Por exemplo, eu odeio espirros.
Há muita gente no mundo a odiar baratas ou ratos. Ou aranhas, que são bichos altamente e eu ainda ontem queria ter uma aranha de estimação no quarto porque andava por lá uma mosca a zumbir-me às orelhas e o meu gato ficava só a olhar para ela com cara de parvo e eu queria era dormir sem ter de tapar a cabeça com o lençol de renda e se tivesse uma aranha de estimação ela tratava do assunto em vez de eu ter de ficar a sofucar debaixo do lençol com um gato com cara de parvo a ronronar e a olhar para o ar. Por isso nunca hei-de entender as pessoas que não gostam de aranhas.
Mas eu vim aqui foi para falar de ódios e em particular do ódio aos espirros - tenho outros, por exemplo, odeio quando encosto a vassoura à parede e ela escorrega e cai num estrondo no meio do chão. Odeio isso. Fico piursa! Ou quando estou a aspirar a casa e a ficha do aspirador se desencaixa da tomada. Põe-me louca! Mas não tanto como quando alguém espirra!
O meu pai, quando espirra, é como quem manda uma bomba nuclear para cima da mesa. Está toda a gente calma (ou nem tanto) na conversa e vai ele e ressoa na casa toda e não me venham com história de que tapa a boca. Os seus labios resfolgam como um cavalo. A conversa, inevitávelmente, pára. Faz-se um silêncio gigantesco, como o silêncio pós-apocalíptico e só passados uns segundos, depois de coçarmos os ouvidos para limparmos os zumbidos, é que somos capazes (quando somos!) de retomar a conversa. A minha mãe, por outro lado, toda muito bem educada, cheia de linhos engomados e coisa e tal, nunca espirra menos de 5 vezes - tim-tim-tim-tim-tim! Perdoem-me se pareço ranhosa, mas isto é uma total falta de respeito. Eu sou veterinária e vivo com os bichos todos os dias e posso dizer-vos que os bichos, que são bichos, espirram muito menos que nós. Se são alérgicos ao polén do pinheiro ou ao acáro do pó sabem o que é que eles fazem? Coçam-se! Também não é bonito, é verdade, mas não andam praí a excretar em alto e bom som o que lhes passa dentro do nariz.
O espirro - esta é a minha opinião e percebo que haja gente que veja as coisas de forma diferente, nomeadamenteos os alérgicos que por preguiça preferem cuspir a alta velocidade a tomar anti-histamínicos - é altamente tolerado pela nossa sociedade. É engraçado como toda a gente é moderamente contra os arrotos e fundamentalista contra puzetes, principalmente se forem malcheirosos, mas ninguém é contra os espirros. Até à data, ainda não encontrei ninguém que seja moderamente nazi contra os espirros e acho isso muito estranho.
Eu, no que a mim me toca, não espirro há mais de 10 anos. Sim, senhores e senhoras, da mesma forma que se inibe um arroto ou se evita um pum, também e possível apagar um espirro. Exige prática, é certo, é preciso antecipar o momento, saber que há um espirro prestes a ser cuspido sala fora, e é preciso ter alguma força de vontade. A minha técnica é empírica e ainda não encontrei artigos científicos com as 'guidelines' ou os 'best practice' para os evitar mas como não sou invejosa e na verdade sou até altruísta, ofereço-vos, livre de patentes e direitos de autor, a técnica que tenho vindo a desenvolver ao longo dos últimos 20 anos de vida. É bastante simples, mas é preciso estar atento ao timming. Um espirro é sempre precedido por uma inspiração mais profunda, normalmente em fases - uma pequena inspiração, seguida de outra e mais outra, muito curtas, sem que haja a devida expiração pelo meio. Este é o sinal de alerta. Se vos der para dar uma inspiração deste género, é bom que tenham a consciência de que rapidamente e a uma velocidade estúpida, vão cuspir toda a vossa cavidade nasal cá para fora em todas as direcções. Os olhos vão fechar com força cheios de medo de sair das órbitas e que toda a gente na sala vai olhar para vocês. A não ser que sejam exibicionistas natos, é altura de agir. O primeiro passo é o reconhecimento da situação! Estar sempre atento! A seguir é simples. Franzir o nariz. Continuar a inalar. Exalar via oral mais ao menos ao mesmo ritmo parvo com que inala. Manter o nariz franzido. Franzir, já agora, a testa. Fazer olhos de chinês. Levantar a cabeça como quem olha para dEUS a pedir que ele não saia. Inspirar a 3 tempos e expirar a 3 tempos e em menos de 6 segundos o espirro já foi embora e ninguém (excepto a pessoa do lado oposto da mesa que vos irá perguntar se estás bem) se vai aperceber de alguma coisa. Ninguém olhará para vocês. Poderão agora, discretamente, usar um lenço de papel (ou se forem gente fina ou idosa, um lenço de algodão com monograma) para assoar o nariz removendo discretamente o agente que ainda há pouco ameaçavam expulsar a 240km/h.
Simples, não é? Eu acho! É claro que volta e meio há um espirro que se solta, feito pirata, não dá tempo nem a cautelosos como eu e eu isso até perdoo. Um deslize acontece a qualquer um e até a mim, admito, já se me escorregaram 2 ou 3 nestes anos e não foi por isso que me flagelei. Acontece, pronto. Mas que a sociedade continue a tratar dos espirros, em pleno século XXI, como se fossem a coisa mais banal do mundo, isso, eu, não entendo.
(Aposto que nunca ninguém começou uma história com por exemplo!)
