quinta-feira, outubro 16

Estou a apagar a minha existência pelo corte da faca. Uns suicidam-se rápido, tiro na tempora, salto de uma ponte ou frasco de comprimidos. Outros matam-se por dentro fibrosando o fígado ou os pulmões, afogando-se em óleos polinsaturados, rissóis e panados. Eu decidi que se é para morrer, cada dia que passa vou ficando mais pequena. O primeiro passo foi assumir que com facas rombas não se vai lá. Fui à lojinha das coisas bonitas para a cozinha, aquela à entrada do shopping de primeira geração onde já só se vai ao Pingo Doce que por lá resiste, e comprei 3 facas - brancas, gume afiado, para diferentes propósitos. Achei por bem não assumir ao balcão o principal motivo da compra - chamariam o apoio à vítima ou os polícias da automutilação, ou se calhar nem por isso. Agora que penso, mais valia ter pedido uma faca para me cortar devagarinho, uma faca para ir cortando, fatia a fatia - com o mundo distraído em que vivemos, o mais provável era franzirem a sobrancelha mas rapidamente agarrarem o telefone para perguntar ao fornecedor qual era a faca mais própria para o efeito - o cliente tem sempre razão e não estamos em tempos de desapontar a malta. Mas não foi assim e eu não estou aqui para mentir - foi uma faca pequena para descascar, uma para propósitos intermédios e uma grande para o melão ou, caso seja necessário, esfaquear um qualquer assassino que por acaso me apareça lá em casa.
Cada dia vou ficando mais pequena. Aos dias impares faço dieta aos pares corto uma fatias. Quando em semanas, como esta, os dias ímpares são ao mesmo tempo dias pares (ontem foi 15 e quarta) troco tudo e faço o que bem me apetece e normalmente acompanho com um copo de vinho maduro tinto, de preferência Alentejo.
Ontem fiz uma das boas - não só retirei 1cm de polegar como me roubei uma bela porção de impressão digital ao mesmo tempo. É que já me apercebi que até ser só o coraçãozinho a palpitar (o plano é e sempre foi ir aparando os pontas de mim mesma até deixar só o core) vai demorar muito tempo e aproveitei para me pôr a jeito para uma bela carreira no mundo do crime.
Caso saibam de alguém à procura de gente pequena, que caiba dentro de caixas ou passe facilmente entre barras e que tenha pouca possibilidade de deixar impressões digitais identificáveis, para um pequeno mas proveitoso crime e talvez uma ida ao tasco para celebrar com os miudos a seguir, por favor contactem-me.

domingo, outubro 12

Et voilá, o fim-de-semana está quase a acabar.
Os Linda Martini são os maiores e partem a loiça toda, o Rodrigo Amarante é, à falta de outras palavras e porque esta lhe encaixa quase na perfeição,  um fofinho (Rodrigo, querido, da próxima, se vais tocar músicas dos Little Joy, a Keep me in mind punha-me a correr para o palco e olha que acho que nos entenderiamos na perfeição).
Para memória futura ficará a informação de que há salas VIP de bares no Porto onde se ouve os Hanson e o Sting (não me perguntem o que fazia eu numa sala VIP - parece que para entrar é só encontrar a porta dos fundos e entrar à grande pela cozinha mas sinceramente, não me voltam a apanhar noutra).
Isto é o desabafo de quem nunca tem fins-de semana, para quem ter 20h de folga, é quase como estar de férias numa praia da polinésia francesa!
tenho dito!

sexta-feira, outubro 10

Entre a minha solidão e a tua há a distância dos telefones calados, o barulho dos autocarros que partem mais do que chegam, uma sinfonia de bolso a tocar na aparelhagem, um copo de vinho e outro vazio que insisto em pôr junto à garrafa apesar de saber que não vens (são manias).
Entre a minha solidão e a tua estão cigarros fumados ao frio, as frequentes olhadelas à caixa de spam e a imagem de um país distante onde nenhum de nós está.
Entre a tua solidão e a minha estão os meses de Verão chuvoso e o início do Outono, está o Ozu, estão as palavras honestas que de tão honestas parecem loucas e, entretanto, o meu copo de vinho já está vazio como o teu.

segunda-feira, outubro 6

A minha casa tem dias muito pobres.
Há meio garrafa de whiskey que tenho vergonha de acabar sozinha, 4 quadrados de chocolate de culinária (a caminho de 3), 5 morangos, não há vinho (quer dizer, há uma garrafa de CARM reserva mas não a posso beber sem quem ma ofereceu), não há cerveja (até há mas é uma Leffe de litro oferecida com amor por uns hóspedes e gostava de a partilhar).
Não há gelado, nem bolachas de manteiga, nem brownies do pingo doce.
Há rum, vodka, gin (é do barato), um licor polaco marado, licor de noz e vinho do Porto... mas seriously... quem bebe sozinha estas coisas num domingo à noite?
Há um cigarro. Há uma erva holandesa que cheira que é uma delícia mas não há mortalhas nem paciência para fazer uma paciência.
Não há pão mas há queijo. E há bolachas maria meladas.
E há café. Muito. Infelizmente acho que são horas de ir dormir.

domingo, outubro 5

Já podia ir para casa. Ainda não é sequer meia-noite e podia ir dormir na minha cama. Mas olha,  hoje trouxe-te até aqui e foi aqui que passei o dia contigo e agora não me apetece ter de lavar a loiça de há 3 dias e aperceber-me que só há pratos e copos e chávenas de café impares da solidão das horas das refeições e aqui nunca estou sozinha.
Se possibilidade houvesse de que estivesses sentado na soleira da minha porta, não tinha hesitado um segundo. Na sua ausência, agora que já aprendi a aceitar que a vida nem sempre nos corre como gostaríamos,  opto por este quarto mais pequeno, quase austero - uma cama com colchão ortopédico duro quase demais para a princesa da ervilha (moi même), com roupa espalhada pelo chão e a máquina de limpeza a vapor a um canto.
Fico bem porque hoje te trouxe até mim e lá fomos felizes nesta minha maneira de nos inventar na minha cabeça. Vou abrir o livro e vou ler-te um ou dois parágrafos num esforço extra para não fazer o Gonçalo M. Tavares corar de lost in translation. Escolherei as mais finas palavras da tua língua para seguir os passos do senhor Valéry como se em Stratford-upon-Avon ele morasse. Depois,  espero que aproveites a calada da noite para te ires embora de mansinho que não me posso dar ao luxo de viver embeiçada todos os dias por alguém que não existe e amanhã é domingo no mundo e toda a gente sabe que os domingos são sempre dias difíceis para os solitários como eu.

quinta-feira, outubro 2

A carta está escrita. Poder-se-ia dizer que o mais difícil está feito. Branco sobre cartão. 3 meses a cortar as palavras até ficarem só as essenciais. Nem um ponto a mais. Sem reticências, sem parentesis, sem hifens e lembranças paralelas. Nem uma assinatura. É só um convite - would you? will you? shall we? só não resisti à referência musical. desculpa, mas o meu cérebro tem este problema. há sempre uma música que fala por mim, que me permite com 2 palavras dizer uma imensidão de sons, um poema, uma paisagem.
Já tenho o selo, o envelope. Sei onde está o marco do correio mais próximo - 5 minutos daqui, se for devagar, se parar para um cigarro. Não devia parar para um cigarro - digo a mim mesma. Nem devia sair com carteira. Devia sair daqui com a carta numa mão e as chaves de casa na outra - um único objectivo, sem distracções, sem possibilidade de esquecimentos ou adiamentos ou outras coisas que fazem com que cartas como estas acabem no fundo de uma gaveta de uma cómoda. Se é para acabar no fundo de uma gaveta, que seja na dele, que eu já tenho gavetas que chegue, na minha casa, cheias de cartas de amor, gavetas que não voltaram a ser abertas, gavetas que terão para sempre o mesmo conteúdo, clips, carregadores de telemóveis antigos, óculos de cinema 3D, recados com beijos e postais com saudades. Não preciso de mais gavetas assim.
Ainda não escrevi a morada no envelope. Está aqui à minha frente parado há cerca de uma hora. Também ainda não o fechei. Há uma ansiedade miudinha a adiar, e o facto de só sair às 6 - tens tempo, demora o tempo todo, desde que a envies hoje, tem de ser hoje, amanhã não haverá coragem maior do que hoje.
E descobri agora que os selos já não são de lamber.
 
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