Hoje à noite um homem tocava piano para mim. Os dedos corriam tão rápido sobre as teclas que por mais que eu focasse, apertasse os olhos para ver o movimento, os dedos eram sempre um leque a abanar violentamente sobre o teclado e, curiosamente, não era nada disso que a música acusava.
A cadeira ao meu lado estava vazia (eu sento-me sempre ao lado de uma cadeira vazia) e por isso pensei em ti. (Desconfio que quando me sento ao lado de uma cadeira vazia seja apenas para te guardar o lugar. Para quando existires. Hoje já existes por existir esta cadeira vazia. A tua. A tua ausência antes de ti.)
O homem tocava freneticamente no piano e eu pensava que nunca te contei que não gosto de Bach. Nunca te disse que adoro piano e que o estudei durante 3 anos e que desisti quando me mandaram tocar Bach. Bach que nunca escreveu para piano. No tempo do Bach nem sequer havia pianos. Bach que compôs para cravo e que por isso, para mim, cheira ao pó dos anos entalhados na madeira das colunas dos púlpitos das igrejas ao quem nem as beatas se dão ao trabalho de limpar o pó. O Bach cheira a pó e por isso desisti do piano e talvez não tenha sido bem por isso, talvez tenha sido porque aprender um instrumento seja um trabalho herculiano e eu seja apenas helena, fraca de carnes.
Ainda assim, a cadeira ao meu lado estava vazia e eu podia ter-te dito que adoro o piano e que não gosto de Bach e que este senhor hoje me encheu a alma e não disse porque a cadeira ficou vazia o concerto inteiro e eu não tive como te dizer.
segunda-feira, junho 11
sábado, maio 19
Ao meio-dia solar é a única altura em que eu sou inteira e por isso, a essa hora, tento fazer todas as coisas mais importantes como sentar-me no colo da sombra e sentir-me inteira. É sempre a coisa mais importante.
Nas restantes horas em que sou duplas, desdobro-me entre o infindável pagar de contas e o perseguir borboletas.
À noite, quando saio à rua, ou quando ando pela cozinha que tem 3 candeeiros, sou de tal forma múltipla que só sirvo para regar as plantas e beber um copo de vinho para acentuar as quadripolaridades.
quinta-feira, abril 19
O aeroporto de Marselha é um dos sítios mais feios onde estive. Parece uma central de camionagem foleira cheia de homens de metralhadora em punho. Estive lá três vezes - uma ida, outra ida e um retorno e só da primeira vez fui moderadamente feliz, mas ia ao engano, como mais tarde se provou.
Marselha também não é grande coisa, mas de Marselha não reza esta história.
O aeroporto de Marselha, que foi para mim só porto de escala, deve ter a minha cara e isso é triste. Chama-se Aeroporto Marseille-Provence, pelo que suspeito que não é pelo nome que se lembram de mim as minhas paixões quando por lá passam.
Pouco me lembro dele. Lembro-me de quão desapontada estava à vinda das férias em Malta, tanto que decidi desaproveitar as horas entre voos para voltar à cidade e me fiquei por ali a escrever uma história acerca duma senhora azul vestida de azul que se sentou junto a mim no café onde eu fazia horas para o voo de regresso a casa. (onde está essa história?, em que caderno? juro que tenho fotos discretamente tiradas a essa senhora!, onde?)
Mas desta viagem, onde dormi na cama de uma das minhas paixões, estando ele no Porto, dormida esta que foi paga com um livro enviado com amor pelo correio e pelo correio devolvido por morada incorrecta e entregue em mão vários meses depois, sem a piada de ser entregue pelo correio - há lá coisa melhor do que receber presentes não avisados pelo correio? ai senhores dos correios franceses... se soubessem quanto trabalham contra mim... -, acerca desta minha viagem triste a Malta, esta história também não fala.
Eu gosto muito de aeroportos. Já passei várias (muitíssimas, mesmo) horas em aeroportos. Também já fui desmesuradamente infeliz num aeroporto, mas era o Sá Carneiro, por isso, para me facilitar a vida e manter esta coisa das viagens, resumo a minha ansiedade ao cais de chegada do aeroporto do Porto. Do cais de embarque do aeroporto do Porto e de todos os cais de todos os aeroportos onde já estive, gosto muitíssimo. São os sítios mais feios onde se vêem os mais bonitos abraços e senhores, a minha varanda mira a central de camionagem de Braga, eu sei do que falo! No que toca a abraços de saudades, eu sou expert!
Gosto dos aeroportos por serem sítios-não-lugares. Tudo ali é impessoal. É uma questão de tempo. Quem ali pára está em trânsito, à espera. À espera do próximo voo ou à espera de alguém. Há livrarias com fracos livros de bolso e mau café a preço pornográfico. Nunca ninguém vai ao aeroporto só porque lhe apetece. Ninguém vai ao aeroporto com quem vai ao shopping, que é outro sitio altamente não-lugar, mas que as pessoas gostam de frequentar (porquê?). Os aeroportos cheiram a excitação ou a saudade. A excitação da nova aventura pelo desconhecido ou a saudade do regresso a casa. Quase todas as caras (cansadas) são felizes. Brilham todas um bocadinho. Pessoas ansiosas pelo outro lado. Com vontade.
Pior do que o aeroporto de Marselha, só o de Budapeste-Balatone, que só conheci brevemente à vinda por ter perdido o voo de ida e ter entrado na cidade de comboio (também gosto muito de estações de comboio) e que a memoria é só de nos ter deixado viajar de canivete no bolso em pleno pós-11 de Setembro.
É muito feio, o aeroporto de Marselha, mas hoje, pela segunda vez na minha vida, recebi mensagens enviadas desse aeroporto.
A primeira tem um ano. Tenho um amor platónico e difícil, que às vezes me doi, mas que o mais das vezes, me enche a alma. Somos desavindos. Daqueles que se conheceram no momento errado e que só lá para 2050 havemos de concertar. Falamos de vez em quando, para matar saudades, e para dizer que ainda sentimos. É um picar do ponto. Na maioria das vezes, naquele momento exacto antes de eu o esquecer - ele sente-o (ai os fios ligados matam-me!). Dessa vez voltava de férias com a mulher e na última paragem, enquanto esperava o avião para casa, disse-me 'tenho saudades'. Como se não houvesse pior história do que aquela em que ele aproveita o sul de França com a esposa e no retorno a casa, na última paragem, me diz tenho saudades. Tenho saudades, em francês, diz-se 'tu me manques', que mil vezes mais bonito do que dizer que tenho saudades. Tu me manques. As minhas pernas faltam-me pela tua ausência - meu dEUS, morria por um amor francês. Eu não lhe levo a mal. Sou possessiva mas não sou ciumenta. A história deste meu amor, romance já de 2 anos and rolling, é assim. É meu. Casado e sem eu o querer descasado, desde que as cartas de amor continuem a chegar amiúde (e chegam!), é uma platoníce do século passado, mas eu não sei hoje, agora mesmo, em que ano estamos, por isso não me importo. Mas tocou-me que ele de se lembrasse de mim, naquelas horas cheias de abraços e tédio, num dos aeroportos mais feios do mundo, a voltar de umas boas férias com a mulher.
Hoje outra mensagem - o da cama onde dormi com ele longe. Ele há gente que sabe desaparecer durante 5 meses e voltar como quem está em casa. 'Não li o livro... mas tenho dormido melhor'. Quem é que chega em Abril e continua uma conversa de Novembro? Que coragem? Que lata! (Mas eu gosto dos meis amores assim, descaradamente honestos. Vêm quando quiserem ver. Quanto a ficar, a decisão é minha). De regresso a casa, para saber como vai a vida. É tão simples o amor quando não se cobra nada... nem as partidas nem as chegadas... que temos de nos encontrar. E eu que já nem o contava quando contava o meu coração partido, já quase esquecido, lembrado apenas nas histórias contra os senhores que nunca me entregam cartas de amor.
(Nos dias que correm, o meu ódio vai para os senhores dos correios moçambicanos que me perderam o postal que seria a desculpa perfeita para reatar um outro amor pequenino).
Do aeroporto de Marselha os meus amores lembram-se de mim, e é triste porque aquele sítio é só feio. Por outro lado, os aeroporto são o não-lugar onde vivem as saudades mais bonitas que eu já vi, por isso é muito bom que eles se lembrem de mim, antes de entregar o passaporte na porte de embarque. Mesmo que seja no aeroporto de Marselha.
terça-feira, abril 17
Desejo e morte.
Dizer-te que infantilmente tenho 15 anos dentro do meu peito, pulsões que ainda não sei calar, que não quero terapias de afagamento hormonal, que só quero os meus dias tranquilos e que já voltei aos meus livros e ao piano clássico e ao meu silêncio costumeiro como quem tenta voltar a casa, à casa, aquele buraco quente debaixo dos cobertores onde só a gravidade do peso do edredon e do gato sobre as costas me assolam. Dizer-te que ainda não posso mas que espero para breve o desligar do telefone às 8 da noite, quando sair do trabalho nos dias de não urgência.
Desejo e morte. Alternadamente. Ou melhor, em camadas. Desejo morte desejo morte desejo morte tudo regado a chá a ferver.
A tesoura de podar será a minha arma. No domingo. No domingo cortarei tudo. Sacudirei as folhas secas da minha ausência sobre as sardinheiras para a varanda da vizinha que logo virá incomodar à porta que eu desta vez não abrirei. Podar as sardinheiras e pôr terra nova e enterrar-te no vaso do limoeiro - amargo por amargo.
Desejo e morte e comprar flores no mercado e um adágio em G menor.
segunda-feira, abril 9
devia ter clicado no morno. maizómenos é melhor que menos.
tenho o coração saído da máquina e o pior é que me parece que ainda tem uma nódoa e secar corações em Abril-águas-mil não tem jeito nenhum.
domingo, abril 8
Mica feldspato e quartzo
Quando eu era pequena andava muito com o meu avô. Todos os dias desciamos a rua ou subiamos a rua e num dia dia virávamos à esquerda no Marquês e íamos até ao ACP e noutros dias virávamos à direita e corriamos Costa Cabral.
Mica feldesfato e quartzo.
Quando descíamos a rua, íamos tomar café à Praça Velasquez, que na verdade se chama Jardim Dr. Francisco Sá Carneiro (às tantas já na altura se chamava), a um café que tinha dentro um pequeno quiosque e onde, quando o meu avô pedia um café ao empregado de mesa, ele gritava bem alto para o balcão 'SAI UM SIMBALINO!' com voz de cantor. Descíamos a rua e ele perguntava-me 'Lena, de que é feito o granito?' e eu respondia 'mica, feldspato e quartzo'. Esse era o passeio curto. Ainda assim era longo. 800m para quem tem 5 anos é uma longa distância.
Quando subíamos a rua era um pouco mais difícil. Em primeiro lugar, era a subir. Em segundo lugar, havia paragens obrigatórias. A primeira paragem era o Sr. Blandino, que era o mecânico do meu avô. Eu gostava muito do Sr. Blandino. Não faço a mínima ideia porquê. Agora, há distância de 33 anos, acho que gostava dele porque o nome dele era estranho e porque soava a calma. Blandino, o brando. Depois atravessávamos a rua e metiamos a cabeça dentro do Satélite e os empregados gritavam os bons dias ou a boas tarde ao meu avô.
Quando virávamos à esquerda, no Marquês, eu via a minha vida a andar para trás. A descer todos os santos ajudam, mas até Santa Catarina era só longe e o meu avô não sabia que eu só tinha 5 anos e perna curta. Ainda hoje não sei que assuntos tão frequentes tinha o meu avô com o Automóvel Clube de Portugal (desconfio que nenhum, eu era apenas pequena companheira de caminhada), mas tudo o que se desce algum dia se tem de subir e voltar a casa era um penar de soleiras de porta com o meu avô a dizer 'estamos lá quase'.
Eu gostáva era do Marquês. Era para mim jardim enorme com árvores que hoje sei que são Plátanos e onde havia sempre pombas. E eu queria correr atrás das pombas. Onde havia mais pombas, mas onde o meu avô nunca me levava, era no adro da Igreja do Marquês. Eu sabia que o meu avô não era muito ligado à igreja, por isso não insistia muito, o que eu não sabia (e sei hoje e este saber só acrescenta confusão) é que foi aí que se casou com a minha avó, o amor da sua vida, a 23 de Agosto de 1947. Esperar-se-ia que aquela casa lhe trouxesse as melhores memórias, mas não. Aí não podia eu correr atrás das pombas.
Quando virávamos à direita, e descíamos Costa Cabral, parávamos no Sr. Santos que tinha uma papelaria e era editor dos seus próprios livros de adivinhas e curiosidades. 'O saber não ocupa lugar', título de uma das suas edições mais famosas, era sempre o mote da conversa 'sabia que no Egipto antigo...' e nós diziamos 'não, não sabiamos!' E depois eu dizia ' sabia, Sr. Santos, que o granito é composto de mica fesdspato e quartzo?' e depois seguíamos para pagar as toiletes que a minha avó compráva todas as semanas na boutique.
segunda-feira, abril 2
É sempre assim. I fall in love too easily, como o Chet Baker. Ou caem eles, o que também é mau. E depois, mais cedo ou mais tarde, caímos (um ou outro) fora. É a regra do amor. Quando caímos é certo que um de nós se vai levantar em breve. Ficar não é a condição humana, é pouco natural. É a primeira coisa que penso quando um nós cai, ou quando caímos os dois ao mesmo tempo: quanto tempo vamos ficar ali quietos a saborear os dias como se eles fossem cerejas maduras? Com que lentidão se podem mastigar as cerejas gordas e doces? Quanto tempo até ser preciso ir lavar os dentes, ou os dedos manchados de vermelho?
É sempre assim. Um de nós dirá que tem frio e tem de ir buscar o casaco e nesse instante já se distraiu, já reparou que lhe doem as costas e que devia ir ao ginásio ou que o quadro da entrada está desalinhado e o cérebro desliga-se - o princípio do fim. Estar ali, por si só, já não chega. Princípio do fim.
Hoje não fui eu que parti. Chove lá fora e ninguém amarfanhou o céu. Voltei para a cama para fazer de conta que já não me doem as partidas. A dignidade que quero manter - não reclamarei, ninguém pode lutar por amor, é demasiado ridículo. Voltar para a cama para aceitar sem esbracejar, meter as pernas por baixo dos cobertores ainda quentes e deixar o peso aliviar a dor burburinha que se instala no fundo das costas - mais um a partir.
Já não juro que nunca mais irei apaixonar-me. Minto-me cada vez menos. Houve tempos em que me mentia muito, para me fazer um mimo, mentia com quantos dentes tinha na boca e mastigava as mentiras com a boca cheia, o sumo delas a escorrer pelo queixo, a saberem a mentira e eu a comê-las à mão cheia, mas agora já não faço isso. Também já não choro. Tapo-me com a manta a inspeccionar a parede como se a parede branca pudesse aliviar-me a alma. Procuro uma mancha, uma racha, um pequeno defeito para me desculpar - não sou só eu: a parede também está magoada, as flores já estão meio murchas, o vidro da sala está sujo, não estou sozinha na decadência. Em dias mais tristes, pego no pano e vou consertando o mundo, arrumo as gavetas, faço um bolo, pinto das unhas, vou à florista estourar mais 3€ em frésias importadas para a mesa da sala. Como se limpar o pó do aparador e arrancar as daninhas da varanda pudessem salvar-me a mim. Minuciosamente. Gastar o teu tempo noutras coisas inúteis que ainda não me rejeitaram mas que começam a rejeitar mal eu lhes viro as costas - o primeiro grão de pó pousa no móvel no segundo exacto depois do pano, que traição!
Também já não me zango. A culpa não é tua e também não é minha. Nunca foi nada do que eu disse, até porque nunca poderia ter dito outra coisa senão o que me saiu naquele instante. A única coisa de que me poderia culpar era de não ser outra pessoa, de não ser mais parecida com a fantasia que criaste para mim. Ou por não morar mais perto. Circunstâncias que realmente não são culpa minha. Nem tua. A culpa de fantasiar eu também os outros de forma tão impossível, aqueles que deixo eu pendurada, tão cheios de vontade que eu lhes responda, tão chatos e insistentes, tão cheios de amor para me entregar e eu sem paciência sequer de lhes dizer que o thrill is gone. Essa culpa sim, minha. E a culpa de ter de me convencer a não te perguntar se o thrill is gone, de fazer conta que preciso que me expliques coisas que eu sei que não preciso que me expliquem porque as conheço tão bem.
I fall in love too easily e o thrill is gone. A ironia da volatilidade dos amores...
O que eu ainda não sei bem é como matar as saudades. Lerei mais 3 ou 10 vezes as tuas mensagens até aprender a não gostar delas.
domingo, abril 1
Acho que estou tão cansada como tu, que até já deves estar a dormir. Tenho os pés frio e devia vestir algo mais do que este vestidinho de menina a fazer de conta que é verão. Hoje de manhã olhei para o céu e achei que estava amachucado (amachucado é uma palavra estranha quando escrita), parecia que alguém tinha atirado as mãos às núvens e feito delas uma bola como se faz com os papéis de embrulho - vincos firmes e ondas por todo o lado. Enquanto conduzia olhava para o céu e pensava que me parecia amachucado porque tinha saudades tuas, como se os meus humores e amores tivessem capacidade de alterar a natureza, a tua ausência em mim tinham amarrotado o céu. A dúvida se ainda me queres a entristecer o dia.
Tenho o corpo cansado e a alma curvada como uma velha e os pés frios apesar da lareira acesa em pleno Abril. E tu estás a dormir a 500km de distância e eu, ainda assim, queria acordar-te só para te dizer que te quero e que quase aposto que se tu me quisesses de volta, a frieza dos pés desaparecia e o céus das 22h ficaria azul liso e eu poderia também virar-me para o lado e dormir.
quarta-feira, março 21
Eu sempre quis ser um poema. Uma coisa simples em folha de papel, preto sobre branco, tinta sobre tronco de árvore morta, material mastigável, saboreável, deglutível, intragável às vezes, dar nós nas gargantas, furar úlceras no estômago. Ou borboletas. Atravessar as mucosas gastrointestinais e espalhar-me feito vírus, fazer corar a pele e levantar os pêlos, provocar contracção dos músculos pélvicos e erecção dos orgãos genitais.
(não ter corpo, nem pernas, nem mamas nem cabelos por pentear)
Depois contrair-me, agarrar-me ao nervo vago, colada ao diafragma, memória esquecida e visceral, feito sombra à espera do momento solar onde possa, sem testemunhas, encostar a ponta da faca à base do coração ou ao umbigo - os lugares onde vivem as humanas inquietações - no segundo exacto em que os pássaros cruzam os céus.
Recentemente descobri um poema chamado 'To Helena'. É do Ruy Belo e eu, afinal, sou um advérbio.
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente'
quinta-feira, março 15
Poema para a Adília
Eu às vezes falo com pessoas que não têm cara.
Ou têm cara de boneco.
Eu tenho sempre cara.
Quando falo muito tempo com pessoas que não têm cara, tenho medo que sejam muito feias.
Ontem falei muito com uma pessoa que tinha cara de janela alta.
Depois de falar muito com ele, perguntei-lhe se era muito feio.
Não era. Era muito bonito.
Tive medo.
sábado, março 10
O meu pai era lindo e eu dançava em cima dos pés dele, ambos descalços. Eu era tão pequena que ele não me pegava pela cintura e eu segurava-o pelas coxas. Dançavamos um passo para o lado e dois para o outro, devagarinho porque o equilíbrio era fraco. Ele punha o Chico a tocar e como lesmas deslizávamos pela sala. Isto acontecia quase sempre pela manhã. Ele só dançava comigo e por isso eu nunca tive ciúmes. Era só meu, aquele momento orgulhoso de complexo de Electra.
Depois, um dia, cresci e deixámos de dançar na sala e eu, pesada e adolescente, tinha pena de não ter os pés leves sobre os dele.
Um dia, arranjei outros pés (menos doces) onde dançar, e o meu pai teve ciúmes. Fugi-lhe para onde ele não me visse dançar, que o ciúme dos nossos amores é feio de se ver.
Passaram mil anos e nunca nenhuns pés foram tão fortes debaixo dos meus. E nunca mais, nenhuns pés dançaram de manhã. E agora, quando olho o meu pai, não tenho coragem de recolher o ciúme e dizer-lhe ao ouvido, no meio da valsinha, pai, ninguém dança como tu.
Hoje fui, pela primeira vez, a uma aula da dança. Fui sozinha, como ando quase sempre pelo mundo. Rodávamos parceiros com frequência e um dos rapazes, quando o professor gritava 'troca' sorria e dizia 'até já'. Ai pai, quase o convidei para dormir no meu sofá para amanhã de manhã botar Chico e lhe subir para os pés.
quinta-feira, março 8
Carta aos concidadãos no dia da mulher
Hoje queria fazer um esclarimento. O dia internacional da mulher não é o dia de S. Valentim. Também não é o dia dos irmãos ou dia da Andreia da rádio comercial. Não é dia de oferecer bombons ou jantares à luz das velas, nem de enviar flores virtuais para os murais do facebook. Não é feriado religioso com direito a copos na noite anterior para os ateus e católicos não praticantes. Garotos, descansem, nem é dia de mimar a namorada nem de pequeno-almoço na cama.
Não é sequer dia de festa, que as mulheres, em Portugal, ainda têm pouco a celebrar.
Se fossemos homens, para obter o mesmo ordenado no final do ano, poderiamos começar a trabalhar só no final da próxima semana, tal é a disparidade salarial e aí, sim celebrariamos os 79 dias do ano em que não precisavamos de trabalhar de graça. Assim como assim, usariamos com prazer essas horas vagas para apanhar as meias do chão e fazer as tarefas domésticas que ainda nos caem maioritariamente nos ombros pós-laborais. São 17 horas por semana as horas a mais em relação aos companheiros homens que as mulheres dedicam à casa. Se as tivessemos para nós e para pôr os pés no sofá e ver a bola com uma cerveja na mão, aí, talvez celebrassemos com serpentinas nas ruas. Foram 17 as mulheres que morreram o ano passado às mãos dos companheiros e 23 as que foram vítimas de tentativa de homicidio. Se elas estivessem connosco, talvez fossemos todas lanchar ao café. Se as mulheres lideres não fossem chamadas de 'mandonas' ou 'vacas insensíveis' e tivessem direito a ser chamadas com orgulho de alpha, e podessem sem insultos chegar aos cargos de chefia, à política, às empresas sem ser por quotas e aí, iríamos com cornetas fazer cortejo bonito de cabelos ao vento.
Não é o caso.
Ainda é preciso ter sorte para se ser bem mulher em Portugal. Eu admito que sou uma sortuda, mas os números que acima descrevi não me deixam celebrar o meu dia como se fosse de festa.
Caríssimos concidadãos, celebrar o dia da mulher é compreender que estes números são uma vergonha. Celebrar o dia é exigir que a igualdade seja a norma, é apoiar a luta das trabalhadoras, a segurança da vizinha a quem o marido grita, o fim do insulto fácil às mini-saias e a divisão equalitária das tarefas domésticas sem desculpas. Todos os dias do ano. Até que o 8 de Março seguinte mostre resultados.
As flores, como a Mrs Dalloway nos ensinou, compraremos nós próprias.
sexta-feira, fevereiro 23
Tenho, como quase todas as pessoas deste mundo, mesmo as que o praticam, um preconceito contra blind dates e suspeito, como quase todas as pessoas deste mundo, de sites de encontros amorosas. Apesar disso, tenho também uma Alcina Lameiras na minha cabeça que repete vezes sem fim 'não negues à partida uma ciência que desconheces'.
É verdade que estava triste e aborrecida naquele domingo chuvoso e esse é quase sempre um primeiro passo para a asneira. É verdade também - juro - que embora fosse domingo, dia de não assinar boletins de vacinas e de, como tal, não saber a data exacta, o meu coração soubesse (e eu não) que faziam exactamente 4 anos que o meu coração tinha caído ao chão.
Entrei para ver como era. E para matar o tédio virando para a esquerda ou para a direita, com regras. Os giros muito giros não. Homens sem t-shirt não. Descrições com abreviaturas ou emojis não. Homens com fotos de carros não. Homens com barbas desenhadas por barbeiros da moda não. Homens com fotos demasiado desportivas não. Homens sem foto não. Homens com fotos de paisagem não. Homens a fazer pose do tipo do Martini não. Homens a prometer o melhor sexo do mundo não. Homens a dizer que ele e a mulher estão à procura de alguém para uma menage não. Miúdos não. Homens com citações filosóficas não. Aos outros, por defeito, sim. Aos amigos (felizmente só me cruzei com um), um superlike, que se dizemos sim a alguém que não conhecemos de lado nenhum, temos de dar superlike a um amigo.
Eu gosto de jogos, mas aquele não tem piada nenhuma. É tipo spectrum. Esquerda direita esquerda esquerda esquerda esquerda e de vez em quando uma mensagem a dizer 'então a menina como está hoje?' e eu a rebolar os olhos.
É que eu nem sequer ando à procura de ninguém (digo eu para mim própria, a convencer-me que a solidão e a liberdade me servem como uma luva).
Volta e meia lá aparece um tipo mais engraçado e a conversa vai fluindo até eu me aborrecer ou ele se aborrecer.
Cansei-me do jogo em menos de 1 semana e só por educação, mandei mensagem a 2 tipos a avisar que me ía. Não eram eles, nem era eu, ou era eu e a falta de pachorra para o jogo. Um deles respondeu-me de imediato e pediu-me o whatsapp. Dei mais por instinto do que por convicção e apaguei a aplicação. 2 minutos depois mandou-me uma mensagem a dizer que podiamos falar por ali, se me apetecesse, se lhe apetecesse. Apetecia-me. Falamos. Ligou-me. Não atendi. Falamos no dia seguinte e ligou-me. Não atendi. Falamos. Falamos. Marcou um encontro e eu disse que não gostava disso e ele disse que também não. Fui. Não acabei sem um rim. Diverti-me. Ele também, pelo que me disse quando falamos quando cheguei a casa. Ligou-me e eu não atendi. Liguei-lhe. Tinha o telefone desligado.
Ligou-me de volta e chamou-me baixinha. Acho que ele não tem jeito nenhum para isto. Ninguém chama baixinha a uma pessoa depois de um jantar. Coitado. Ninguém vai pegar nele. Vai ficar sozinho para o resto da vida. E nem merece, que é bom rapaz. E giro. Bem giro. Se calhar, só para ele não ficar muito sozinho, saio com ele outra vez. Eu que nem queria...
segunda-feira, fevereiro 19
O meu coração tem dias em que habita em buracos negros. A minha mãe furibunda-se e insiste para eu trazer essas negras paixões para a luz do sol, sentar-me na varanda com a primeira luz da manhã e estendê-las a corar na relva de Carreço, botar-lhes neoblanc que nem gentil precisa de ser, à bruta, se rasgar, rasgou - lixo com elas. Arranjam-se novas.
Eu não digo nada ou digo que vou tomar banho e isso já passa. Gostava de ter coragem de lhe perguntar se alguma vez mergulhou num buraco negro, se entende do que falo, se já viu o infinito buraco tão cheio de nada, se acha que é resistível, o mergulho? Se sabe do que o Eugénio falava quando dizia 'que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração'?
Oh mãe, não me peças paixões alvas e calmas e umbigos que não se colam às costas
Apanha-me os cacos sempre que os meus olhos castanhos se encherem de mar, ou dá-me chá de camomila quando as olheiras denunciarem insónias. Dá-me tu o amor paz, mas deixa-me beber com as duas mãos do fundo do poço.
quarta-feira, janeiro 31
Às 7.26 veio a réplica. Toda eu a tremer. As almofadas várias a mudarem de sítio. A coruja a piar novamente ao fundo. O rumor da água que atravessa o jardim a fazer espuma. O farol que normalmente alumia Carreço de amarelo a piscar vermelho. Os cães a dormir. E eu a abençoar o terramoto que me tirou do sono para esta imagem.
Os gps e os barcos de condução automatizada, bem como a transformação da orla costeira em fábricas de multiplicar peixe para alimentar as grandes superfícies, ditarão a sua morte. O senhor militar cujo trabalho é polir o corrimão da escada em caracol que leva até à lampada que me ilumina o quarto será recolocado numa missão de paz armada num sítio qualquer.
Nem um barco cruzará as águas bravas à deriva e por isso, a rapariga de Carreço não achará o seu amor.
sábado, janeiro 6
Temeste que eu fosse âncora quando tu querias ser livre de tudo
Não reparaste que a minha força não era gravítica, não prendia o barco em nenhum cais.
Era vento, eu, que empurrava para onde virasses as velas, caso te tivesses lembrado de as içar.
Soprei e perdi o fôlego e o teu barco não passou do ondular da espuma.

