Por indecisão crónica mais do que por decisão aguda e momentânea, antes de sair de casa para um final de tarde ao sol, entrei no escritório e peguei não num mas em dois livros. Não me demorei mais do que 30 segundos na indecisão. Conheço-me o suficiente para saber que independentemente do tempo passado à frente da prateleira nunca sairia satisfeita com a escolha. O primeiro há já vários meses que olha para mim - não sei quem o comprou ou quem o deixou nas minhas mãos, nem sei do que trata. Chama-se 'will you please be quiet, please?' e olha para mim não com reprovação, mas com voz melancólica de mãe - pára um pouco, por ti, fica quieta só um bocadinho, cala lá esse frenesim de correr de um lado para o outro - diz-me baixinho de cada vez que entro no escritório caótico. A voz com que fala é a minha, fui eu que o pus virado para a frente e não de lombada, como os outros. Está nas minhas mãos há mais de 6 meses e não lhe pego porque sei que esta voz, a minha voz, é a voz da razão, é a voz da minha mãe mas não a posso ouvir agora. Agora tenho de me concentrar na outra voz, mais forte e segura que diz não pares ainda, continua a andar, se não falares escreve. Tenho medo do que me poderá dizer, este livro, as coisas que não quero ouvir.
Está sol e hoje acabei trabalho pendente às doze e quinze da manhã. Sobra-me esperar. Como o Pedro. O trem. O email de chamada para o trabalho. O telefonema de amigo com saudades. Sobra-me a cozinha, o tricot. Vale-me o gato que dá à casa um ar normal. Sobra-me o exercício físico - o suor a escorrer nas costas que lava a mente, sabe-se lá como - pelos poros sai o sódio, o cloro e algumas angústias. Valem-me as plantas que sim, precisam de mim. E o vinho branco do Alentejo que depois do sol me deu gana de comprar, eu que teimo que só gosto de tinto.
Não pensem que vivo de stress. Por trás de tudo isto há uma paz estranha, sou como uma aldeia perdida na neve com banda sonora de Nick Cave, há silêncio e respirar fundo o cheiro a pinheiro e uma ligeira sensação de que não obstante a ausência de poluição corro o risco de sofucar a qualquer momento, embora isso ainda não tenha acontecido - é só uma premonição. Uma sensação de que há qualquer coisa de surreal no ar, não tenho a certeza de que as horas passem de verdade - as horas de quem tem a vida regrada pelo gato e pelo ritmo da música não têm 60 minutos -, neste silêncio onde a Kate Moss é nome de música (could i love you?) não há a certeza de que o mundo continua a girar para além da entrada e saída dos autocarros da central da camionagem, e isso parece pouca prova. Para aumentar as suspeitas, a carne assada no tuperware no frigorífico há 15 dias continua por rançar e a feijoada com etiqueta de 2013 que tirei do congelador está deliciosa.
O segundo livro é diferente embora, e isso só descubro quando me ponho ao sol e decido fazer experiências ao cérebro, seja igual. Este comprei-o eu e tem na terceira página Um abraço para Helena, seguido de um rabisco que sei que é a assinatura do Sérgio Godinho. Sei-o porque nunca se esquecem as declarações de amor e lembro-me como se fosse hoje do momento de coragem em que lhe disse que também ele, sem saber, tem mil vidas duplas e que sem saber correu a minha vida ao meu lado.
Está sol e hoje acabei trabalho pendente às doze e quinze da manhã. Sobra-me esperar. Como o Pedro. O trem. O email de chamada para o trabalho. O telefonema de amigo com saudades. Sobra-me a cozinha, o tricot. Vale-me o gato que dá à casa um ar normal. Sobra-me o exercício físico - o suor a escorrer nas costas que lava a mente, sabe-se lá como - pelos poros sai o sódio, o cloro e algumas angústias. Valem-me as plantas que sim, precisam de mim. E o vinho branco do Alentejo que depois do sol me deu gana de comprar, eu que teimo que só gosto de tinto.
Não pensem que vivo de stress. Por trás de tudo isto há uma paz estranha, sou como uma aldeia perdida na neve com banda sonora de Nick Cave, há silêncio e respirar fundo o cheiro a pinheiro e uma ligeira sensação de que não obstante a ausência de poluição corro o risco de sofucar a qualquer momento, embora isso ainda não tenha acontecido - é só uma premonição. Uma sensação de que há qualquer coisa de surreal no ar, não tenho a certeza de que as horas passem de verdade - as horas de quem tem a vida regrada pelo gato e pelo ritmo da música não têm 60 minutos -, neste silêncio onde a Kate Moss é nome de música (could i love you?) não há a certeza de que o mundo continua a girar para além da entrada e saída dos autocarros da central da camionagem, e isso parece pouca prova. Para aumentar as suspeitas, a carne assada no tuperware no frigorífico há 15 dias continua por rançar e a feijoada com etiqueta de 2013 que tirei do congelador está deliciosa.
O segundo livro é diferente embora, e isso só descubro quando me ponho ao sol e decido fazer experiências ao cérebro, seja igual. Este comprei-o eu e tem na terceira página Um abraço para Helena, seguido de um rabisco que sei que é a assinatura do Sérgio Godinho. Sei-o porque nunca se esquecem as declarações de amor e lembro-me como se fosse hoje do momento de coragem em que lhe disse que também ele, sem saber, tem mil vidas duplas e que sem saber correu a minha vida ao meu lado.
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