Reza a história que era má. Uma beata de primeira com uma depressão crónica com agudizações frequentes de bater portas e chorar copiosamente. Reza a história que trazia sempre pouca doçura nas palavras e nos gestos e que por ela a minha mãe nunca tinha feito mais do que a quarta classe, mas estes rumores não posso realmente confirmar porque não foi esta a avó Arminda que conheci. Da sua maldade só me lembro que fazia esperas às toupeiras de sachola na mão e que matava as lesmas com sal.
Beata sim. Passavamos todos os anos umas semanas de verão com ela na aldeia (ou na Póvoa das barracas às riscas) e lembro-me bem das idas à missa (as únicas missas que frequentei na vida, à excepção de um ou dois casamentos e alguns funerais), lembro-me de quanto a entristecia que não soubessemos rezar e de como nos punha nas mãos a Cruzada para leitura de férias. É a única pessoa que eu conheço que garantidamente foi para o céu. Não sendo rica (e sendo até bastante sumítica), comprou o seu lugar. Comprou missas funebres em vida com medo que a família de ateus que deixou não lhe fizesse a vontade. Foi à missa todos os dias da sua vida até se mudar para casa dos meus pais, as pernas já não aguentavam tanto sobe e desce de escadas, a vida sozinha numa aldeia perdida no meio do Minho, a vontade de continuar a jardinar e a subir escadas toscas para apanhar limões e a doença a começar a dar os seus sinais. Aí passou a ir à missa aos Domingos. A minha mãe acordava-a "Mãezinha, vamos à missa", deixava-a à porta da igreja e ia buscá-la uma hora depois. Um dia, depois da missa, não apareceu. A minha mãe deve ter-se atrasado 5 minutos e ela lá achou que era melhor aproveitar então foi a duas missas seguidas. Um dia "Mãezinha, vamos à missa" e ela " Já não é preciso. O senhor padre disse que já não era preciso. Que já vou para o céu." E nunca mais foi à missa. Nem nunca mais a vi com o terço nas mãos em ladainha continua como nas viagens para o Alentejo, nunca mais a vi a chorar a nossa não crença, nunca mais a ouvi dizer "Graças a Deus, muitas, graças com Deus, poucas". A garantia do céu relaxou-lhe a alma, passou a sorrir mais, a trazer a doçura de quem já não tem medo de coisa nenhuma. Ninguém sabe se o padre se fartou dela ou se lhe foi por amor que lhe prometeu o lugar.
A casa da avó Arminda ainda tem um cheiro só dela. Cheira a limonada com limões acabados de apanhar do limoeiro ao lado das escadas e água gelada da mina. Cheira a salpicão do Bengança e nossas senhoras que medem a humidade. Cheira a pó e a portas fechadas, arcas e uvas americanas. Cheira a sol a entrar por cortinas de poliéster brancas para divisões sempre às escuras. Ainda lá vou de tempos a tempos, roubar bocadinhos de memórias, o aparador, o rádio do avô, uma ou outra camisa, as taças esbotenadas da marmelada para plantar cactos. Da última vez que lá tive, encontrei-lhe a perúca. Era igual ao cabelo dela, preto, curto, muito arranjado, de quando eu era pequena. Deve tê-la comprado quando foi operada à cabeça para retirar o quisto. Quisto benigno no lobo frontal cuja cirurgia lhe roubou o olfacto (nervo olfactivo a passar mesmo ali à frente) mas que lhe deu, de acordo com o meu pai, de quem nunca amiga (ó homem tolo que roubou a minha mãe do altar e de uma santa existência abençoada pela igreja), doçura. Um ligeira lobotomia frontal que lhe controlou a depressão que os choques electricos e as medicações não conseguiram durante anos.
Faz este mês 2 anos que morreu depois de prolongado Alzheimer. Um doce Alzheimer. Sentada na sala a olhar para o infinito e a empregada perguntava "Quem é dona Arminda?" e ela hesitava "É a Ana?" e nem olhava para mim, só olhava para a Fernanda, com voz de menina a responder à pergunta da professora. "É a Leninha!, dona Arminda" e ela sorria. "Porque foste viver para tão longe, Leninha?", eu que vivo a 60km, "É em Braga, não é? Porque foste viver para tão longe Leninha? Estás bonita, estás gorda!" e dava-me uma palmada no rabo e sorria, orgulhosa das minhas carnes que ter carnes é não passar fome. E voltava ao seu silêncio, ou à
leitura de qualquer coisa, ou a olhar as rosas. Depois a doença foi-se aprofundando, e a Fernanda perguntava "Quem é Dona Arminda?" e os olhos pequeninos olhavam para mim e olhavam para ela e eram só dúvida. Eu de mão dada com ela "É a Leninha avó, estás boa?" e os olhos continuavam a olhar com dúvida mas a mão apertava um bocadinho a minha e a dúvida era o Alzheimer e a mão era a minha avó.
Morreu no dia 15 de Setembro de 2012. Num lar. Aguentou anos a fio de doença, sondas nasais, colo, fraldas, beijos na testa, os mimos dos bisnetos. Desistiu no dia seguinte a ir para o lar. Eram só 2 ou 3 dias, avó, era só enquanto a minha mãe estava internada, mas ela não ouviu. Pensou que era a sério. Faltou-lhe a mão que conhecia, faltou-lhe a voz à qual já não respondia há anos, que provavelmente nem entendia há anos, faltou-lhe o beijo na testa e partiu. Na verdade, aguentou-se muito mais do que alguma vez seria de esperar. Sentada ou deitada, a olhar pela janela, a olhar as rosas dos grandes e calmos dias de Setembro.
Mas deixa-te estar assim, ó cheia de doçura. Agora e para sempre serás este poema.
Pequena Elegia de Setembro
Não sei como
vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada
no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música
escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque,
ou rio, ou mar?
Ou é dentro
de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar
contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de
quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que
palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te
estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade