Três raparigas riem no cruzamento enquanto esperam pela boleia para casa. Malas pousadas no chão. Ouço apenas os risos e frases soltas 'foi no quarto de banho misto' risos 'acho que não...' 'só tu!' Risos. Chega um homem de fato e gravata e pousa o saco de ginásio no chão junto à parede grafitada, olha para as miúdas e abre o saco. 'Acho que ele estava bêbedo...' Risos e o homem nem olha. Tira o casaco e pousa-o com o forro para fora no chão, aninha-se e tira do saco uma lata de tinta spray e começa a pintar a parede. Convém por ora dizer que não estou a inventar. Do 5○ andar ouvem-se apenas exeetos e neste momento (são 22:15),uma feijoada de frango apurava no fogão e eu tinha acabado de abrir um delicioso 'fonte da loba' reserva e estava no meu posto de vigia. Depois de me morrer a gata com um cancro do pulmão, não se fuma dentro de minha casa, com a excepção desta janela da cozinha. Tive um namorado que em dias de inverno fumava em frente do fogão, com o exaustor ligado num barulho ensurdecedor - eu cá não sei como se pode saborear um cigarro com aquele barulho, eu que mantenho o exaustor em boa forma embora prefira evitar qualquer cozinhado que precise do dito, o barulho desconcentra-me a arte de bem saborear o cozinhar. Enquanto as couves que a minha mãe cortou ontem da pequena horta que lhe entretem a reforma (as melhores couves do mundo) apuram a feijoada, só uma fervurazinha que são tão boas que até as comia cruas feita coelho, acendo o cigarro e saboreio a loba (é uma delícia - fazer lembrete que este é para repetir em nova promoção no pingo doce), vigio a central de camionagem. É um hábito que mantenho diariamente. Um dia dar-me-ão o título de faroleira da central, sendo que faroleiro, na minha terra, é sinónimo de cabaneira (custou-nos bastante descobrir o que ser cabaneira era, quando nos mudamos do Porto para Viana) ou, para falar português de Portugal inteiro, coscuvelheira, mas eu cá sou das faroleiras que só vigia para imaginar para onde vão e para o que vêem os que gostam de autocarros - eu cá sou de pessoa de comboios, estou a ver se os entendo. Isso e por ter na parte de trás de cabeça aquela música dos belle and sebastian que teima que o meu amor virá no último autocarro a sair da cidade (ainda estou para perceber qual é! É que não param de entrar e sair e infelizmente o meu apartamento não dá para a saída oficial da central - daqui só vejos os perdidos ou os que já têm quem os venha buscar). Junto à janela está o tanque de lavar roupa onde me sento todos os dias para fumar o cigarro. Por motivos práticos, não o uso para lavar roupa - ficava sempre com o rabo molhado - e na mais que prometida remodelação da minha cozinha (ai por favor, tirem-me estes frisos dos móveis e este chão preto onde dois segundos depois de se lavar se vêem as pegadas do gato!) ficará no mesmo sítio (todas as casas têm de ter um tanque de lavar a roupa, diz a minha mãe), mas terá um tampo de madeira que poderei baixar e uma almofada confortável para me sentar neste cigarro mesmo antes das couves cozerem. 'Acho que não lhe vou ligar' diz uma delas mesmo antes da boleia chegar. O homem, entretanto, afinal, só retocou as sapatilhas do desenho que já lá estava, voltou a pegar no casaco, sacudiu-o um bocadinho antes de o pôr ao ombro e seguiu avenida abaixo. As couves estão prontas. Abusei no piri-piri, mas a feijoada está uma delícia. Um dia gostei de um rapaz que não gostava de leguminosas. No dia em que mo disse percebi que a nossa relação nunca teria futuro. Às vezes ainda durmo com ele, mas tenho a noção que a não ser que os belle and sebastian tenham razão, vou acabar sozinha. E não pensem que este pensamento me entristece. Neste preciso momento o gato entra-me na cozinha e roça-se nas minhas pernas 'já te disse que nos próximos meses não te abandono? Um brinde a isso, Adolfo?'
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