segunda-feira, setembro 25

Por exemplo, eu odeio espirros.

Há muita gente no mundo a odiar baratas ou ratos. Ou aranhas, que são bichos altamente e eu ainda ontem queria ter uma aranha de estimação no quarto porque andava por lá uma mosca a zumbir-me às orelhas e o meu gato ficava só a olhar para ela com cara de parvo e eu queria era dormir sem ter de tapar a cabeça com o lençol de renda e se tivesse uma aranha de estimação ela tratava do assunto em vez de eu ter de ficar a sofucar debaixo do lençol com um gato com cara de parvo a ronronar e a olhar para o ar. Por isso nunca hei-de entender as pessoas que não gostam de aranhas.
Mas eu vim aqui foi para falar de ódios e em particular do ódio aos espirros - tenho outros, por exemplo, odeio quando encosto a vassoura à parede e ela escorrega e cai num estrondo no meio do chão. Odeio isso. Fico piursa! Ou quando estou a aspirar a casa e a ficha do aspirador se desencaixa da tomada. Põe-me louca! Mas não tanto como quando alguém espirra!
O meu pai, quando espirra, é como quem manda uma bomba nuclear para cima da mesa. Está toda a gente calma (ou nem tanto) na conversa e vai ele e ressoa na casa toda e não me venham com história de que tapa a boca. Os seus labios resfolgam como um cavalo. A conversa,  inevitávelmente, pára. Faz-se um silêncio gigantesco, como o silêncio pós-apocalíptico e só passados uns segundos, depois de coçarmos os ouvidos para limparmos os zumbidos, é que somos capazes (quando somos!) de retomar a conversa. A minha mãe, por outro lado, toda muito bem educada, cheia de linhos engomados e coisa e tal, nunca espirra menos de 5 vezes - tim-tim-tim-tim-tim! Perdoem-me se pareço ranhosa, mas isto é uma total falta de respeito. Eu sou veterinária e vivo com os bichos todos os dias e posso dizer-vos que os bichos, que são bichos, espirram muito menos que nós. Se são alérgicos ao polén do pinheiro ou ao acáro do pó sabem o que é que eles fazem? Coçam-se! Também não é bonito,  é verdade, mas não andam praí a excretar em alto e bom som o que lhes passa dentro do nariz.
O espirro - esta é a minha opinião e percebo que haja gente que veja as coisas de forma diferente, nomeadamenteos os alérgicos que por preguiça preferem cuspir a alta velocidade a tomar anti-histamínicos - é altamente tolerado pela nossa sociedade. É engraçado como toda a gente é moderamente contra os arrotos e fundamentalista contra puzetes, principalmente se forem malcheirosos, mas ninguém é contra os espirros. Até à data, ainda não encontrei ninguém que seja moderamente nazi contra os espirros e acho isso muito estranho.
Eu, no que a mim me toca, não espirro há mais de 10 anos. Sim, senhores e senhoras, da mesma forma que se inibe um arroto ou se evita um pum, também e possível apagar um espirro. Exige prática, é certo, é preciso antecipar o momento, saber que há um espirro prestes a ser cuspido sala fora, e é preciso ter alguma força de vontade. A minha técnica é empírica e ainda não encontrei artigos científicos com as 'guidelines' ou os 'best practice' para os evitar mas como não sou invejosa e na verdade sou até altruísta,  ofereço-vos, livre de patentes e direitos de autor, a técnica que tenho vindo a desenvolver ao longo dos últimos 20 anos de vida. É bastante simples, mas é preciso estar atento ao timming. Um espirro é sempre precedido por uma inspiração mais profunda, normalmente em fases - uma pequena inspiração,  seguida de outra e mais outra, muito curtas, sem que haja a devida expiração pelo meio. Este é o sinal de alerta. Se vos der para dar uma inspiração deste género, é bom que tenham a consciência de que rapidamente e a uma velocidade estúpida, vão cuspir toda a vossa cavidade nasal cá para fora em todas as direcções. Os olhos vão fechar com força cheios de medo de sair das órbitas e que toda a gente na sala vai olhar para vocês. A não ser que sejam exibicionistas natos, é altura de agir. O primeiro passo é o reconhecimento da situação! Estar sempre atento! A seguir é simples. Franzir o nariz. Continuar a inalar. Exalar via oral mais ao menos ao mesmo ritmo parvo com que inala. Manter o nariz franzido. Franzir, já agora, a testa. Fazer olhos de chinês. Levantar a cabeça como quem olha para dEUS a pedir que ele não saia. Inspirar a 3 tempos e expirar a 3 tempos e em menos de 6 segundos o espirro já foi embora e ninguém (excepto a pessoa do lado oposto da mesa que vos irá perguntar se estás bem) se vai aperceber de alguma coisa. Ninguém olhará para vocês. Poderão agora, discretamente, usar um lenço de papel (ou se forem gente fina ou idosa, um lenço de algodão com monograma) para assoar o nariz removendo discretamente o agente que ainda há pouco ameaçavam expulsar a 240km/h.
Simples, não é? Eu acho!  É claro que volta e meio há um espirro que se solta, feito pirata, não dá tempo nem a cautelosos como eu e eu isso até perdoo. Um deslize acontece a qualquer um e até a mim, admito, já se me escorregaram 2 ou 3 nestes anos e não foi por isso que me flagelei. Acontece,  pronto. Mas que a sociedade continue a tratar dos espirros, em pleno século XXI, como se fossem a coisa mais banal do mundo, isso, eu, não entendo.

(Aposto que nunca ninguém começou uma história com por exemplo!)

quarta-feira, setembro 20

Eu que, ainda nesta idade, gosto de complicações , hoje decidi desmultiplicar o assunto do dia. Como os franceses (logo eu que sempre fui tão anglófona - ai p'ró que me deu!) decidi pegar e fazer 20 anos que fiz 18.
Levantei-me da cama cedo e parei no espelho da bivó Helena para ver como ia de rugas. Limpei as remelas e apanhei o cabelo e, talvez por não ter posto os óculos, pareceu-me estava tudo em ordem para quem é adulto há já 20 anos. E ser adulto é difícil como o caraças, caso não saibam, e mesmo com 20 anos de prática ainda me sinto uma noobie.
Não pus maquilhagem e tirei a selfie da praxe (lembrar-me-ei sempre de uma música de infância em que um miúdo perguntava 'porque é que te pintas' e ela respondia 'é pra ficar mais bonita' e ele ripostava 'então porque é que não ficas?'), e lá me atirei para o dia de ser princesa.
Há quem ache que os anos começam a 1 de Janeiro. Aí fazem-se os balanços possíveis (a ressaca do dia anterior atira para lá a culpa toda) e é um chorrilho de resoluções que vão da dieta a metas ecológicas e promessas de telefonemas a amigos. Para mim o ano começa a 20 de Setembro porque foi aí que tudo se me começou - trabalhando da parte da manhã num hospital central ainda dentro da barriga da minha mãe e nascendo no início da tarde enquanto o meu pai estacionava o carro.
Então cá vai o balanço de 20 anos de adulthood. Oh pá... não tem sido fácil, já comecei e acabei e recomecei e dei 3 cambotas e várias piruetas atabalhoadas, às vezes até tropecei, mas acima de tudo, tem sido fixe. Mesmo fixe, para não dizer altamente! E juro-vos, amiguinhos, que fazer o balanço em dia de receber tantos mimos, tantas mensagens, tantas chamadas de encher o coração contribui para isso. Ou vocês são todos parvos, ou devo estar a portar-me bem nesta coisa que é a vida para receber tanto amor! Um grande obrigada a todos por me animarem os dias e já agora convido-vos a ficar por perto porque quase aposto que o melhor ainda está para vir.
(Post Scriptum para a família,  que me atura há um pouco mais que 20 anos de idade adulta e que já viu até as birras de adolescente - carissimos, está visto que isto já deu o que tinha a dar e quem nasce canhoto raramente se endireita, obrigada do fundo do coração por aquele momento em que me apanharam do caixote do lixo dos ciganos no Marquês e me fizeram parte da vossa vida. Fiquem sabendo que já passou o prazo de devolução e que vamos ter mesmo de ficar juntos para sempre!)
Lots of love, H


sexta-feira, setembro 8

houve tempos em que

eu era tão feliz que dormia como os mortos - de barriga para cima com as mãos cruzadas no peito com medo que o coração me fugisse. O corpo todo esticado aberto, sem aninhar nem os pés. A alma também esticada. Acho que por essa altura não me atrevia nem a sonhar, não fossem os sonhos interromper a realidade.
Às vezes ele acordava-me, com um safanão, com medo que eu tivesse morrido de felicidade antes dele chegar à cama. Eu ria e respondia 'não me atrevia. To die by your side is such a heavenly way to die' e enroscava-me fazendo do seu peito curvo a almofada para o resto da noite.

À gajo

Lembro-me de uma crónica do Lobo Antunes. Foi mais ou menos assim. Acabar uma relação à gajo. Não votei no cliché apenas por ele não ser verdade. Não és tu, sou eu é uma treta. Mas a verdade é que o problema não era ele, éramos nós, e a mim não me doem os falhanços.
Arquei, à gajo, sem lhe apontar o dedo ou sequer me defender, com as acusações de que era por 'medo que fugia da relação', que era por 'ter sofrido e ter medo de sofrer outra vez' que desistia ao primeiro sinal de alarme e que era por 'insegurança que levantava muros que não deixavam os outros entrar'.
Olhei fixamente, à gajo, para o fundo da praça para não me dar esta cena de gaja que é querer ver sempre toda a gente bem e de me ver tremer a voz ao dizer que 'eu gosto de ti mas não funciona. e que preferia que fossemos apenas amigos, como antes'.
À gajo.
Que nem é à gajo, foi só à pessoa honesta, nem fria nem quente, mas prática. As coisas são o que são e quem não acredita em contos de fadas ou mudanças de personalidade não pode inventar desculpas esfarrapadas só para ter boa companhia para jantar.
Não,  podia ter dito, não é por medo nem é uma fuga. É só a constatação básica de que não quero continuar. E também não,  o que eu sofri não foi no amor. Desse, tenho as melhores memórias - dúvido que a maior parte das pessoas tenha tido relações tão felizes como as minhas. Sim, acabaram e nessa fase sofri como a quem lhe amputam o coração,  mas do amor nunca terei medo. Apenas saudades.
É talvez esse o problema, meu caro - e não o disse, já bastava ter de dizer que não queria continuar, que da minha paz, conquistada a pulso, não abdico nem a ferros - por saber a cara do amor, por saber o que me faz à cara, à pele, aos ossos, como me torna as pernas longas e me rouba o sono e a fome e a alma ao ponto de derrubar todos os muros que por feitio e não por defeito ou medo ou dor construí à minha volta, por saber tão bem o travo do medo de me perder - ai que só de me lembrar já não tenho pé e as correntes são tão forte - (ai tão bom!), por saber o que me faz abdicar de tudo, até da paz, é que digo ponto final.
À gajo.
Sem sequer peso na alma.
À gajo (como se os gajos tivessem menos alma que nós e não soubesse que é por dor, ainda que miudinha, hoje este me acusa de mil coisas). Mas vá, à gajo, que na gíria ainda infeliz dos dias de hoje significa à insensível com à gaja vale de histérica.
À gajo, chamei o empregado de mesa e pedi a conta. Cada um pagou a sua. À gajo, e porque estava de carro, ofereci-me para o levar a casa embora não me apetece. À gajo, ele, recusou a boleia mas levou-me ao carro, à gajo. E disse, fico em tua casa e depois desço a pé, até me vai saber bem. Insisti, à gajo, que não custava deixá-lo em casa e à gaja aceitei a desculpa da caminhada. Como dois ex-amantes despedimos-nos com um abraço mal saímos do carro e ele com o coração afrouxado desceu rua abaixo.
À gajo subi até casa e esperei 5 minutos.
À gaja, que é o que sou, voltei a descer, meti-me no carro e fui para casa de uma amiga limpar-me de culpas numa garrafa de vinho.
(É que estas coisas também custam a quem está do lado da mau da história.)

domingo, setembro 3

Por indecisão  crónica mais do que por decisão aguda e momentânea,  antes de sair de casa para um final de tarde ao sol, entrei no escritório e peguei não num mas em dois livros. Não me demorei mais do que 30 segundos na indecisão. Conheço-me o suficiente para saber que independentemente do tempo passado à frente da prateleira nunca sairia satisfeita com a escolha. O primeiro há já vários meses que olha para mim - não sei quem o comprou ou quem o deixou nas minhas mãos, nem sei do que trata. Chama-se 'will you please be quiet, please?' e olha para mim não com reprovação,  mas com voz melancólica de mãe - pára um pouco, por ti, fica quieta só um bocadinho, cala lá esse frenesim de correr de um lado para o outro - diz-me baixinho de cada vez que entro no escritório caótico. A voz com que fala é a minha, fui eu que o pus virado para a frente e não de lombada, como os outros.  Está nas minhas mãos há mais de 6 meses e não lhe pego porque sei que esta voz, a minha voz, é a voz da razão, é a voz da minha mãe mas não a posso ouvir agora. Agora tenho de me concentrar na outra voz, mais forte e segura que diz não pares ainda, continua a andar, se não falares escreve. Tenho medo do que me poderá dizer, este livro,  as coisas que não quero ouvir.
Está sol e hoje acabei trabalho pendente às doze e quinze da manhã. Sobra-me esperar. Como o Pedro. O trem. O email de chamada para o trabalho. O telefonema de amigo com saudades. Sobra-me a cozinha, o tricot. Vale-me o gato que dá à casa um ar normal. Sobra-me o exercício físico - o suor a escorrer nas costas que lava a mente, sabe-se lá como - pelos poros sai o sódio, o cloro e algumas angústias. Valem-me as plantas que sim, precisam de mim. E o vinho branco do Alentejo que depois do sol me deu gana de comprar, eu que teimo que só gosto de tinto.
Não pensem que vivo de stress. Por trás de tudo isto há uma paz estranha, sou como uma aldeia perdida na neve com banda sonora de Nick Cave, há silêncio e respirar fundo o cheiro a pinheiro e uma ligeira sensação de que não obstante a ausência de poluição corro o risco de sofucar a qualquer momento, embora isso ainda não tenha acontecido - é só uma premonição. Uma sensação de que há qualquer coisa de surreal no ar, não tenho a certeza de que as horas passem de verdade - as horas de quem tem a vida regrada pelo gato e pelo ritmo da música não têm 60 minutos -, neste silêncio onde a Kate Moss é nome de música (could i love you?) não há a certeza de que o mundo continua a girar para além da entrada e saída dos autocarros da central da camionagem,  e isso parece pouca prova. Para aumentar as suspeitas, a carne assada no tuperware no frigorífico há 15 dias continua por rançar e a feijoada com etiqueta de 2013 que tirei do congelador está deliciosa.
O segundo livro é diferente embora, e isso só descubro quando me ponho ao sol e decido fazer experiências ao cérebro, seja igual. Este comprei-o eu e tem na terceira página Um abraço para Helena, seguido de um rabisco que sei que é a assinatura do Sérgio Godinho. Sei-o porque nunca se esquecem as declarações de amor e lembro-me como se fosse hoje do momento de coragem em que lhe disse que também ele, sem saber, tem mil vidas duplas e que sem saber correu a minha vida ao meu lado.
Tu me manques. Como quem diz que a tua ausência me causa danos.
Tu dizes saudades a partir de um aeroporto ao sul, que os aeroportos, ao sul ou ao norte, são sempre o lugar dos abraços mais apertados. Eu cá, odeio aeroportos. Odeio as chegadas e as partidas e com frequência penso em ti nos aeroportos, embora nunca nos tenhamos cruzado em nenhum. Às vezes (felizmente nem sempre), os aeroportos são a casa dos abraços que nunca demos.
Já estava, meu amor, habituada ao vazio que é a nossa história. Pensei que também tu já a tinha atirado para o caixote dos amores incompletos,  aqueles que não darão direito a linhas por não lhes ser possível inventar um fim. Assim o arrumei, como aquela história que comecei a escrever uma vez,  à muito tempo, e que rapidamente condenei à morte por falta de fôlego. A nossa história também foi um pouco assim. Não foi a falta de ar que a matou em pleno enredo, mas a falta de corpo. Dois corpos que nunca se cruzam, duas rectas paralelas a olharem-se até ao infinito não podem dar bom romance.
Hoje viajo sem aeroporto. Não buscarei a tua ausência entre as mães no terminal de chegadas. Quando chegar, estacionarei o carro à porta de casa e sem dar por ti, subirei a casa.
Ainda assim, tu me manques. Na distância permanente das linhas paralelas, a tua ausência, como a tua presença e a tua saudade, causam-me danos.
vim aqui para escrever uma história, como faço sempre quando alguma coisa não está certa - sempre escrevi histórias para arrumar as coisas no seu sítio e este blog não frequentado é dos locais mais seguros para onde atirar as minhas desarrumações mentais, já que é mais fácil do que ir à garagem cujas chaves já nem trago junto às da porta. vim aqui para me explicar que o mal não está em mim, que é basicamente o que eu faço sempre que venho até aqui.
ontem acabei uma relação ainda antes de ela ser uma relação. vivo de muros erguidos e volta e meia, por insistência de amigos mais do que por vontade própria, lá baixo a guarda para ver como correm os romances na vida real. tinha menos de 1 mês, esta coisa, e tive de o levar a casa depois de um concerto e dizer com um penar sincero de que as coisas não estavam a funcionar. e não, não era ele. não sou cínica ao ponto do cliché do não és tu sou eu (embora eu ache que este cliché é sempre verdade - somos sempre nós (os que acabamos) a causa da separação). este caso é diferente e era isso que vinha aqui esclarecer de mim para mim, não sou eu e não é ele, somos nós. as guerras que criamos (os dois) sobre assuntos tão desinteressantes como as maças ou os gatos de rua. ainda agora tenho pena que assim seja. dois teimosos que podiam até, eventualmente, ser moderamente felizes na vida a casal, como os demais, não fossemos os dois uns cínicos em relação em relações e não termos tão mau feitio, os dois. de qualquer das formas, um tipo impecável.
era isto que eu vinha aqui esclarecer a mim própria, dar palmadinha nas costas e dizer fizeste bem miúda, antes sozinha em paz do que acompanhada em guerra. ficas tão bem como estavas antes e tu até gostas desta coisa de ser solteira e viveres dentro da tua cabeça e na sombra dos livros de poesia ou dos choupos do Cávado.
limpar a ideia de que com o tempo desaprendi a arte de negociar, coisa que todas as pessoas que ficam sozinhas durante algum tempo (esse tempo depende de cada um, não há um número) desaprendem - oh está-se tão bem no nosso casulo onde nada é novo nada é risco e a botija já tem o contorno das tuas cochas e eu até já me fui habituando às inúmeras discussões comigo própria que até já lhes sentia saudade. desculpar-me de preferir viver neste mundo de fantasia com o qual nenhum humano tem hipótese. que não é por continuar a procurar um amor do tamanho dos poemas do eugénio, ou das cartas do Pedro, ou das expectativas que eu finjo que já abandonei faz anos do homem que se levanta de manhã e traz pão enquanto eu sonho um último sonho com cheiro às cerejeiras do japão, que não é por isso que acabo este relação. que não é porque ergui muros tão altos que nenhum humano poderá alguma vez ultrapassar, nem o Pedro, se um dia se divorciasse e me aparecesse à porta com mala para ficar. que foi o que ele me disse, quando o deixei à porta de casa e ele triste percebeu que eu não ia voltar atrás, ele a olhar para mim e eu a olhar para o fundo da rua, os dois com a mesma tristeza do fim, também eu sem querer ir embora, mas sem poder fazer outra coisa.
era isso que eu vinha aqui deixar em pratos limpos. a culpa não é minha nem deixa de ser. as coisas são como são, e eu até abracei a sugestão dos amigos e baixei a guarda e até falei de cicatrizes que embora curadas ainda sofrem, em dias de nevoeiro, de dor fantasma. dizer-me a mim própria que fiz o melhor que pude dadas as circunstâncias (sendo que dentro das circunstâncias cabe tudo o que me aconteceu desde 20 de setembro de 1979), mas que tendo atingido este grau de (hesitação de vários e diversos segundos na escolha da palavra, eu que escrevo sempre em catadupa o que me vai na alma) paz que me custou tanto a atingir, não vou abdicar dele por um namorico qualquer. e que não tem nada a ver com o facto de ele só conhecer o Chico por alto ou de falhar redondamente na conjugação do verbo haver na 3a pessoa do singular. sou ranhosa, mas não é por aí. e que também não era por medo de abrir os muros, pelo suposto medo das relações de que fui acusada. são as guerras. há já vários anos que eu descobri que ir à guerra é imediatamente entrar a perder e eu, estando na minha paz de pedra e cal, não quero ir a guerra nem que o prémio seja o céu, até porque isso é depois e eu tenho sempre medo que o depois não chegue e entretanto já perdi as 2 pernas.
era isso que eu vinha aqui esclarecer para que não ficassem as dúvidas que o silêncio do meu carro e as mãos dadas a não quererem deixar-se me deixaram no coração.