segunda-feira, setembro 22

usa as palavras todas quando falares comigo. esquece essa coisa das meias palavras. as palavras não estão gastas e quando estiverem também nem vale a pena dizê-las, farrapos são para o lixo. diz as palavras todas, usa até palavras em Inglês, I do that frequently. se souberes uma ou outra em Francês e o sotaque não te deixar ficar mal, atira-as também para o meu colo, que eu gosto. brinca com elas, faz trocadilhos mas não as poupes que não é por isso que vais rico.
quando falares comigo, manda-as cheias, redondos vocabulos, letras umas a seguir às outras, gordas. usa e abusa da pontuação, dos hifens e das figuras de estilo. e se tiveres fome, pede-me um pão, não comas as palavras - eu já comi muitas palavras e com isso só consegui perder peso.
eu adoro os parabéns atrasados. um dois três dias depois, um mês depois. queria que daqui a três meses alguém me encontrasse na rua e me abraçasse e dissesse parabéns querida, muitos anos de vida, ouvi dizer que fizeste anos algures este ano, felicidades. 
o corpo é uma coisa, a pessoa é outra. são vontades de ser diferentes. às vezes quase opostas. o meu corpo quer muitas coisas que eu não quero, mas às vezes é preciso fazer-lhe a vontade. o meu corpo quer cigarros na varanda à noite, mesmo que chova e eu não quero porque faz mal e porque está a chover e o meu corpo não quer saber se está a chover porque quer e é como uma criança, o meu corpo. quando quer quase faz birra. o meu corpo quer mãos em cima dele, nas suas pernas, beijos nas costas, sexo puro e duro, cama desarrumada, roupa a voar, é o que ele quer. eu queria outras coisas, queria um amor fofinho, alguém com quem ver filmes em dias de chuva, alguém cujo ombro tenha o relevo exacto das minhas orelhas e o meu corpo não quer saber de nada disso. já mo disse. quero carne! e eu que quero ser vegetariana e ele a gritar por carne - dá-me carne Helena! um pedaço de carne para morder e abraçar e puxar cabelos, carne que se esquece entre as refeições, tenho fome Helena!
é uma bestazinha, o meu corpo. quem olha não adivinha. pequeno, sempre moderadamente escondido atrás da minha pessoa, discreto dentro de umas jeans e uma t-shirt, raramente se exubera com baton vermelho. arzinho de quem anda sempre distraído e de quem não se importa de passar fome. mas isso é por fora. entre mim e o meu corpo há lingerie preta com rendas, lá lhe faço a vontade. e quando estamos sozinhos em casa, lá o deixo passear-se com ar esfomeado, cabelo solto, pernas nuas estendidas no sofá, unhas dos pés vermelhas à mostra. e se é dia descanso lá o deixo andar de cuecas pela casa, ponho-lhe um vinil a tocar e deixo-o dançar descalço na sala - solta-te para aí. se é dia de descanço lá o deixo trazer um rapaz para casa - eu que estou farta de rapazes, dEUS nosso senhor, dá-me um homenzinho! - deixo a bestazinha à solta, deixo-o não dormir e desfazer a cama toda, diverte-te corpo tonto, vem-te seis vezes seguidas, não há de ser nada. amanhã terei tempo para arrumar tudo, apanhar os pedaços, lavar a roupa, pôr uma música menos eléctrica, tomar um banho bom, limpar-te e rir-me de ti e das tuas loucuras, mandar uma mensagem a dizer no worries, no hurry, chicken curry! amigos como antes. afogar o quero mais, quero mais, dá-me mais em chá de Lúcia-Lima, faço uma chaleira das grandes e comer fruta e cereais até o corpo se ver o estômago cheio e se acalmar um bocadinho, se calar um pouco, e me deixar ler um livro ao som de música clássica, sentada direitinha no sofá, o meu corpo que não gosta de ler, que queria ouvir o Artic Monkeys e rebolar no chão quieto, fica, menos, já brincaste ontem, dorme um bocadinho agora enquanto eu me sento aqui a ser pessoa, se faz favor.

sábado, setembro 20

Happy hippie birthday to me

Nunca os anos me pesaram nos ombros e se fizermos bem as contas, só ganhei um dia desde ontem - não havia motivo para tanto alvoroço.
A todos os que ontem celebraram comigo o fim do Verão que não houve (eu própria considerei não adicionar este ano ao meu calendário pessoal mas como houve Inverno, lá aceitei) com abraços e beijos e brindes e telefonemas e mensagens de todos os cantos deste nosso globozinho, mas acima de tudo com muita amizade e amor - um grande OBRIGADA! (vénia com mãos à Amália)
Que o Outono seja soalheiro e que haja outros dias (com ou sem motivos de maior) para celebrarmos o facto de ainda por cá andarmos.

Está tudo nos detalhes. É o que fica, no final - os detalhes. Os momentos que mais ninguém vê, o pássaro que naquele dia cantou 3 segundos depois do despertador se calar, a flor de sardinheira que caiu na relva no dia de vendaval, a estranha sequência de fotografias que fazem um arco-íris no feed do tumblr, coisas que acidentalmente acontecem no momento certo, ou que acontecem no momento exacto em que estamos a olhar para elas.
São só os detalhes que ficam.
Tudo o resto acontece a toda a gente de forma igual. Toda a gente se apaixona, todos os corações se partem, todos têm sucessos e insucessos e dores de costas e amigos e traições. Tudo isso são histórias banais.
Só os detalhes contam como história individual e irrepetível.
Reza a minha história que hoje, faziam 5 minutos do dia em que faço trinta e meio anos, a Sara Tavares entrou na sala e pôs a tocar o Chet Baker.

segunda-feira, setembro 15

Eu já fui feliz!, sabem?
É como a coisa de ser rica. Também já fui rica. Fui rica durante muitos anos. Na verdade nunca fui rica, mas sou nascida e crescida em classe média-alta (dizem os meus pais, que eu sempre me senti rica). Mesmo sendo de classe média-alta (ou o que quer que eles digam) não como peixe congelado. É mesmo assim e não me venham com coisas, peixe congelado não vale de nada e país à beira mal plantado, 943km de costa e apenas 260km na horizontal (no mapa espalmado em cima da mesa) não justificam que alguém tenha de comer  tal coisa!
Mas dizia eu (primeira frase) eu já fui feliz. Era no tempo dos aquários,  é verdade, era no tempo em que os olhos dele eram peixes verdes. Era no tempo em que eu era inocente.  Mas era feliz. Era no tempo em que eu, feminista desde o umbigo, corria à hora de almoço do trabalho de pequena (e nem média) empresária para uma casa onde vigorava a ressaca para fazer uma omelete de rúcula e convidar um sonâmbulo para a mesa. 
Dizem os amigos, que só nos viam nas mesas de copos das quais eu tinha de fugir cedo para poder ser gente grande, e não uma ressaca só, no dia seguinte (há gente que gosta de viver todos os dias, mesmo que canse), que estou melhor assim, com tempo para ginásio e longos cabelos loiros. Dizem que perdi as rugas de quem tem de ser preocupar por dois. Mas eu era feliz, mesmo que agora nem perceba bem porquê, mas era.
Já não sinto falta nenhuma desses dias mas ainda não sou feliz como era. Falta-me a inocência das mãos dadas e tenho saudades de chegar a casa e ter um jantar na mesa. Acima de tudo, ainda preciso de encontrar novos planos, deixar os outros. Custa um bocadinho esta coisa dos planos falhados, os filhos que a esta hora já teriam o quarto pintado, mas é só isso. Dizem os amigos, às vezes até os improváveis, que estou melhor assim, que sou mulher e que mulheres precisam de homens (ou de mulheres, conforme o gosto) e ele é um miúdo, bom para beber uns copos e pouco mais porque nunca se sabe a que horas se vai pôr a pé e eu explico - não é ele que me dói, meus queridos, ele já não me dói porque já morreu e mesmo que ande para aí com arzinho feliz e copo na mão, já não é quem foi, o que me dói, meus queridos amigos, é a minha vidinha, que não foi assim que a desenhei, e se sim, tenho tempo para o ginásio e posso comer massa e legumes quantos dias seguidos me apetecer, também tenho dias em que chego a casa e estou cansada e tenho o mundo todo nos ombros e o gato não pára de miar e só queria uma mão nas minhas pernas e ombro onde pousar a cabeça enquanto adormeço no sofá.

Domingos longos

Trabalhar 13 horas seguidas custa.
Trabalhar 13 horas seguidas num domingo custa muito.
Trabalhar 13 horas seguidas num domingo depois de dormir 4 horas custa horrores.
O gato, que não gosta nada de ficar em casa sozinho, até gosta destes dias porque sabe que o jantar vai ser cereais com iogurte e que o copo vai sobrar para ele.

domingo, setembro 14

Ele diz que eu sou fofinha. Eu odeio. Ele que é um rock & roller, skinny jeans e t-shirt rota. Ele que acerta sem pestanejar debaixo dos óculos nas minhas ilustrações favoritas - "são as fofinhas". E eu reclamo.  Não sou fofinha coisa nenhuma, nunca fui. Maria-rapaz, mau feito, mania de sabe-tudo (as rugas-vincos entre as sobrancelhas são testemunha), incansável, mulher de armas, isso sim, agora fofinha... nunca vesti cor-de-rosa, nunca tive sapatos de verniz nem laços nos cabelos. De fofinha tenho as tatuagens com flores no ombro (poderão, nos dias que correm, pessoas com tatuagens ser fofinhas?) que servem apenas para me lembrar que apesar de tudo, APESAR DE TUDO (ai que este tudo continua a crescer, todos os dias, todos os meses, todo o 2014) ainda há coisas bonitas no mundo - lembra-te Helena, das flores, das árvores, dos pássaros, dos poemas do Eugénio de Andrade, lembra-te Helena do cão e dos teus sobrinhos, do abraço do gato quando chegas a casa. Eu que trago sempre o corpo pisado, nódoas negras por toda a parte (até por dentro), que tropeço até nos meus próprios dedos dos pés, incapaz de usar um tacão, nem cunha (de qualquer tipo), que me escondo atrás dos óculos ou de uma discussão política para fugir aos olhares ou aos elogios. Fofinha... e ele que tem uma paixoneta por mim que eu finjo não ver ri-se e diz fofinha sim, com um mundo só meu, cheio de fadas e flores pequeninas e sombras dançantes e músicas com sininhos.

E ele que diz que quando pensa em mim pensa nas músicas fofinhas que já escreveu e eu torço o nariz.

Depois ponho uma das fofinhas dele a tocar e penso que não é assim tão mau.

quarta-feira, setembro 10

aquele sítio onde ser apenas uma vigésima parte do todo é a melhor coisa do mundo (o cão, apesar de ser mais um Gomes, não conta)

terça-feira, setembro 2

há dias em que uma pessoa acorda e a única coisa que pode realmente desejar é que ele acabe sem partir um joelho ou sem que caia um avião à nossa porta. é deixar as horas correr, andar de pantufas com sola antiderrapante, comer apenas só comida acabada de fazer, não pensar sequer em tocar em maionese que está calor, não tentar abrir uma garrafa de vinho que o saca-rolhas não é instrumento de confiança. É trabalhar com afinco, cautelosamente, sorriso educado nos lábios, cordialidade forçada. Não tentar pôr um prego na parede ou trocar qualquer lâmpada.

depois há anos assim.

de 2014 só espero que acabe. não calçarei tacões, não arriscarei qualquer mergulho, não mudarei de shampoo ou de detergente da roupa. deixar passar todas as horas. todas as 2869 horas que faltam para o final do ano. usar creme anti-rugas que a espera às vezes deixa marcas profundas. pôr um alarme para regar as plantas, arrancar as ervas daninhas, dar de comer ao gato comida de lata uma vez por semana, pagar as contas no momento em que elas chegam. fazer uma manta de uma só cor, de um só ponto, infinita, ponto de tricot seguido de ponto de tricot. uma mortalha enorme, que me dê pelo menos 3 voltas completas se por acaso calhar de morrer.

segunda-feira, setembro 1

Pequena Elegia de Setembro



Reza a história que era má. Uma beata de primeira com uma depressão crónica com agudizações frequentes de bater portas e chorar copiosamente. Reza a história que trazia sempre pouca doçura nas palavras e nos gestos e que por ela a minha mãe nunca tinha feito mais do que a quarta classe, mas estes rumores não posso realmente confirmar porque não foi esta a avó Arminda que conheci. Da sua maldade só me lembro que fazia esperas às toupeiras de sachola na mão e que matava as lesmas com sal.
Beata sim. Passavamos todos os anos umas semanas de verão com ela na aldeia (ou na Póvoa das barracas às riscas) e lembro-me bem das idas à missa (as únicas missas que frequentei na vida, à excepção de um ou dois casamentos e alguns funerais), lembro-me de quanto a entristecia que não soubessemos rezar e de como nos punha nas mãos a Cruzada para leitura de férias. É a única pessoa que eu conheço que garantidamente foi para o céu. Não sendo rica (e sendo até bastante sumítica), comprou o seu lugar. Comprou missas funebres em vida com medo que a família de ateus que deixou não lhe fizesse a vontade. Foi à missa todos os dias da sua vida até se mudar para casa dos meus pais, as pernas já não aguentavam tanto sobe e desce de escadas, a vida sozinha numa aldeia perdida no meio do Minho, a vontade de continuar a jardinar e a subir escadas toscas para apanhar limões e a doença a começar a dar os seus sinais. Aí passou a ir à missa aos Domingos. A minha mãe acordava-a "Mãezinha, vamos à missa", deixava-a à porta da igreja e ia buscá-la uma hora depois. Um dia, depois da missa, não apareceu. A minha mãe deve ter-se atrasado 5 minutos e ela lá achou que era melhor aproveitar então foi a duas missas seguidas. Um dia "Mãezinha, vamos à missa" e ela " Já não é preciso. O senhor padre disse que já não era preciso. Que já vou para o céu." E nunca mais foi à missa. Nem nunca mais a vi com o terço nas mãos em ladainha continua como nas viagens para o Alentejo, nunca mais a vi a chorar a nossa não crença, nunca mais a ouvi dizer "Graças a Deus, muitas, graças com Deus, poucas". A garantia do céu relaxou-lhe a alma, passou a sorrir mais, a trazer a doçura de quem já não tem medo de coisa nenhuma. Ninguém sabe se o padre se fartou dela ou se lhe foi por amor que lhe prometeu o lugar.
A casa da avó Arminda ainda tem um cheiro só dela. Cheira a limonada com limões acabados de apanhar do limoeiro ao lado das escadas e água gelada da mina. Cheira a salpicão do Bengança e nossas senhoras que medem a humidade. Cheira a pó e a portas fechadas, arcas e uvas americanas. Cheira a sol a entrar por cortinas de poliéster brancas para divisões sempre às escuras. Ainda lá vou de tempos a tempos, roubar bocadinhos de memórias, o aparador, o rádio do avô, uma ou outra camisa, as taças esbotenadas da marmelada para plantar cactos. Da última vez que lá tive, encontrei-lhe a perúca. Era igual ao cabelo dela, preto, curto, muito arranjado, de quando eu era pequena. Deve tê-la comprado quando foi operada à cabeça para retirar o quisto. Quisto benigno no lobo frontal cuja cirurgia lhe roubou o olfacto (nervo olfactivo a passar mesmo ali à frente) mas que lhe deu, de acordo com o meu pai, de quem nunca amiga (ó homem tolo que roubou a minha mãe do altar e de uma santa existência abençoada pela igreja), doçura. Um ligeira lobotomia frontal que lhe controlou a depressão que os choques electricos e as medicações não conseguiram durante anos.
Faz este mês 2 anos que morreu depois de prolongado Alzheimer. Um doce Alzheimer. Sentada na sala a olhar para o infinito e a empregada perguntava "Quem é dona Arminda?" e ela hesitava "É a Ana?" e nem olhava para mim, só olhava para a Fernanda, com voz de menina a responder à pergunta da professora. "É a Leninha!, dona Arminda" e ela sorria. "Porque foste viver para tão longe, Leninha?", eu que vivo a 60km, "É em Braga, não é? Porque foste viver para tão longe Leninha? Estás bonita, estás gorda!" e dava-me uma palmada no rabo e sorria, orgulhosa das minhas carnes que ter carnes é não passar fome. E voltava ao seu silêncio, ou à leitura de qualquer coisa, ou a olhar as rosas. Depois a doença foi-se aprofundando, e a Fernanda perguntava "Quem é Dona Arminda?" e os olhos pequeninos olhavam para mim e olhavam para ela e eram só dúvida. Eu de mão dada com ela "É a Leninha avó, estás boa?" e os olhos continuavam a olhar com dúvida mas a mão apertava um bocadinho a minha e a dúvida era o Alzheimer e a mão era a minha avó.
Morreu no dia 15 de Setembro de 2012. Num lar. Aguentou anos a fio de doença, sondas nasais, colo, fraldas, beijos na testa, os mimos dos bisnetos. Desistiu no dia seguinte a ir para o lar. Eram só 2 ou 3 dias, avó, era só enquanto a minha mãe estava internada, mas ela não ouviu. Pensou que era a sério. Faltou-lhe a mão que conhecia, faltou-lhe a voz à qual já não respondia há anos, que provavelmente nem entendia há anos, faltou-lhe o beijo na testa e partiu. Na verdade, aguentou-se muito mais do que alguma vez seria de esperar. Sentada ou deitada, a olhar pela janela, a olhar as rosas dos grandes e calmos dias de Setembro.
Mas deixa-te estar assim, ó cheia de doçura. Agora e para sempre serás este poema.

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste, 

mas deve haver um caminho 

para regressar da morte. 

Estás sentada no jardim, 

as mãos no regaço cheias de doçura, 

os olhos pousados nas últimas rosas 

dos grandes e calmos dias de setembro. 



Que música escutas tão atentamente 

que não dás por mim? 

Que bosque, ou rio, ou mar? 

Ou é dentro de ti 

que tudo canta ainda? 



Queria falar contigo, 

dizer-te apenas que estou aqui, 

mas tenho medo, 

medo que toda a música cesse 

e tu não possas mais olhar as rosas. 

Medo de quebrar o fio 

com que teces os dias sem memória. 



Com que palavras 

ou beijos ou lágrimas 

se acordam os mortos sem os ferir, 

sem os trazer a esta espuma negra 

onde corpos e corpos se repetem, 

parcimoniosamente, no meio de sombras? 



Deixa-te estar assim, 

ó cheia de doçura, 

sentada, olhando as rosas, 

e tão alheia 
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade