Há uns anos valentes, numa outra vida, quando eu era estalajadeira de sucesso (modesto), tive como hóspede um chileno chamado Antonio. Foi em Novembro de 2014 e estava frio e chovia e o Antonio era um daqueles viajantes de vida às costas. Era o único hóspede que tinha por esses dias. O POP não era bem um hostel, para dizer a verdade, era uma casa partilhada. Quem entrava fazia daquilo a sua casa, pés em cima de mesa, conversas de todos os tamanhos e feitios, partilhas de segredos e todas as coisas que só se pode fazer quando estamos livres das amarras do dia-a-dia. O António, o chileno, tinha cerca de 40 anos e estava em viagem sem bilhete volta - talvez quando o dinheiro poupado em trabalho de colarinho e gravata acabasse, talvez quando lhe desse saudade mortal de um prato da avó, talvez aí voltasse. Um dia. Até lá, há sempre trabalhos à distância e sazonais e quem é tem alma de viajeiro nunca se encontrará perdido. Assim Antonio chegou a Braga e até mim. Chovia e fazia frio e ele tinha estudado a lição
- Quero ir comer Papas à Sarrabulho, Helena!, onde vou?
- Antonio! hoje é sábado! em Braga é ao domingo que se come Papas! Amanhã digo-te.
A regra da casa era que, só havendo um hóspede (ou pouco mais), e sendo ele simpático, íamos beber um copo. O trabalho da manhã seguinte seria pouco, logo dava para deslizes. Assim foi com o António - sábado pela noite dentro pelo Subura com os meus amigos que também já morriam pelas noites com os estrangeiros.
No final da manhã de ressaca (pequeno-almoço dispensado no final da noite, para meu descanso), vem o António à recepção e diz
- Onde são as Papas?
Expliquei o melhor que pude e depois acrescentei
- António, posso acompanhar-te? Já não como Papas há anos!
E assim fomos os dois, e foi aí que ele contou a história.
Estava a caminho da Eslováquia - uma história louca, contou-me. 3 anos antes tinha conhecido uma Eslovaca de mochila às costas pelo Chile. Tinham-se apaixonado mas depois de algumas semanas de viagens e amor, havia o mar inteiro entre eles e embora nunca tivessem deixado de se falar, a coisa fica difícil com a distância. O Antonio seguiu a sua vida chilena e a Katarina a sua por Bratislava. Mas o amor tem destas coisas e a rapariga não lhe saía da cabeça, pelo que largou tudo - emprego, família, o piso em Santiago - pôs a mochila às costa e comprou bilhete de ida.
- Voy a ver Katarina en Bratislava. Sea lo que sea. Tengo de ir.
Não se fez anunciar.
, As Papas estavam óptimas, um abraço pôs a mochila às costas e seguiu viagem.
- Boa sorte, Antonio!
Em Junho do ano seguinte lembrei-me dele. E enviei-lhe o seguinte email
Una pregunta puedo?
Ni se si te acuerdas, ó si mismo te acordando, si me das la oportunidad de lo preguntar, pero como fue con la chica de eslovenia (era de eslovenia? Checa?). En Portugal se dice que la curiosidad mató lo gato y yo, hoy, me acordei de ti y de los astros y de lo tiempo cierto para haver algunas cosas y busco respuestas. Puedo?
Helena
Não respondeu.
Até que no final de Agosto, recebi a resposta.
Disculpa la tardanza en responder, estimada Helena..
El Universo tiene sus extrañas formas de guiarte, o de llevarte por caminos de los que nunca pensaste que recorrerías..
Aquel mes de Diciembre de 2014 fue bien rápido en cuanto a diferentes acontecimientos..Fui a Bratislava en busca de aquella chica que mencionas..Antes, traté de juntarme con ella en Múnich sin éxito. Llegué de sorpresa a Bratislava y me quedé por Couchsurfing en el departamento de otra chica. Y anuncié al sorpresa de mi llegada a la susodicha..
Nos juntamos para un Café, algo antes de Navidad y a pesar de una fascinante familiaridad, no hubo ninguna invitación para aquellos días en que para el solitario viajero es difícil encontrar un puerto que lo acoja.
Por lo que decidí continuar hacia el Oriente, camino a Hungría. Una vez llegué a Budapest, Katarina, me escribió contándome que no sabía porque no me lo dijo en nuestra reunión pero que estaba viviendo con alguien y que se sentía mal de no haberme invitado a pasar mas tiempo juntos...
Pensando en la Navidad, en Budapest, entré al sitio de Couchsurfing a ver si alguien proponía algún evento. Una chica, Viki, invitaba a una Navidad estilo Húngaro en su departamento. Y me anoté. Éramos en total 6 variopintos personajes..Un Inglés de alrededor de 50 años que vivía en Budapest con su hijo, una chica rusa, un Koreano, un tipo de Yemen que vivía en Italia, Viki y yo. Por lo visto algo pasó aquel día.
Me junté con Viki un par de días después a tomar un Café y se estableció un contacto...Luego de 2 a 3 semanas regresé a visitar a Viktoria y desde Febrero estamos juntos y viajando..Viki dejó su departamento, y sus trabajos por este estilo de vida errante..Por el momento..
Nos juntamos en Belgrado, estuvimos trabajando en el campo Croata por casi un mes, recorrimos el Adriático fuera de temporada..Fuimos a Hungría ambos de "viajeros" quedándonos con amigos y familiares..Un mes en Rumania en Junio..En Julio volamos a Suecia donde nos juntamos con unas amigas mías de Chile y ahora estamos cruzando en tren Polonia y te escribo de camino a Lodz.
BTW..yo también me quedé con la duda de si sigues o no en el mismo edificio..
Te agradezco mucho la experiencia vivida en Braga..Creo que no me olvidaré jamás de aquellas "Papas de Sarralbulho"..Y tampoco de tus amigos Chica y Chico y como aquel niño fue bautizado por la hermana de manera tan original..Con Viki siempre hablamos de Portugal..Tengo "muita saudade"
Un gran abrazo..
Antonio
Ontem, enquanto limpava o email (já só sobram 1626 mensagens não lidas - nem sei que mais este baú me reserva), encontrei a nossa troca de mensagens e esta história de amor do Antonio
El Universo tiene sus extrañas formas de guiarte, o de llevarte por caminos de los que nunca pensaste que recorrerías..
Não, Antonio, o universo levou-me para longe do edifício. O POP ficará sempre nas histórias.
