terça-feira, fevereiro 17

Os dias em que dás coisas ao mundo.  Os dias em que mundo te dá coisas de volta em número exponencial ao que já deste. A carta na caixa do correio que não é mais uma conta ou a notificação para a reunião do condomínio.  A encomenda que chega na rede expressos com a pressa de quem não quer esperar nem mais um dia. O livro, o quadro para a parede, o postal, a manta, o poema, o amor embrulhado em papel celofane, tudo em potência 10 do que fizeste. A vergonha de dar coisas tão pequenas, os abraços, uma lâmpada,  uma conversa sobre um copo de vinho, um jantar, às vezes quase nem um sorriso.  As coisas que sei que não mereço - o Natal já passou, e eu já não tenho 10 anos. Conseguisse eu dizer o quão grandes são para mim algumas pessoas, gigantes! A certeza de que não mereço nem a infima parte do que me dão e ainda assim sentir que tudo o que me dão lhes sai só do umbigo.
Primeiramente
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca — e sempre a tua boca — comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.
Eugénio de Andrade

O Eugénio de Andrade foi o meu primeiro amor, o meu grande primeiro amor de poesia e muitas vezes acordei sem o contorno do teu rosto na minha almofada, muito antes de alguma vez ter partilhado almofada, muito antes dos rostos terem caras e os nomes terem nomes, muito antes de alguma vez ter desfolhado qualquer boca para além dos beijos roubados atrás da escola. Muito antes de saber o que era o amor já sabia o que era acordar sem o contorno do teu rosto na minha almofada, dor angustia ensinada via poema, olhos que sabiam que haviam de partir noutros muito antes de alguma vez terem pousado onde quer que fosse. Quão estranho é aprendermos a dor pelas letras impressas em livros fininhos, com capa branca, letras laranja e relevo de bolinhas? Saborearmos dores de gente grande, tomarmos-las nossas, deixar que nos entrem pela pele, feito tatuagem, aceitarmos aos 15 anos que os nossos olhos hão de partir, as mãos desde já tão abertas, o coração à espera do amor com a certeza que andaremos pelas ruas onde alguém não existirá. Saber estas coisas todas cedo demais.

A tristeza de saber que nunca deixarás de ser parte intrínseca de mim. que a tua ausência é parte até do meu corpo e que não te quero, mas não posso não querer-me e tu está lá. que o contorno da tua voz será sempre uma pequena parte da luz do farol de Montedor, mesmo que a queira só feixe de electrões. e que por mais bolos que faça, recusar-me-hei a guardar uma fatia de tarte para a manhã seguinte. 
as histórias que vivem dentro de mim, inventadas por mim, não as posso apagar. o retrato que não levaste posso rasgá-lo, mas e os meus dedos? aos meus olhos que já o viram, que lhes faço?
morarás sempre dentro de alguns poemas porque eu moro dentro de todos.

isto são só dores de quem tem memória de elefante e coração luso bordado a saudade. 
não tem mal nenhum. nunca ninguém morreu disto. 

domingo, fevereiro 1

Gengibre  limão  lúcia-lima
As pressianas abertas e o vento lá fora. A chuva colada no vidro.  Quem inventou a pressianas como se fosse preciso esconder o abanar das árvores ou o reflexo das luzes dos carros martelados na água?
Infelizmente, em noites de temporal o estendal fica sempre esquecido na varanda e amanhã será outra vez o dia um para as toalhas secarem.