segunda-feira, abril 2

É sempre assim. I fall in love too easily, como o Chet Baker. Ou caem eles, o que também é mau. E depois, mais cedo ou mais tarde, caímos (um ou outro) fora. É a regra do amor. Quando caímos é certo que um de nós se vai levantar em breve. Ficar não é a condição humana, é pouco natural. É a primeira coisa que penso quando um nós cai, ou quando caímos os dois ao mesmo tempo: quanto tempo vamos ficar ali quietos a saborear os dias como se eles fossem cerejas maduras? Com que lentidão se podem mastigar as cerejas gordas e doces? Quanto tempo até ser preciso ir lavar os dentes,  ou os dedos manchados de vermelho?
É sempre assim. Um de nós dirá que tem frio e tem de ir buscar o casaco e nesse instante já se distraiu, já reparou que lhe doem as costas e que devia ir ao ginásio ou que o quadro da entrada está desalinhado e o cérebro desliga-se - o princípio do fim. Estar ali, por si só, já não chega. Princípio do fim.
Hoje não fui eu que parti. Chove lá fora e ninguém amarfanhou o céu. Voltei para a cama para fazer de conta que já não me doem as partidas. A dignidade que quero manter - não reclamarei, ninguém pode lutar por amor, é demasiado ridículo. Voltar para a cama para aceitar sem esbracejar, meter as pernas por baixo dos cobertores ainda quentes e deixar o peso aliviar a dor burburinha que se instala no fundo das costas - mais um a partir.
Já não juro que nunca mais irei apaixonar-me. Minto-me cada vez menos. Houve tempos em que me mentia muito, para me fazer um mimo, mentia com quantos dentes tinha na boca e mastigava as mentiras com a boca cheia, o sumo delas a escorrer pelo queixo, a saberem a mentira e eu a comê-las à mão cheia, mas agora já não faço isso. Também já não choro. Tapo-me com a manta a inspeccionar a parede como se a parede branca pudesse aliviar-me a alma. Procuro uma mancha, uma racha, um pequeno defeito para me desculpar - não sou só eu: a parede também está magoada, as flores já estão meio murchas,  o vidro da sala está sujo, não estou sozinha na decadência. Em dias mais tristes,  pego no pano e vou consertando o mundo, arrumo as gavetas, faço um bolo, pinto das unhas,  vou à florista estourar mais 3€ em frésias importadas para a mesa da sala. Como se limpar o pó do aparador e arrancar as daninhas da varanda pudessem salvar-me a mim. Minuciosamente. Gastar o teu tempo noutras coisas inúteis que ainda não me rejeitaram mas que começam a rejeitar mal eu lhes viro as costas - o primeiro grão de pó pousa no móvel no segundo exacto depois do pano, que traição!
Também já não me zango. A culpa não é tua e também não é minha. Nunca foi nada do que eu disse, até porque nunca poderia ter dito outra coisa senão o que me saiu naquele instante. A única coisa de que me poderia culpar era de não ser outra pessoa, de não ser mais parecida com a fantasia que criaste para mim. Ou por não morar mais perto. Circunstâncias que realmente não são culpa minha. Nem tua. A culpa de fantasiar eu também os outros de forma tão impossível,  aqueles que deixo eu pendurada, tão cheios de vontade que eu lhes responda, tão chatos e insistentes, tão cheios de amor para me entregar e eu sem paciência sequer de lhes dizer que o thrill is gone. Essa culpa sim, minha. E a culpa de ter de me convencer a não te perguntar se o thrill is gone, de fazer conta que preciso que me expliques coisas que eu sei que não preciso que me expliquem porque as conheço tão bem.

I fall in love too easily e o thrill is gone. A ironia da volatilidade dos amores...

O que eu ainda não sei bem é como matar as saudades. Lerei mais 3 ou 10 vezes as tuas mensagens até aprender a não gostar delas.

Sem comentários: