sexta-feira, julho 21

Vaso ruim não quebra

"Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo só pode quebrá-los matando-os, e por isso, é claro, mata-os. O mundo quebra toda a gente; no entanto muitos ficam mais fortes no lugar da fratura. Mas àqueles que não consegue quebrar, mata-os. Mata os muito bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente. Se não sois desses, também vos há de matar, mas nesse caso não será particularmente apressado."

- Hernest Hemingway, in “Adeus às Armas”

Quebrar, quebrou-se-me uma rótula (a direita) a posar para uma fotografia. Anos antes, era ainda miúda, rachou-se-me uma falange do indicador (também direito) por baixo de uma rocha numa saída de praia de Inverno em Ofir (salvou-me da morte certa, debaixo de uma pedra gigante, um marinheiro que por ali passava e ouviu os gritos da minha mãe. O meu pai ainda hoje jura que foi ele que levantou o paredão e a minha mãe pede-me silêncio quando eu digo que ainda hoje lhe vejo os braços de Popey e a tatuagem da âncora - ele há coisas que um pai tem de eliminar da sua história para continuar a ser grande e a minha mãe, neste momentos, relembra-o sempre de que foi ele que me apanhou quando gatinhei para dentro da piscina, mesmo antes de engulir o pirolíto que, eventualmente, destruiria a minha eterna alma de peixe e, quiça, a vida).
Uma rótula e uma falange.
Fora isso, já morri muitas vezes.
Trago em mim a sorte de ter crescido bicho. [É a vantagem de ser filha do meio - nem é surpresa nem é tardia, pode andar para ali feita mogli que só lhe darão pela falta se no final do dia não se apresentar para a revisão dos dentes lavados (eu chumbava, sem grandes penalizações para além de ter de repetir a fraca performance, dia sim dia senão).] Aprendi nos metrosideros da Foz com as lagartas como cair das alturas sem partir a cervical, e com os mexilhões do mar de Afife como fechar a concha em dias de porrada e aguentar o temporal. Aprendi com os gatos como gerir as sete vidas e felizmente apenas há um mês descobri que em 2017 ainda se morre mundo fora de coração partido e se alguém mo tivesse contado há 3 anos, teria sido mártir da causa.
Feitas as contas, devem sobrar-me 2 vidas inteiras mais esta que decidi dedicar ao disparate. Tenho fé na ciência e na minha avozinha que está no céu que antes que me ganhem, ainda levo como uma ou duas vidas extra. No entanto, tento não abusar da sorte. Pratico pilates e yoga todos os dias e sou capaz de me vergar feita cana verde.
Quebrar é que não quebro.

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