'Vem quando quiseres. Eu provavelmente não vou estar por cá' (eu, se dEUS quiser não vou estar por cá) 'De qualquer das formas, a tua mãe deve ter saudades.' Se estivesse (por cá), quase aposto que há ultima da hora não virias até à cidade. Eventualmente, casualmente, cravavas-me para ser eu (outra vez) a pegar no carro e ir até à aldeia. Quero mentir-me que te diria que não, mas eu sou como os viciados. Só faço o que me apetece, mesmo que magoe, e mesmo que agora diga que não vou, que não tem jeito nenhum, chegada a hora, mesmo sabendo que vai doer, lá entrarei no carro com ar de quem só faz o quer, mesmo que doa, mesmo que ache que vou por opção e não por vício.
A minha solidão, antes da tua ausência, que é como quem diz, antes de te conhecer, era mais pequena. Sendo exactamente do tamanho deste apartamento, desta cidade, e não rezando os registos que qualquer um deles tenha crescido, estando a cidade exactamente do mesmo tamanho e o apartamento inclusivamente mais pequeno, por via de ter mais uns quadros na parede e o quarto de visitas estar finalmente alugado, a solidão cresceu. Ao meu lado no sofá, por exemplo, há a tua ausência sob a forma de não abaulamento da almofada. No armário da cozinha, a tua ausência grita dos copos de vinho que limpos e virados para cima, quando tiro o meu. As cápsulas de café que saem do frasco de metal às flores em doses únicas, deixando com frequência - tanta como a contrária - as ditas em número ímpar. Ímpar. Im-par. A negação para definir a palavra. Ser ímpar não é ser uma coisa, uma coisa única, ser ímpar é o contrário de se ser par e o braço pendurado no ar é evidente, neste caso. A tua ausência é evidente.
E se te digo hoje que te deixo em paz não é por ti, embora realmente preferisse. Deixo-te em paz para ver se me deixas em paz. Se levas a tua ausência daqui. Podia enviar-ta em envelope selado, via email, como as cartas que trocamos diariamente, mas parece-me que não cabe no anexo e eu nunca fui boa de computadores.
É que o que me incomoda, na verdade, pior do que os gritos de vidros ou dos sofás demasiado alinhados, é o tempo que esta ausência ocupa. A solidão, por si só, já vive de horas demasiado longas, mas depois é como a Coca-Cola, primeiro estranha-se depois entranha-se. A solidão passa então a ter o charme dos cigarros em contra-luz, às garrafas de vinho abandonadas na bancada da cozinha - restos à espera de ser tempero da carne que quase já não como -, passa a ser o passo de dança que se faz a altas horas ou pela manhã cedo no corredor. A solidão passa a ter a voz dos personagens dos livros onde diariamente mergulho à procura de um eu mais louco ou mais alto, ou mais gordo com gatos nos poemas da Adília, ou a velhice amputada do Virgílio Ferreira. Deixa de ser uma solidão para ser uma casa partilhada com estranhos seres que entram e saem da televisão. Há barulho - há muito barulho - dentro dessa solidão. E pouco ruído, já que somos só nós que controlamos a estática e mudamos de canal quando chegam os anúncios, a não ser que seja o da Coca-Cola Zero e do rapaz que limpa as janelas. A tua ausência, dentro da minha solidão, tem apenas a minha voz de ler poesia a ressoar na minha cabeça enquanto te escrevo cartas a explicar tudo isto - cartas estas que não envio. O tempo que roubas, com a tua ausência, aos personagens dos livros, aos actores de cinema, ao amante que já não quero mas ainda não sei como lhe explicar, às saídas noite afora, aos flirts de bares manhosos, às idas a Lisboa, às conversas das quais abdico porque ainda estou na minha cabeça a escrever-te algo que mesmo antes da primeira linha já está condenado a nunca chegar a ter letras e forma física, o tempo que dedico à tua ausência, é um insulto. Ainda mais para mim que não estou a ir para nova.
Um dia largo a voz de mel de quem leu demasiados poemas e que por isso sabe o ritmo lento dos versos e digo-te, preto no branco, que se me queres, ainda que seja apenas sob a forma de carta, tens de vir buscar-me. E se eu não sou de pedir coisa nenhuma - nunca fui - dessa vez dir-te-ei sem medo das consequências - as tuas e as minhas - que já me fartei das palavras. Há autocarros e carros e comboios e barcos e por mim até podes vir a pé, é-me igual, mas se não vens, parto o teu copo vazio que repousa junto ao meu. Ou sirvo-o a quem não tenha pernas presas e cujos braços sirvam para mais do que apoiar as mãos nas teclas de um computador. Porque se há palavras que não pode dizer (nem escrever), valerá a pena falar?