quarta-feira, maio 25

Hoje perdi um avião. Bem sei que não é normal perder-se coisa tão grande e nem posso culpar a miopia já que na verdade eu sou é hipermetrope. A causa é mais grave. É o excesso. É o viver sempre em excesso e beber de tudo como se amanhã não existisse. Beber o vinho, sim, mas não só - beber o ar como se amanhã pudesse não haver ar e só massa rarafeita que não passa nos pulmões, beber as conversas, beber os amigos, beber os cigarros sofregamente até arderem os olhos. Tudo mais, tudo agora, tudo hoje. Às vezes (demasiadas vezes) esqueço-me de que existe um amanhã e que esse amanhã também precisa de ter gente.  Hoje perdi o avião porque ontem me esqueci do amanhã que era hoje. Sofregamente arrastei-me de despedidas que nunca o são copo atrás de copo até ser demasiado tarde para ouvir o despertador das 5 da manhã. Acordei às 7, pouco mais de 1 hora antes do voo, a 50km de distância. Ainda ponderei a loucura de me atirar ao carro e fazer a estrada a 200km/h, mas isso seria apenas perpectuar o excesso, resolver o erro morrendo na estrada para de qualquer das formas não chegar a tempo. Resolvi o problema como fazem os adultos, pagando o erro na compra do próximo voo. Custa-me este errar diário a que por absoluta falta de auto-controlo me destino. Eu sei que não é 31 de Dezembro à meia noite e não há uvas para engolir inteiras rezando para dentro, mas ainda sendo 25 de Maio, quero pedir-me essa paz. Menos,  Helena, menos! Bebe chá de menta e faz ginástica. Aprende a caminhar sem sofreguidão,  a comer e a mastigar e lavar os dentes logo de seguida, ler para aprender e não só para saber - há uma diferença grande entre um e outro. Com calma. Sem ter de me internar em retiro budista.

Hoje escrevo isto apenas para não me esquecer. E para ver se amanhã começo um caminho com mais paz.

sábado, maio 21

Haverá histórias diferentes.
Há quem ache que é estranho o sino da igreja às 10 da noite toque 3 vezes. Para mim é normal.
Infelizmente hoje, logo hoje, o céu do Alentejo está nublado e não consigo nem encontrar a ursa maior quanto mais a cassiopeia.
Haverá outras histórias e a todas as horas, quer o sino diga 3 ou 10 da noite, sejam 7.45 ou 19.23, haverá sempre um leme, mesmo que escondido, para mudar de rumo. Esta história era não acerca de ti, mas agora é.
Enquanto aguardo uma carta, envio postais ilustrados para teu deleite.
'Vem quando quiseres. Eu provavelmente não vou estar por cá' (eu, se dEUS quiser não vou estar por cá) 'De qualquer das formas, a tua mãe deve ter saudades.' Se estivesse (por cá), quase aposto que há ultima da hora não virias até à cidade. Eventualmente, casualmente, cravavas-me para ser eu (outra vez) a pegar no carro e ir até à aldeia. Quero mentir-me que te diria que não,  mas eu sou como os viciados. Só faço o que me apetece, mesmo que magoe, e mesmo que agora diga que não vou, que não tem jeito nenhum, chegada a hora, mesmo sabendo que vai doer, lá entrarei no carro com ar de quem só faz o quer, mesmo que doa, mesmo que ache que vou por opção e não por vício.

A minha solidão, antes da tua ausência, que é como quem diz, antes de te conhecer, era mais pequena. Sendo exactamente do tamanho deste apartamento, desta cidade, e não rezando os registos que qualquer um deles tenha crescido,  estando a cidade exactamente do mesmo tamanho e o apartamento inclusivamente mais pequeno, por via de ter mais uns quadros na parede e o quarto de visitas estar finalmente alugado, a solidão cresceu. Ao meu lado no sofá, por exemplo, há a tua ausência sob a forma de não abaulamento da almofada. No armário da cozinha, a tua ausência grita dos copos de vinho que limpos e virados para cima, quando tiro o meu. As cápsulas de café que saem do frasco de metal às flores em doses únicas, deixando com frequência - tanta como a contrária - as ditas em número ímpar.  Ímpar. Im-par. A negação para definir a palavra. Ser ímpar não é ser uma coisa, uma coisa única, ser ímpar é o contrário de se ser par e o braço pendurado no ar é evidente, neste caso. A tua ausência é evidente.

E se te digo hoje que te deixo em paz não é por ti, embora realmente preferisse. Deixo-te em paz para ver se me deixas em paz. Se levas a tua ausência daqui. Podia enviar-ta em envelope selado, via email, como as cartas que trocamos diariamente, mas parece-me que não cabe no anexo e eu nunca fui boa de computadores.

É que o que me incomoda, na verdade, pior do que os gritos de vidros ou dos sofás demasiado alinhados, é o tempo que esta ausência ocupa. A solidão, por si só, já vive de horas demasiado longas, mas depois é como a Coca-Cola, primeiro estranha-se depois entranha-se. A solidão passa então a ter o charme dos cigarros em contra-luz, às garrafas de vinho abandonadas na bancada da cozinha - restos à espera de ser tempero da carne que quase já não como -, passa a ser o passo de dança que se faz a altas horas ou pela manhã cedo no corredor. A solidão passa a ter a voz dos personagens dos livros onde diariamente mergulho à procura de um eu mais louco ou mais alto, ou mais gordo com gatos nos poemas da Adília, ou a velhice amputada do Virgílio Ferreira. Deixa de ser uma solidão para ser uma casa partilhada com estranhos seres que entram e saem da televisão. Há barulho - há muito barulho - dentro dessa solidão. E pouco ruído, já que somos só nós que controlamos a estática e mudamos de canal quando chegam os anúncios, a não ser que seja o da Coca-Cola Zero e do rapaz que limpa as janelas. A tua ausência, dentro da minha solidão, tem apenas a minha voz de ler poesia a ressoar na minha cabeça enquanto te escrevo cartas a explicar tudo isto - cartas estas que não envio. O tempo que roubas, com a tua ausência, aos personagens dos livros, aos actores de cinema, ao amante que já não quero mas ainda não sei como lhe explicar, às saídas noite afora, aos flirts de bares manhosos, às idas a Lisboa, às conversas das quais abdico porque ainda estou na minha cabeça a escrever-te algo que mesmo antes da primeira linha já está condenado a nunca chegar a ter letras e forma física, o tempo que dedico à tua ausência, é um insulto. Ainda mais para mim que não estou a ir para nova.

Um dia largo a voz de mel de quem leu demasiados poemas e que por isso sabe o ritmo lento dos versos e digo-te, preto no branco, que se me queres, ainda que seja apenas sob a forma de carta, tens de vir buscar-me. E se eu não sou de pedir coisa nenhuma - nunca fui - dessa vez dir-te-ei sem medo das consequências - as tuas e as minhas - que já me fartei das palavras. Há autocarros e carros e comboios e barcos e por mim até podes vir a pé, é-me igual, mas se não vens, parto o teu copo vazio que repousa junto ao meu. Ou sirvo-o a quem não tenha pernas presas e cujos braços sirvam para mais do que apoiar as mãos nas teclas de um computador. Porque se há palavras que não pode dizer (nem escrever), valerá a pena falar?


sábado, maio 7

O número pessoas que me liga a saber onde se come bem e barato é inversamente proporcional ao número de pessoas que convida para jantar fora

(como se o oposto de mil fosse zero)

quinta-feira, maio 5

Eu sei que o dia da mãe já passou, mas nesse dia eu estava muito ocupada em acordar cedo para conseguir fazer uma pannacota de ervilhas com salmão fumado e a pannacota leva tempo no frigorífico e para conseguir cumprir a tarefa tinha que acordar muito cedo estar em Viana quase antes da minha mãe acordar. E depois tinha de lhe inventar alguma coisa para o almoço que o frango de churrasco que tinhamos combinado não era digno da minha mãe. Parece parvo, mas não sei se já tentaram agradar a um super-herói. É um problema sério. Isto de sermos humanos e querermos dar algo mais do que o cliché bouquet de flores (como poderei competir com as rosas antigas que ela tem no jardim) não é fácil.
A minha mãe não gosta de cozinhar. Lá em casa, quando eramos 5 (seremos sempre 5!, venha quem vier!) os almoços de domingo eram sanduíches. Sim, enquanto em todas as casas portuguesas uma mãe estremosa passava a manhã à voltando fogão, a minha dizia com voz sólida com a mão na maçaneta da porta 'quem quer vir, quem quer ficar, quem me quer acompanhar!' e nós corriamos para o elevador porque o convite era para o café à beira mar com um livro na mão. Seriam 10 da manhã quando saíamos de casa - os 5 - e fizesse chuva fizesse sol, fosse na Picologel da Foz ou em Moledo, ficavamos por lá até o jornal dos pais acabar ou uma culpa adulta gritar - as miúdas devem ter fome. Aí arrancavamos. Passavamos na padaria e compravamos 10 pães. Quando era cedo paravamos no Manelzinho Natário e compravamos empadas de pato e iamos para casa. Almoço de domingo - uma taça com folhas de alface, outra com tomate fatiado, a meia bola de queijo limiano, ovos cozidos, maionese, mostarda, atum, sardinhas em molho picante para os arrojados, fiambre fatiado fino fino fino fino mesmo antes dele sair desfeito. Às vezes presunto. Às vezes qualquer coisa de restos dentro do turperware - um pouco de rolo de carne, as lulas grelhadas, às vezes meia costoleta de porco. Mesa farta! Nada de batatas assadas, nada de sobremesas estrondosas, nada de carne que obriga alguém à cozinha durante uma manhã inteira quando é domingo. Cada um faz a seu gosto e era uma mesa louca - chega aí o pepino,  dá-me mais uma fatia de pimento, manhê, posso beber mais um copo de sumo, é domingo?
A minha mãe não é fofinha. Nunca nos ensinou o cor de rosa e nunca achou que nascer mulher é castigo e esta coisa de não ir ver o mar no dia de folga é coisa que não faz grande sentido. A minha mãe nunca disse coitadinha nem por nenhum momento nos achou melhores do que os outros. Deu-nos outras coisas (oh tantas!) - a gana, a resistência ao cansaço, a força contra as adversidades, a paz de espírito, o sono tranquilo quando sabemos que fizemos o possível,  o amor incondicional sem paternalismos, a independência, as orelhas moucas para os discursos loucos, a voz que diz que se vais contra a maré e ainda assim sabes que está certa, continua o teu caminho.
A minha mãe é como o super-homem. Minto! A minha mãe é melhor do que o super-homem. Muito melhor.
Tentei, no dia da mãe, conquistá-la pelo estômago (costuma resultar com o comum dos mortais) - a dita pannacota, arroz de peixe, morangos com iogurte grego e doce de framboesa, bolo de iogurte e maça para o lanche... e falhei!
Não é fácil agradar ao super-homem, quanto mais à minha mãe - Amélia, dos olhos doces.
O que devia ter feito e não fiz - trazer pães frescos da padaria, cozer 3 ovos, tirar da despensa o atum em lata e ter comprado o Público à ida para casa. Ter tempo. Ler em voz alta um poema. Pedir-te um conselho sincero e um abraço para aliviar do cansaço. Raptar-te para ires ver o mar. Não deixar haver loiça para lavar. Gabar-te a cameleira do fundo do jardim - está linda, mãe. Dizer-te que quando chegar a casa vou escrever-te uma carta e que juro do fundo do coração que quando for grande quero ser como tu - Amélia dos olhos doces ainda bem que não és apenas mulher. E antes disso mandar um sms a dizer que cheguei.



(A minha mãe não tem facebook e se tivesse não faria um like nem botava um coração na caixa de mensagens - ser mãe não é ser lamechas, é ser super-herói, e a esses, para mim, a lágrima fácil não lhes fica bem)