segunda-feira, setembro 15

Eu já fui feliz!, sabem?
É como a coisa de ser rica. Também já fui rica. Fui rica durante muitos anos. Na verdade nunca fui rica, mas sou nascida e crescida em classe média-alta (dizem os meus pais, que eu sempre me senti rica). Mesmo sendo de classe média-alta (ou o que quer que eles digam) não como peixe congelado. É mesmo assim e não me venham com coisas, peixe congelado não vale de nada e país à beira mal plantado, 943km de costa e apenas 260km na horizontal (no mapa espalmado em cima da mesa) não justificam que alguém tenha de comer  tal coisa!
Mas dizia eu (primeira frase) eu já fui feliz. Era no tempo dos aquários,  é verdade, era no tempo em que os olhos dele eram peixes verdes. Era no tempo em que eu era inocente.  Mas era feliz. Era no tempo em que eu, feminista desde o umbigo, corria à hora de almoço do trabalho de pequena (e nem média) empresária para uma casa onde vigorava a ressaca para fazer uma omelete de rúcula e convidar um sonâmbulo para a mesa. 
Dizem os amigos, que só nos viam nas mesas de copos das quais eu tinha de fugir cedo para poder ser gente grande, e não uma ressaca só, no dia seguinte (há gente que gosta de viver todos os dias, mesmo que canse), que estou melhor assim, com tempo para ginásio e longos cabelos loiros. Dizem que perdi as rugas de quem tem de ser preocupar por dois. Mas eu era feliz, mesmo que agora nem perceba bem porquê, mas era.
Já não sinto falta nenhuma desses dias mas ainda não sou feliz como era. Falta-me a inocência das mãos dadas e tenho saudades de chegar a casa e ter um jantar na mesa. Acima de tudo, ainda preciso de encontrar novos planos, deixar os outros. Custa um bocadinho esta coisa dos planos falhados, os filhos que a esta hora já teriam o quarto pintado, mas é só isso. Dizem os amigos, às vezes até os improváveis, que estou melhor assim, que sou mulher e que mulheres precisam de homens (ou de mulheres, conforme o gosto) e ele é um miúdo, bom para beber uns copos e pouco mais porque nunca se sabe a que horas se vai pôr a pé e eu explico - não é ele que me dói, meus queridos, ele já não me dói porque já morreu e mesmo que ande para aí com arzinho feliz e copo na mão, já não é quem foi, o que me dói, meus queridos amigos, é a minha vidinha, que não foi assim que a desenhei, e se sim, tenho tempo para o ginásio e posso comer massa e legumes quantos dias seguidos me apetecer, também tenho dias em que chego a casa e estou cansada e tenho o mundo todo nos ombros e o gato não pára de miar e só queria uma mão nas minhas pernas e ombro onde pousar a cabeça enquanto adormeço no sofá.

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