Escuta!
Estica o ouvido esquerdo para o crepitar da lenha e o direito para o vento que arrasta as cadeiras lá fora. Pelo meio, tenta ouvir a música que toca e se olhares o gato nos olhos (e os semi-cerrares como quem diz gosto de tu) ouve-o a ronronar à distância, baixinho.
Atenta em como pinga a torneira da cozinha do vizinho de cima depois de lavarem a loiça (mira o tecto não vá teres infiltração).
Escuta o som dos autocarros a entrar e a sair da central, distingue o som exacto da sua marcha-atrás a sonar bip-bip-bip-bip.
Fecha os olhos, agora.
Ouve o aparador da sala a dilatar com o calor. Ouve a tangerina a apodrecer na fruteira da mesa da sala, lentamente. (Estica o ouvido até ouvires o bolor a crescer na pele rugosa)
Ouve o som que fazes a deglutir o gole de vinho. Escuta outra vez - outro gole, agora de olhos fechados - escuta o barulho que fazem os lábios a separarem-se, a lingua a descolar do céu da boca, o copo a colar-se aos lábios (esquece o arrastar de cadeira do vizinho de cima), a glote a abrir e a fechar.
Escuta os que fazem da tua rua rali, que hoje é sexta à noite, e tenta prever quando terão de puxar do travão de mão na rotunda.
Conta as garrafas que caem no vidrão e o estardalhaço que fazem - lembra-te sempre de levar as tuas no meio do dia, quando ninguém escuta nada.
Ouve a panela rota do carro que sobe a avenida.
Quando tiveres ouvido tudo, e enquanto os pássaros não rompem o eter com o seu canto, pelas 7h53m, abanando a manhã e a tília e o sábado, inventa escutares a conversa do vizinho da frente que deixa a porta do elevador fechar antes de tu fechares a porta de casa; inventa as conversas do que saem dos carros e entram no bar do outro lado da rua, olha para a cabeça do teu gato e ouve-o pensar, em gatez.
Escuta tudo e não faças barulho. Faz da tua presença o silêncio, anda descalço pela sala para não interromperes o mundo. Atenta nos pormenores que mais ninguém tem ouvidos para inventar. Diz paz, diz calma, diz 'eu consigo ouvir o ar a entrar-me pelo nariz', arruma a alma dentro do silêncio, não deixes nem as meias sujas dos dias desalinhar o tempo.
Escuta e não te importes em ser importante. Sê, apenas. Bebe respira ouve - ouve tudo - lê. E sente na pele o calor do casaco velho. Sente tudo. Não te importes em mostrar coisa nenhuma. Sê importante por seres tudo a tuda a hora, sem ninguém saber. Guarda tudo em segredo dentro do peito e vê-te a crescer.
sexta-feira, dezembro 15
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