quinta-feira, maio 5

Eu sei que o dia da mãe já passou, mas nesse dia eu estava muito ocupada em acordar cedo para conseguir fazer uma pannacota de ervilhas com salmão fumado e a pannacota leva tempo no frigorífico e para conseguir cumprir a tarefa tinha que acordar muito cedo estar em Viana quase antes da minha mãe acordar. E depois tinha de lhe inventar alguma coisa para o almoço que o frango de churrasco que tinhamos combinado não era digno da minha mãe. Parece parvo, mas não sei se já tentaram agradar a um super-herói. É um problema sério. Isto de sermos humanos e querermos dar algo mais do que o cliché bouquet de flores (como poderei competir com as rosas antigas que ela tem no jardim) não é fácil.
A minha mãe não gosta de cozinhar. Lá em casa, quando eramos 5 (seremos sempre 5!, venha quem vier!) os almoços de domingo eram sanduíches. Sim, enquanto em todas as casas portuguesas uma mãe estremosa passava a manhã à voltando fogão, a minha dizia com voz sólida com a mão na maçaneta da porta 'quem quer vir, quem quer ficar, quem me quer acompanhar!' e nós corriamos para o elevador porque o convite era para o café à beira mar com um livro na mão. Seriam 10 da manhã quando saíamos de casa - os 5 - e fizesse chuva fizesse sol, fosse na Picologel da Foz ou em Moledo, ficavamos por lá até o jornal dos pais acabar ou uma culpa adulta gritar - as miúdas devem ter fome. Aí arrancavamos. Passavamos na padaria e compravamos 10 pães. Quando era cedo paravamos no Manelzinho Natário e compravamos empadas de pato e iamos para casa. Almoço de domingo - uma taça com folhas de alface, outra com tomate fatiado, a meia bola de queijo limiano, ovos cozidos, maionese, mostarda, atum, sardinhas em molho picante para os arrojados, fiambre fatiado fino fino fino fino mesmo antes dele sair desfeito. Às vezes presunto. Às vezes qualquer coisa de restos dentro do turperware - um pouco de rolo de carne, as lulas grelhadas, às vezes meia costoleta de porco. Mesa farta! Nada de batatas assadas, nada de sobremesas estrondosas, nada de carne que obriga alguém à cozinha durante uma manhã inteira quando é domingo. Cada um faz a seu gosto e era uma mesa louca - chega aí o pepino,  dá-me mais uma fatia de pimento, manhê, posso beber mais um copo de sumo, é domingo?
A minha mãe não é fofinha. Nunca nos ensinou o cor de rosa e nunca achou que nascer mulher é castigo e esta coisa de não ir ver o mar no dia de folga é coisa que não faz grande sentido. A minha mãe nunca disse coitadinha nem por nenhum momento nos achou melhores do que os outros. Deu-nos outras coisas (oh tantas!) - a gana, a resistência ao cansaço, a força contra as adversidades, a paz de espírito, o sono tranquilo quando sabemos que fizemos o possível,  o amor incondicional sem paternalismos, a independência, as orelhas moucas para os discursos loucos, a voz que diz que se vais contra a maré e ainda assim sabes que está certa, continua o teu caminho.
A minha mãe é como o super-homem. Minto! A minha mãe é melhor do que o super-homem. Muito melhor.
Tentei, no dia da mãe, conquistá-la pelo estômago (costuma resultar com o comum dos mortais) - a dita pannacota, arroz de peixe, morangos com iogurte grego e doce de framboesa, bolo de iogurte e maça para o lanche... e falhei!
Não é fácil agradar ao super-homem, quanto mais à minha mãe - Amélia, dos olhos doces.
O que devia ter feito e não fiz - trazer pães frescos da padaria, cozer 3 ovos, tirar da despensa o atum em lata e ter comprado o Público à ida para casa. Ter tempo. Ler em voz alta um poema. Pedir-te um conselho sincero e um abraço para aliviar do cansaço. Raptar-te para ires ver o mar. Não deixar haver loiça para lavar. Gabar-te a cameleira do fundo do jardim - está linda, mãe. Dizer-te que quando chegar a casa vou escrever-te uma carta e que juro do fundo do coração que quando for grande quero ser como tu - Amélia dos olhos doces ainda bem que não és apenas mulher. E antes disso mandar um sms a dizer que cheguei.



(A minha mãe não tem facebook e se tivesse não faria um like nem botava um coração na caixa de mensagens - ser mãe não é ser lamechas, é ser super-herói, e a esses, para mim, a lágrima fácil não lhes fica bem)


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