terça-feira, agosto 20

Às vezes questiono-me porque escrevo. Porque me entretenho tanto a contar histórias parvas quando podia, por exemplo, dobrar finalmente a pilha de meias que se acumula por emparelhar no pequeno balde verde no banco do quarto. Às vezes, bem sei, é realmente para poder justificar a falta de tempo para as meias, mas nem sempre. É que às vezes acontecem-me dias tão insólitos que merecem uma folha de papel. Hoje, por exemplo...
Desci para o que sabia que ía ser um dia de trabalho intenso na clínica. Chego à garagem e chave nem roda dentro da fechadura e o carro lá dentro. Eu raramente deixo o carro na garagem porque ela é como o balde das meias - um amontoado de coisas às quais ainda não arranjei pachorra para me dedicar, coisas de outras vidas que ainda não é tempo de me deixarem - e também porque o carro só entra num exactíssimo angulo e não obstante eu ser uma excelente estacionadora de carros, a maior parte dos dias não tenho esse finzinho de paciência. Mas a minha rua tem acácias e as acácias têm o mau hábito de cuspir para os carros quando os seus donos vão dormir e ontem eu tinha lavado o carro que estava imundo e o meu pai disse 'oh Lena, não deixes o carro na rua, mete-o na garagem. Isso vai dar-lhe cabo da pintura' e eu que tenho um carro novo e muito bonito e que quero que a pintura continue impecável não só mas também para não ouvir do meu pai, lá meti o carro na garagem.
Taxi it is.
O dia que prometia vapor na clínica cumpriu - a quimio do Niko, o banho da fera Vasco, uma pragana no olho da Patanisca, um pólipo no ouvido do Tofu, algumas dermatites avulsas e a colheita de sangue do pequeno puma de 6,5kg que dá pelo nome de Baguera, mais a auditoria dos alemães. Sem carro e sem hora de almoço, dei um salto ao shopping para ir buscar uma salada e aproveitei para levantar uma encomenda - umas sapatilhas - que esperavam por mim na tabacaria Camões 2. Fui num pé e vim no outro, até porque mesmo não havendo greve energética o meu carro continuava dormindo descansado na garagem, garagem essa, ou a sua fechadura, que teria de passar a problema de amanhã que hoje já estava a ser curto para tudo o que havia a fazer. Lá almocei como nunca recomendo, na secretária de trabalho à frente do computador e voltei ao trabalho.  Da hora de fecho às 20 lá nos tivemos de arrastar mais 1h para fechar o dia de bichos e às 9 e pouco da noite a minha enfermeira deixou-me à porta de casa.
Fui espreitar a garagem - meto a chave, rodo a chave, rodo a maçaneta, levanto a porta e tudo no sítio. Tudo funciona, o carro está a dormir, nenhuma resistência ou vestígios da absoluta nega das 9.40 da manhã. Estranho.
Subo e abro o saco das sapatilhas e tudo correcto - tamanho, cor (podem gabar-mas, são mesmo giras), modelo, o que por si só é estranho já que a maioria das encomendas online chegam-me 4 números acima e modelo diferente. Espreito o saco e para além da factura, está lá dentro uma pequena lata de Heineken sem álcool e uma amostra de perfume. Sim, uma lata de cerveja e uma amostra de perfume. Claro que não minto, quem é que iria inventar uma coisa destas?
Decido arriscar um pouco mais - deixa ver o que o dia ainda reserva que ainda são só 10 da noite e fui levar o lixo. Passei na caixa de correio et voilá - um livro da Duras.
Pelo meio, não vos contei, ainda recebi uma boa maquia de dinheiro que me era devido e recebi uma notícia familiar estupenda.
Áá
Já tomei banho e não escorreguei no chuveiro. Meti-me na cama e ainda não caiu um pedaço de estuque na testa. Penso que por hoje já está tudo - uma segunda-feira como qualquer outra...

Amanhã, gentes que planeiam jantar cá em casa, é quase garantido que vamos comer esturro.

Ah, sabem porque escrevo? Porque se não o contasse, ninguém ia acreditar.