quinta-feira, outubro 2

A carta está escrita. Poder-se-ia dizer que o mais difícil está feito. Branco sobre cartão. 3 meses a cortar as palavras até ficarem só as essenciais. Nem um ponto a mais. Sem reticências, sem parentesis, sem hifens e lembranças paralelas. Nem uma assinatura. É só um convite - would you? will you? shall we? só não resisti à referência musical. desculpa, mas o meu cérebro tem este problema. há sempre uma música que fala por mim, que me permite com 2 palavras dizer uma imensidão de sons, um poema, uma paisagem.
Já tenho o selo, o envelope. Sei onde está o marco do correio mais próximo - 5 minutos daqui, se for devagar, se parar para um cigarro. Não devia parar para um cigarro - digo a mim mesma. Nem devia sair com carteira. Devia sair daqui com a carta numa mão e as chaves de casa na outra - um único objectivo, sem distracções, sem possibilidade de esquecimentos ou adiamentos ou outras coisas que fazem com que cartas como estas acabem no fundo de uma gaveta de uma cómoda. Se é para acabar no fundo de uma gaveta, que seja na dele, que eu já tenho gavetas que chegue, na minha casa, cheias de cartas de amor, gavetas que não voltaram a ser abertas, gavetas que terão para sempre o mesmo conteúdo, clips, carregadores de telemóveis antigos, óculos de cinema 3D, recados com beijos e postais com saudades. Não preciso de mais gavetas assim.
Ainda não escrevi a morada no envelope. Está aqui à minha frente parado há cerca de uma hora. Também ainda não o fechei. Há uma ansiedade miudinha a adiar, e o facto de só sair às 6 - tens tempo, demora o tempo todo, desde que a envies hoje, tem de ser hoje, amanhã não haverá coragem maior do que hoje.
E descobri agora que os selos já não são de lamber.
 
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