há dias em que uma pessoa acorda e a única coisa que pode realmente desejar é que ele acabe sem partir um joelho ou sem que caia um avião à nossa porta. é deixar as horas correr, andar de pantufas com sola antiderrapante, comer apenas só comida acabada de fazer, não pensar sequer em tocar em maionese que está calor, não tentar abrir uma garrafa de vinho que o saca-rolhas não é instrumento de confiança. É trabalhar com afinco, cautelosamente, sorriso educado nos lábios, cordialidade forçada. Não tentar pôr um prego na parede ou trocar qualquer lâmpada.
depois há anos assim.
de 2014 só espero que acabe. não calçarei tacões, não arriscarei qualquer mergulho, não mudarei de shampoo ou de detergente da roupa. deixar passar todas as horas. todas as 2869 horas que faltam para o final do ano. usar creme anti-rugas que a espera às vezes deixa marcas profundas. pôr um alarme para regar as plantas, arrancar as ervas daninhas, dar de comer ao gato comida de lata uma vez por semana, pagar as contas no momento em que elas chegam. fazer uma manta de uma só cor, de um só ponto, infinita, ponto de tricot seguido de ponto de tricot. uma mortalha enorme, que me dê pelo menos 3 voltas completas se por acaso calhar de morrer.
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