terça-feira, abril 17

Somos todos criaturas de desejo e de morte e nem dizer isto, nem estas palavras, a linguagem que nos expulsa de nós próprios, nos salva. É só isso que somos. Quero poder dizer-te isto - desejo e morte. Sacudir os dois de dentro de mim. Arrancar pelas palavras de dentro do meu peito o burburinho e ao dizer em voz alta arejar a palavra desejo e palavra morte. É Abril e hoje finalmente a chuva cedeu e houve abertas de sol. Questiono-me se tudo isto será apenas falta de vitamina D, este estar empoçada por dentro, se é culpa de ter vendido o desumidificador ao desbarato e ter consumido gulosamente a lenha do Inverno antes que fosse tempo de me estender no estendal na varanda.
Desejo e morte.
Dizer-te que infantilmente tenho 15 anos dentro do meu peito, pulsões que ainda não sei calar, que não quero terapias de afagamento hormonal, que só quero os meus dias tranquilos e que já voltei aos meus livros e ao piano clássico e ao meu silêncio costumeiro como quem tenta voltar a casa, à casa, aquele buraco quente debaixo dos cobertores onde só a gravidade do peso do edredon e do gato sobre as costas me assolam. Dizer-te que ainda não posso mas que espero para breve o desligar do telefone às 8 da noite, quando sair do trabalho nos dias de não urgência.
Desejo e morte. Alternadamente. Ou melhor, em camadas. Desejo morte desejo morte desejo morte tudo regado a chá a ferver.
A tesoura de podar será a minha arma. No domingo. No domingo cortarei tudo. Sacudirei as folhas secas da minha ausência sobre as sardinheiras para a varanda da vizinha que logo virá incomodar à porta que eu desta vez não abrirei. Podar as sardinheiras e pôr terra nova e enterrar-te no vaso do limoeiro - amargo por amargo.
Desejo e morte e comprar flores no mercado e um adágio em G menor.

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