Estou a apagar a minha existência pelo corte da faca. Uns suicidam-se rápido, tiro na tempora, salto de uma ponte ou frasco de comprimidos. Outros matam-se por dentro fibrosando o fígado ou os pulmões, afogando-se em óleos polinsaturados, rissóis e panados. Eu decidi que se é para morrer, cada dia que passa vou ficando mais pequena. O primeiro passo foi assumir que com facas rombas não se vai lá. Fui à lojinha das coisas bonitas para a cozinha, aquela à entrada do shopping de primeira geração onde já só se vai ao Pingo Doce que por lá resiste, e comprei 3 facas - brancas, gume afiado, para diferentes propósitos. Achei por bem não assumir ao balcão o principal motivo da compra - chamariam o apoio à vítima ou os polícias da automutilação, ou se calhar nem por isso. Agora que penso, mais valia ter pedido uma faca para me cortar devagarinho, uma faca para ir cortando, fatia a fatia - com o mundo distraído em que vivemos, o mais provável era franzirem a sobrancelha mas rapidamente agarrarem o telefone para perguntar ao fornecedor qual era a faca mais própria para o efeito - o cliente tem sempre razão e não estamos em tempos de desapontar a malta. Mas não foi assim e eu não estou aqui para mentir - foi uma faca pequena para descascar, uma para propósitos intermédios e uma grande para o melão ou, caso seja necessário, esfaquear um qualquer assassino que por acaso me apareça lá em casa.
Cada dia vou ficando mais pequena. Aos dias impares faço dieta aos pares corto uma fatias. Quando em semanas, como esta, os dias ímpares são ao mesmo tempo dias pares (ontem foi 15 e quarta) troco tudo e faço o que bem me apetece e normalmente acompanho com um copo de vinho maduro tinto, de preferência Alentejo.
Ontem fiz uma das boas - não só retirei 1cm de polegar como me roubei uma bela porção de impressão digital ao mesmo tempo. É que já me apercebi que até ser só o coraçãozinho a palpitar (o plano é e sempre foi ir aparando os pontas de mim mesma até deixar só o core) vai demorar muito tempo e aproveitei para me pôr a jeito para uma bela carreira no mundo do crime.
Caso saibam de alguém à procura de gente pequena, que caiba dentro de caixas ou passe facilmente entre barras e que tenha pouca possibilidade de deixar impressões digitais identificáveis, para um pequeno mas proveitoso crime e talvez uma ida ao tasco para celebrar com os miudos a seguir, por favor contactem-me.
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