domingo, junho 25

Bicho do mato

Uma montanha, ou um rio, ou um bicho qualquer do mato, é o que eu sou.
E vêm os homens e põe bandeiras e gritam é meu, arrancam pedaços, bebem da minha água, agarrando-a com as mãos em concha.
Abraçam as minhas pernas como quem abraça as árvores, com sede do cheiro a pernas ou a eucalipto. Mordem-me as costas como quem faz castelos de areia que a próxima maré tratará de limpar.
Sou o parque e sou o bicho.
Deixo-os brincar com todos os pedaços de mim, puxar-me os cabelos ou snifar-me o cheiro das costas, deixo-os até prender-me sem fazer esforço para me soltar - os homens sempre gostaram das demonstrações de força - deixo-me ficar de barriga para baixo sob o peso dos seus corpos, a respirar baixinho.
O que fizer os homens felizes - deixo-os acaríciar os meus pêlos púbicos como se de uma anémona se tratasse, deixo-os tomar-me como se toda eu fosse abandonada, à espera de dono por uso capião.
Oh, como são ingénuos, os homens, e como ainda não aprenderam que o mar não tem dono, que podem rebentar todas as ondas que ele continuará o seu ritmo, que a montanha à noite tem dentes e olhos a brilhar no escuro e que nunca ninguém apanhou o vento. Oh pobres coitados daqueles que entram em mim de espada na mão, com ar de conquistador, como se eu pudesse ter amo ou mestre. Que desilusão devo ser quando sacudo os cabelos e me levanto como se o meu corpo fosse agora árvore alta e sólida com os olhos postos no céus e pés enterrados no chão, inabalável, e desinteressada dos pequenos problemas de ego.

Amanhã é que vai ser

Acabei agora de lavar os pratos de plástico e os copos de plástico e as taças lambidas de mousse de chocolate de plástico e os talheres de plástico e subir finalmente para a minha casa. As unhas arranjadinhas ontem estão uma lástima, unhas de segurança de social, como diz uma amiga minha, quando me apanha com as unhas vermelhas esbotenadas como pratos velhos. São 10 para a meia noite. A minha mãe desistiu há meia hora - ó filha, acabamos isso amanhã, já não são horas! e eu riu-me. Já pus a música a tocar há uma hora, tenho um copo de vinho no parepeito da janela, podiam dar-me copos para lavar até não haver mais copos sujos no mundo. Amanhã, no entanto, não farei nenhum. Esse é sempre o meu lema! Amanhã não farei nenhum. Hoje  - até já estou de avental! e as unhas também já não estou nenhum primor, deixa lá, só mais 30 copos não vão fazer mossa nenhuma,  traz-me tudo que eu tenho para fazer, traz-me hoje todos os trabalhos do mundo - tudo tudo tudo! - dá-me já hoje todos os problemas que eu já arregacei as mangas e a este disco do vinicius toquinho e maria creuza é grande e se tiver de tocar 2 vezes seguidas (já tocou tantas na minha vida e sei as letras todas de cor, olha vou cantando...), traz-me hoje todos trabalhos do mundo, ainda não é amanhã, atira-me todos os afazeres e deixa-os aí no chão, não irei dormir sem os os arrumar a todos nas respectivas prateleiras. Amanha farei nenhum.
Hoje tenho sempre tempo para arrumar as coisas, sempre tive. Só amanhã é qie não. Amanhã, dEUS vos livre! Prefiro arrastar o hoje até daqui a 15 dias, fazer tudo de seguida - a camisola até já tem nódoas, já vai ter de ir para a máquina e eu própria não me meto na cama sem passar no chuveiro que só assim é que amanhã pode ser impecável, começar o dia novo - o verdadeiro novo, sem ter de olhar para ontem - está tudo arrumado, há de tudo no frigorífico, a pele estará a brilhar e o acordar será com o sol a entrar no quarto branco e com o canto dos pássaros e o rulhar das rãs no tanque, amanhã será tão perfeito. Hoje que se lixe. Desde que acordei quee apercebi que afinal hoje não era o amanhã que ontem esperava. Ontem esperava um amanhã em que acordasse com os pássaros e o sol a bater na cama e no entanto adiei o despertador cheia de sono e tive de acordar de corrida e mal usufruir do tudo que tinha no frigorífico para a correr me meter no carro que mal tinha gasolina para chegar à bomba e chegar a Carreço a más horas. Logo quando acordei me apercebi que ontem programei mal o amanhã, logo, hoje, não cometerei o mesmo erro e não irei para a cama sem deixar todos os plásticos lavados e o chão da cozinha impecável.
Amanhã será brilhante. É garantido!!! Tal é a certeza que já estou até a celebrar o dia perfeito em antecipação com um copo de vinho tinto e um cigarro na varanda antes de ir dormir. Um dia novo! Viva o amanhã!

e eis se não quando, o gato arrasta a posta da varanda e salta que lhe é a porta do mundo e sai noite fora. Adolfo!!! Oh pá! (Lá vai ele todo contente que agora é gato do campo) Adolfo! Oh pá... já me lixaste o amanhã. Arrumo a garrafa, apago e cigarro e digo 'não tem mal, amanhã, também, é domingo, e eu nunca gostei de domingos. Segunda é que vai ser!'