Hoje perdi um avião. Bem sei que não é normal perder-se coisa tão grande e nem posso culpar a miopia já que na verdade eu sou é hipermetrope. A causa é mais grave. É o excesso. É o viver sempre em excesso e beber de tudo como se amanhã não existisse. Beber o vinho, sim, mas não só - beber o ar como se amanhã pudesse não haver ar e só massa rarafeita que não passa nos pulmões, beber as conversas, beber os amigos, beber os cigarros sofregamente até arderem os olhos. Tudo mais, tudo agora, tudo hoje. Às vezes (demasiadas vezes) esqueço-me de que existe um amanhã e que esse amanhã também precisa de ter gente. Hoje perdi o avião porque ontem me esqueci do amanhã que era hoje. Sofregamente arrastei-me de despedidas que nunca o são copo atrás de copo até ser demasiado tarde para ouvir o despertador das 5 da manhã. Acordei às 7, pouco mais de 1 hora antes do voo, a 50km de distância. Ainda ponderei a loucura de me atirar ao carro e fazer a estrada a 200km/h, mas isso seria apenas perpectuar o excesso, resolver o erro morrendo na estrada para de qualquer das formas não chegar a tempo. Resolvi o problema como fazem os adultos, pagando o erro na compra do próximo voo. Custa-me este errar diário a que por absoluta falta de auto-controlo me destino. Eu sei que não é 31 de Dezembro à meia noite e não há uvas para engolir inteiras rezando para dentro, mas ainda sendo 25 de Maio, quero pedir-me essa paz. Menos, Helena, menos! Bebe chá de menta e faz ginástica. Aprende a caminhar sem sofreguidão, a comer e a mastigar e lavar os dentes logo de seguida, ler para aprender e não só para saber - há uma diferença grande entre um e outro. Com calma. Sem ter de me internar em retiro budista.
Hoje escrevo isto apenas para não me esquecer. E para ver se amanhã começo um caminho com mais paz.
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