Uma montanha, ou um rio, ou um bicho qualquer do mato, é o que eu sou.
E vêm os homens e põe bandeiras e gritam é meu, arrancam pedaços, bebem da minha água, agarrando-a com as mãos em concha.
Abraçam as minhas pernas como quem abraça as árvores, com sede do cheiro a pernas ou a eucalipto. Mordem-me as costas como quem faz castelos de areia que a próxima maré tratará de limpar.
Sou o parque e sou o bicho.
Deixo-os brincar com todos os pedaços de mim, puxar-me os cabelos ou snifar-me o cheiro das costas, deixo-os até prender-me sem fazer esforço para me soltar - os homens sempre gostaram das demonstrações de força - deixo-me ficar de barriga para baixo sob o peso dos seus corpos, a respirar baixinho.
O que fizer os homens felizes - deixo-os acaríciar os meus pêlos púbicos como se de uma anémona se tratasse, deixo-os tomar-me como se toda eu fosse abandonada, à espera de dono por uso capião.
Oh, como são ingénuos, os homens, e como ainda não aprenderam que o mar não tem dono, que podem rebentar todas as ondas que ele continuará o seu ritmo, que a montanha à noite tem dentes e olhos a brilhar no escuro e que nunca ninguém apanhou o vento. Oh pobres coitados daqueles que entram em mim de espada na mão, com ar de conquistador, como se eu pudesse ter amo ou mestre. Que desilusão devo ser quando sacudo os cabelos e me levanto como se o meu corpo fosse agora árvore alta e sólida com os olhos postos no céus e pés enterrados no chão, inabalável, e desinteressada dos pequenos problemas de ego.
domingo, junho 25
Bicho do mato
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