há 15 dias, como podemos ficar indiferentes a um massacre de um povo de crianças (a idade média dos palestinos é de 16 anos) por parte de uma super-potência militar? E se não ficamos indiferentes, o que podemos fazer? Porque partilhar imagens dos mais de mil estropiados, porque condenar nas redes sociais e discutir o assunto nos cafés me parece coisa pouca.

sempre condenei o alemães por não terem feito nada contra o movimento nazi. não quero, nem nunca quis, aceitar que todos os alemães aceitaram de bom grado o extermínio dos judeus e ciganos e romenos e deficientes. sempre acreditei que havia muitos que eram absolutamente contra, mas também sempre me chocou como podiam ir tomar café, e fazer férias e convidar amigos para jantar enquanto milhares eram reduzidos a cinzas ao seu lado. neste mundo global em que vivemos a Palestina é já aqui ao lado e eu continuo a tomar café e a trabalhar e a planear as minhas férias para Outubro e isso não me parece bem.

a democracia global pela qual supostamente tantos povos lutaram, tantas resoluções internacionais, tantas cartas de direitos Humanos e direitos da Criança, tantas acções conjuntas, tantas reuniões das Nações Unidas e na verdade esta democracia não serve para nada. As Nações Unidas pedem "contenção", tenham aí algum cuidado, não sejam tão mauzinhos, ó Israel. Nenhum embargo, nenhuma sanção, nenhuma força militar de paz, só palmadinhas nas costas - ó Israel, está toda a gente a ver, vê se não acertas em tantas criancinhas, vê se consegues contrariar as fotos de pequenos corpos espalhados no chão, dá-nos alguma coisa que ajude... conta-me a história do soldado isrealita que torceu o tornozelo numa ofensiva, conta-me como os vossos avôs foram mortos em câmaras de gás, fala de como os vossos tetra-avós foram expulsos para o deserto, e contenham-se - acertem com os mísseis apenas nos miúdos que tenham pedras nas mãos, evitem as grávidas, por favor.



e a mim custa-me trabalhar, custa-me ir ao supermercado, custa-me aceitar que não há nada que eu possa fazer para além de partilhar as fotos, custa-me continuar com a minha vida normal enquanto o povo-menino de pedras nas mãos a defender a sua casa é eliminado da face da Terra.

When they kick out your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun




E os meninos nem armas com gatilho têm e nem mesmo o Hamas tem armamento de jeito para se defender do país mais armado do mundo e mesmo assim eles arrombam a porta e os Palestinos é que são os terroristas porque não abrem a porta de joelhos no chão e mãos na cabeça.

a mim custa-me aceitar que a democracia, o poder do povo, nos continue a deixar de braços atados à frente da televisão ou do computador e que os nossos lideres, aqueles a quem nós pagamos todos os dias para nos representar, se alheiem desta situação como se entre marido e mulher não se metesse a colher, como se os crimes de guerra não fossem crimes públicos, como se os direitos Humanos só se aplicassem post-mortem.

se alguém souber como se lidar com esta angústia (e não me digam bebe um copo e vê a novela das 6), por favor, conte-me!

domingo, julho 27




O meu sangue é salgado e tem cheiro a maresia, sargaço e óleo dos petroleiros que passavam em Leixões. E é espesso como as folhas dos metrosíderos da Foz do Douro. Eu sou espessa como os metrosíderos, que vieram da Nova Zelândia, do outro lado do mundo, onde lhes chamam "pohutukawa" que, em maori, significa "salpicada pelo mar". Também eu fui salpicada pelo mar. A minha mãe tem medo do mar, este sal deve vir da parte do pai, ou dos passeios ao Sábado na Avenida de Montevideo, mas sempre senti as ondas de pulso com espuma suja, os meus cabelos ao vento sempre tiveram algas ou peixes e entre os dedos dos pés é frequente encontrar areia grossa.


Quando tomo banho, às vezes, reparo que trago uma ou duas traineiras no umbigo. Às vezes estão atracadas porque o tempo está mau e sinto o olhar vidrado dos pescadores das Caxinas no mar, em mim, à espera que a tempestade passe. Às vezes, quando os dias são bons, sinto-as a largar amarras e aventurarem-se veias acima, começam pela umbilical, logo ali ao lado e banham-se nos humores do peritoneu. Parecem borboletas.


As tábuas com pregos ferrugentos, restos de redes, as garrafas de óleo e de água e os pauzinhos dos gelados, um ou outro cadáver vêm sempre, mais cedo ou mais tarde, dar às minhas costas e eu não tenho bandeira azul, não tenho banheiro nem sou sequer praia, só mar, não tenho quem me limpe em dias de marés vivas e nem sei onde meti as minhas bóias salva-vidas.


quinta-feira, julho 24

Adília Lopes que eu queria Tília



Foi há um ano. Foi talvez o início do fim mas isso não tem importância nenhuma porque na verdade só ela é que interessa. A Adília. A Adília Lopes que eu queria Adília Tília porque tinha aquele verdes olhos que mereciam nome de árvore.


Era um rato quando me apareceu na clínica. Um rato, cheio de pulgas, pêlo ralo e um medo a subir cauda acima. Lembro-me das peixeiras das Caxinas que a trouxeram - ó doutora, fique-me com ela! está desde manhã cedo a miar-nos para o peixe e sabe que o meu marido me mata se eu levo um gato para casa! eu a olhar e a pensar que o patrão me mata se lhes fico com o gato, que para isso é que há gatis. e eu a olhar para aqueles olhos enormes que eram a única coisa que parecia ter vida naquele bicho...





Lembro-me de tudo, minha querida. Lembro-me de como nos mordias e dizias todos os dias eu sou a rainha da casa mas não se esqueçam que sou caxineira! lembro-me como às vezes punhas o boné para trás, que é como quem diz que espetavas as orelhas e nos olhavas de lado, com ar de fuínha e de como te derretias com um beijo na testa. Lembro-me de como adoraste o Adolfo, como lhe lavaste os olhos e lhe bateste quando ele te roubava o mimo, lembro-me como atiravas tudo para o chão quando te davam os ciúmes. Lembro-me de tudo, melhor gata do mundo! Lembro-me disto, desta fotografia, todos os dias. Pensas que era por desleixo que deixava o copo com água em cima da mesa? não era, Adília, era por isto, por esta tua sede de fazer asneiras, por esta vontade que tu tinhas de ser gente, por este teu gozo de beber os meus copos de água até ao fim.


Lembro-me de te pôr o cateter, lembro-me dos nossos últimos 20 minutos, a tua cabeça encostada à minha cara - sabias tudo, não sabias? - um ronronar baixinho que o cancro do pulmão não te deixava mais, os olhos sempre à procura dos meus, lembro-me de adormeceres devagarinho, só nós as duas naquele consultório, devagarinho a cabeça a deslizar na minha mão... lembro-me como se fosse agora, minha querida, da tua paz, a olhar para mim como quando adormecias todos os dias, cabeça no meu braço.

Há quem diga que não há como o primeiro amor - é mentira. Mas há amores que nunca se desfazem. Há saudades que ficam sempre imaculadas, e tu, minha querida gata, és ainda e sempre a melhor gata do mundo! Hoje és uma gerbera vermelha no parapeito da varanda e Rita disse-me, a semana passada, que te diz sempre olá sempre que passa no canto do jardim onde vives na casa dos meus pais. Existirás sempre enquanto houver memória de ti, que é o mesmo que dizer que existirás, pelo menos, enquanto eu existir, ó esfinge!



terça-feira, julho 22

Estou em pausa entre livros. como que suspensa. à espera que passe. à espera que o "Kafka à beira-mar" passe, à espera que cada personagem passe por mim, devagar, limpe a casa toda, pegue em todos os trapos, arrume a cozinha que usou nas últimas duas semana para preparar o chá, eu sentada numa cadeira no canto da sala, com as mãos no colo, a vê-los a fazer as malas.

Há livros que vêm de mochila, quando acabam já têm tudo preparado para a saída e não tenho tempo nem para me sentar. E não estamos a falar de maus livros que eu esses abandono num canto qualquer e não penso mais neles. Mas livros que trazem pouca bagagem, livros-mochileiros ou one-night-stand, chegam, entram na cama e no dia seguinte saem antes de eu acordar. Talvez de manhã ainda me lembre das suas caras, das mãos mas no final do dia já é só a memória de um ou outro detalhe e seguir em frente.

Mas o Murakami não é desses. É dos que traz a sua própria chávena, que estende o tatami no chão do quarto, ao lado da cama, que enrola os dedos nos meus cabelos enquanto eu leio, que me sopra no pescoço. É dos que faz de conta que veio para ficar, dos que desfaz a mala e ocupa uma gaveta vazia e ajuda a arrumar a máquina de lavar loiça, como se a casa fosse sua. É dos que fala comigo como se o meu corpo fosse a sua casa, ali, à vontade, sem vergonha de me apertar o rabo, sem ansiedade nenhuma. Esses são os piores. São os melhores e só são os piores porque quando vão deixam tudo arrumadinho, dão um abraço, um beijo e vão à sua vida e quando chego a casa nem sei bem se alguma vez lá estiveram ou se foi só imaginação minha. Um vazio.



Estão todos, agora mesmo, a fazer a mala dentro de mim, a levar os livros todos, as músicas todas, a dobrar o jardim da biblioteca, a carregar a aldeia no meio da floresta, em silêncio, descalços. Já estão a varrer o chão. Quase imploro que não o façam - não precisam de levar tudo, não precisam de arrumar tudo, deixem-se ficar mais um bocadinho, faço-vos outro chá? Conta-me Kafka que vais fazer a seguir? Prometes escrever? Sakura, manda-me fotos! Oshima, que livro devo ler a seguir? E eles já em silêncio que já disseram tudo o que tinham para dizer e eu sei, mas queria que eles me adicionassem no facebook, que prometessem voltar um dia para um copo de vinho verde na Sé, todos juntos e talvez um passinho de dança.
 
Estou sentada no canto da sala, mãos no colo, a tentar descobrir um fio de cabelo, um chinelo perdido, um quadro roubado, alguma coisa que não esteja na mesma. O gato a olhar para mim - não vi nada, o que procuras? não se passou nada! E eu à espera que alguma coisa tenha mudado e gato a dar cambalhotas - olha para mim, tão lindo! - e eu a falar com o gato, talvez o Nakata tenha deixado o dom? e nada. Tudo na mesma. Se eu contar que ainda há 3 dias tinha a casa cheia de gente ninguém se acredita. Dentro de mim todos eles, já estão parados, uma vénia e eu em ovação, mais uma vénia e eu a gritar - só mais uma! só mais uma! e eles vão fazendo vénias e eu sei que daqui a nada se cansam e têm de ir embora e fico eu na sala, sozinha, a saborear as últimas palavras que ficaram suspensas no candeeiro, ou nas plantas da varanda.

Mais um dia ou dois, lá vou eu de volta à vidinha, à Islândia fria do Valter Hugo Mãe e é pena que me vai saber a pouco e até nem é mau livro "A Desumanização" mas depois disto vai ser romance de beira de estrada.


E porque o mundo fala comigo continuamente, acabei de me cruzar com isto:

"Ever finished a book? I mean, truly finished one? Cover to cover. Closed the spine with that slow awakening that comes with reentering consciousness?
You take a breath, deep from the bottom of your lungs and sit there. Book in both hands, your head staring down at the cover, back page or wall in front of you.
You’re grateful, thoughtful, pensive. You feel like a piece of you was just gained and lost. You’ve just experienced something deep, something intimate. (Maybe, erotic?) You just had an intense and somewhat transient metamorphosis.
Like falling in love with a stranger you will never see again, you ache with the yearning and sadness of an ended affair, but at the same time, feel satisfied. Full from the experience, the connection, the richness that comes after digesting another soul. You feel fed, if only for a little while." aqui

I rest my case!

segunda-feira, julho 21

não vou dizer-te, meu amor, que tenho saudades tuas, porque é das tuas mãos que sinto a falta.

nem te direi que durmo encostada à parede para o caso de em sonhos precisares de canto onde descansar um pouco. não te direi que deixo sempre duas chávenas junto à chaleira (é de frutos vermelhos e limão) e que se precisares de gelo está na segunda gaveta do congelador. não te direi que a Rosa já voltou para a Alemanha e que já estou sozinha outra vez e que, como tal, podemos fazer amor de porta aberta, ou na sala, se quiseres.
não te direi, porque não te interessa para nada, que já fiz o desenho mas soltei o pássaro que bichos com asas não foram feitos para estar presos, nem dentro de corações, e que a parede ainda tem tanto espaço que não precisarei de ir para a rua de caneta em punho.



não te direi que tenho férias em Outubro e que procurei a tua rua no google maps e não me parece fraco destino. 

quarta-feira, julho 16

Momento ridículo do dia - acabei de tirar forno um delicioso arroz de pato para 2. Vivo sozinha e são 23.15 e nem o facto de arroz de pato ser a minha refeição preferida de todo mundo anula o facto de não ter fome absolutamente nenhuma. Dou graças a dEUS pelo facto de já ter comido uma sopa e a fruta enquanto esperava pelo pitéu, ponho papel de prata em cima e amanhã há festim ao almoço! 

este post não deveria começar assim. e deveria ter o título - coisas adultos que vivem sozinhos. então cá vai a versão 2.0, menos cansada deste post

Não é fácil viver sozinho. É bom, mas não é fácil. Os dias são demasiado curtos, 24h não chegam para nada.
Sai-se do trabalho às 6, passa-se em casa para pegar na mochila para o ginásio, vai-se ao ginásio - 1h de cycling puro e duro e o sol de final da tarde a bater na cara, que quem é solteiro não se pode dar ao luxo de não queimar calorias num sítio qualquer sob o risco de passar horas no sofá com um pacote de bolachas na mão ou em mesa de tascos mal frequentados com vinho rasca à frente e eu, mal por mal, prefiro ficar jeitosa!
Chegar a casa às 9, regar as plantas - convém pôr adubo universal pelo menos uma vez por mês - dar de comer ao gato, limpar a areia ao gato, fazer a cama de lavado (a empregada até veio hoje - ai que eu sou tão burguesa! - mas por motivos alheios a mim e a ela não havia roupa da cama lavadae passada), fazer o jantar.
Fazer o jantar - verificar o que se tirou do congelador a correr à hora de almoço. Eu tenho um congelador cheio. Completamente cheio. Foram 12 anos de refeições organizadas, mega-jantaradas, assados e vinho a qualquer dia da semana, sempre congelador cheio para qualquer desejos. Polvos, peixes, pá de porco para assar, 1/2 pato, gelado, you name it, tenho tudo. Então tirei um taperware a correr, na esperança que fosse 3 fatias de carne assada feitas pela mãe para dias em que não sobra tempo para nada excepto para as enfiar entre 2 fatias de pão. Não era. Era um belo de um pato desfiado, com calda e tudo, mesmo à espera do forno. São 9.45 da noite, não são horas para um arroz de pato mas deitar comida fora é que não, muito menos pato que é só a minha refeição favorita. Então mãos à obra - seja arroz de pato, não tem mal nenhum, amanhã também é dia. Arroz de pato, receita da avó! Forno e tudo. É claro que já não havia qualquer esperança que isso me servisse de jantar, pelo que me fiquei pela sopinha e pela meia meloa que me esperava impaciente de tão madura no frigorífico et voilá, hoje tenho arroz de pato para almoço.