O aeroporto de Marselha é um dos sítios mais feios onde estive. Parece uma central de camionagem foleira cheia de homens de metralhadora em punho. Estive lá três vezes - uma ida, outra ida e um retorno e só da primeira vez fui moderadamente feliz, mas ia ao engano, como mais tarde se provou.
Marselha também não é grande coisa, mas de Marselha não reza esta história.
O aeroporto de Marselha, que foi para mim só porto de escala, deve ter a minha cara e isso é triste. Chama-se Aeroporto Marseille-Provence, pelo que suspeito que não é pelo nome que se lembram de mim as minhas paixões quando por lá passam.
Pouco me lembro dele. Lembro-me de quão desapontada estava à vinda das férias em Malta, tanto que decidi desaproveitar as horas entre voos para voltar à cidade e me fiquei por ali a escrever uma história acerca duma senhora azul vestida de azul que se sentou junto a mim no café onde eu fazia horas para o voo de regresso a casa. (onde está essa história?, em que caderno? juro que tenho fotos discretamente tiradas a essa senhora!, onde?)
Mas desta viagem, onde dormi na cama de uma das minhas paixões, estando ele no Porto, dormida esta que foi paga com um livro enviado com amor pelo correio e pelo correio devolvido por morada incorrecta e entregue em mão vários meses depois, sem a piada de ser entregue pelo correio - há lá coisa melhor do que receber presentes não avisados pelo correio? ai senhores dos correios franceses... se soubessem quanto trabalham contra mim... -, acerca desta minha viagem triste a Malta, esta história também não fala.
Eu gosto muito de aeroportos. Já passei várias (muitíssimas, mesmo) horas em aeroportos. Também já fui desmesuradamente infeliz num aeroporto, mas era o Sá Carneiro, por isso, para me facilitar a vida e manter esta coisa das viagens, resumo a minha ansiedade ao cais de chegada do aeroporto do Porto. Do cais de embarque do aeroporto do Porto e de todos os cais de todos os aeroportos onde já estive, gosto muitíssimo. São os sítios mais feios onde se vêem os mais bonitos abraços e senhores, a minha varanda mira a central de camionagem de Braga, eu sei do que falo! No que toca a abraços de saudades, eu sou expert!
Gosto dos aeroportos por serem sítios-não-lugares. Tudo ali é impessoal. É uma questão de tempo. Quem ali pára está em trânsito, à espera. À espera do próximo voo ou à espera de alguém. Há livrarias com fracos livros de bolso e mau café a preço pornográfico. Nunca ninguém vai ao aeroporto só porque lhe apetece. Ninguém vai ao aeroporto com quem vai ao shopping, que é outro sitio altamente não-lugar, mas que as pessoas gostam de frequentar (porquê?). Os aeroportos cheiram a excitação ou a saudade. A excitação da nova aventura pelo desconhecido ou a saudade do regresso a casa. Quase todas as caras (cansadas) são felizes. Brilham todas um bocadinho. Pessoas ansiosas pelo outro lado. Com vontade.
Pior do que o aeroporto de Marselha, só o de Budapeste-Balatone, que só conheci brevemente à vinda por ter perdido o voo de ida e ter entrado na cidade de comboio (também gosto muito de estações de comboio) e que a memoria é só de nos ter deixado viajar de canivete no bolso em pleno pós-11 de Setembro.
É muito feio, o aeroporto de Marselha, mas hoje, pela segunda vez na minha vida, recebi mensagens enviadas desse aeroporto.
A primeira tem um ano. Tenho um amor platónico e difícil, que às vezes me doi, mas que o mais das vezes, me enche a alma. Somos desavindos. Daqueles que se conheceram no momento errado e que só lá para 2050 havemos de concertar. Falamos de vez em quando, para matar saudades, e para dizer que ainda sentimos. É um picar do ponto. Na maioria das vezes, naquele momento exacto antes de eu o esquecer - ele sente-o (ai os fios ligados matam-me!). Dessa vez voltava de férias com a mulher e na última paragem, enquanto esperava o avião para casa, disse-me 'tenho saudades'. Como se não houvesse pior história do que aquela em que ele aproveita o sul de França com a esposa e no retorno a casa, na última paragem, me diz tenho saudades. Tenho saudades, em francês, diz-se 'tu me manques', que mil vezes mais bonito do que dizer que tenho saudades. Tu me manques. As minhas pernas faltam-me pela tua ausência - meu dEUS, morria por um amor francês. Eu não lhe levo a mal. Sou possessiva mas não sou ciumenta. A história deste meu amor, romance já de 2 anos and rolling, é assim. É meu. Casado e sem eu o querer descasado, desde que as cartas de amor continuem a chegar amiúde (e chegam!), é uma platoníce do século passado, mas eu não sei hoje, agora mesmo, em que ano estamos, por isso não me importo. Mas tocou-me que ele de se lembrasse de mim, naquelas horas cheias de abraços e tédio, num dos aeroportos mais feios do mundo, a voltar de umas boas férias com a mulher.
Hoje outra mensagem - o da cama onde dormi com ele longe. Ele há gente que sabe desaparecer durante 5 meses e voltar como quem está em casa. 'Não li o livro... mas tenho dormido melhor'. Quem é que chega em Abril e continua uma conversa de Novembro? Que coragem? Que lata! (Mas eu gosto dos meis amores assim, descaradamente honestos. Vêm quando quiserem ver. Quanto a ficar, a decisão é minha). De regresso a casa, para saber como vai a vida. É tão simples o amor quando não se cobra nada... nem as partidas nem as chegadas... que temos de nos encontrar. E eu que já nem o contava quando contava o meu coração partido, já quase esquecido, lembrado apenas nas histórias contra os senhores que nunca me entregam cartas de amor.
(Nos dias que correm, o meu ódio vai para os senhores dos correios moçambicanos que me perderam o postal que seria a desculpa perfeita para reatar um outro amor pequenino).
Do aeroporto de Marselha os meus amores lembram-se de mim, e é triste porque aquele sítio é só feio. Por outro lado, os aeroporto são o não-lugar onde vivem as saudades mais bonitas que eu já vi, por isso é muito bom que eles se lembrem de mim, antes de entregar o passaporte na porte de embarque. Mesmo que seja no aeroporto de Marselha.
quinta-feira, abril 19
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