domingo, março 27

Enquanto te esperava escrevi o nome das coisas no meu braço direito, das coisas que importam - escrevi o nome dos pássaros, o nome das ruas, o nome das flores, onome das horas enquanto te esperava - como 4 da tarde, ou terça-feira
Escrevi Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março
Enquanto te esperava, escrevi que não te esperava no meu braço direito, que não esperava ninguém, que já não esperava nada - só via o que estava à volta e escrevia no meu braço direito o nome de todos os pássaros, o nome de todas as ruas e todas as horas e todas as árvores e todos os livros e todos os bares e todos os cigarros e copos de vinho.
Escrevi tudo no meu braço direito e se um dia te encontrar, se reparares na camisa de manga comprida que trago em pleno verão, dir-te-ei que é cábula e levantando lentamente a manga, contar-te-ei tudo, ponto por ponto.
No braço esquerdo, por incapacidade motriz, não escreverei nada. Ficará em branco pálido até chegares.

sábado, março 19

Lá em casa eramos 5 - a minha mãe, as minha irmãs, eu e o meu pai. Com frequência eramos 6, quando a minha avó vinha passar uns dias connosco. Mais a empregada, a cadela, a piriquita Eva (os Adões não duravam muito lá em casa). No entanto, nunca tivemos grandes picos de estrogénios nem o meu pai parecia fora da caixa.
Lá em casa eramos 5 e todos sabiamos mudar uma lâmpada tão bem como dobrar uma omelete.
Lá em casa eramos 5 e não me lembro de alguma vez termos sido 4 mulheres e um homem.
Quando tinha 15 anos (talvez ainda antes) o meu pai deu-me este poema, emoldurado a vermelho para a parede do meu quarto.

If—

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,   
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;   

If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;   
If you can think—and not make thoughts your aim;   
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;   

If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;

If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,   
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,   
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;

If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,   
Yours is the Earth and everything that’s in it,   
And—which is more—you’ll be a Man, my son!

Rudyard Kippling

Obrigada Pai, pelas armas que nos destes para sermos mulheres com H grande!

terça-feira, março 8

Não é pelas flores nem pelos bombons. Não é pelo voucher para o spa ou pelo jantar fora, nem pelo pequeno-almoço na cama ou a dispensa de dobrar as meias.
É pelos 3/4 das tarefas domésticas que as mulheres ainda abraçam em Portugal, é pela disparidade salarial, é pelo crescente risco de pobreza, é pela quase ausência de mulheres nos cargos de chefias das empresas e na política. É por todas as que morreram ou foram vítimas de violência nas mãos de quem ainda acha que elas são propriedade e não pessoas. É pelas raparigas argentinas que estavam a pedi-las por viajarem sozinhas.  É pelas que não ousam usar mini-saia para não terem de ouvir o que não merecem. É pelas raparigas que ainda são chamadas de maria-rapaz quando não gostam de cor de rosa. É pelas mulheres que até têm sorte porque os parceiros até ajudam. É por mim, por em 2016 ainda ter de dar um toque quando chego a casa à noite para os amigos saberem que não fui atacada.
É por todas todas todas as mulheres de todo todo todo o mundo que ainda têm medo, ainda têm rédeas, ainda não podem ir à escola ou beber um copo de vinho num bar sozinhas depois de um dia de trabalho.
'Mrs Dalloway disse que ela própria ia comprar as flores', quanto ao resto, era bom que a sociedade se mexesse.

terça-feira, março 1

Desaparecer do mapa

Mala finalmente feita - últimos artigos mas não menos importantes - aloquete, lápis de cor, o livro que estou a ler, um outro para ler e um para reler. Estou segura que entre isto e o que não me esqueci de pôr na mala vou falhar em pouco. Um mês não é nada.
Fica para trás, por decisão e não por esquecimento (por esquecimento ficarão mil e uma coisas que descobrirei apenas amanhã à noite), uma casa cheia de plantas regadas, os livros, uma garrafa de vinho quase vazia na banca da cozinha (será a fiel testemunha de que eu não ando por lá), os discos, os quadros nas paredes, um gato abandonado em Viana, mais de metade do cabelo e as saudades dos dias normais.
O meu desaparecer do mapa será tão breve que apenas os coentros poderão dar pela minha falta.