domingo, setembro 3

vim aqui para escrever uma história, como faço sempre quando alguma coisa não está certa - sempre escrevi histórias para arrumar as coisas no seu sítio e este blog não frequentado é dos locais mais seguros para onde atirar as minhas desarrumações mentais, já que é mais fácil do que ir à garagem cujas chaves já nem trago junto às da porta. vim aqui para me explicar que o mal não está em mim, que é basicamente o que eu faço sempre que venho até aqui.
ontem acabei uma relação ainda antes de ela ser uma relação. vivo de muros erguidos e volta e meia, por insistência de amigos mais do que por vontade própria, lá baixo a guarda para ver como correm os romances na vida real. tinha menos de 1 mês, esta coisa, e tive de o levar a casa depois de um concerto e dizer com um penar sincero de que as coisas não estavam a funcionar. e não, não era ele. não sou cínica ao ponto do cliché do não és tu sou eu (embora eu ache que este cliché é sempre verdade - somos sempre nós (os que acabamos) a causa da separação). este caso é diferente e era isso que vinha aqui esclarecer de mim para mim, não sou eu e não é ele, somos nós. as guerras que criamos (os dois) sobre assuntos tão desinteressantes como as maças ou os gatos de rua. ainda agora tenho pena que assim seja. dois teimosos que podiam até, eventualmente, ser moderamente felizes na vida a casal, como os demais, não fossemos os dois uns cínicos em relação em relações e não termos tão mau feitio, os dois. de qualquer das formas, um tipo impecável.
era isto que eu vinha aqui esclarecer a mim própria, dar palmadinha nas costas e dizer fizeste bem miúda, antes sozinha em paz do que acompanhada em guerra. ficas tão bem como estavas antes e tu até gostas desta coisa de ser solteira e viveres dentro da tua cabeça e na sombra dos livros de poesia ou dos choupos do Cávado.
limpar a ideia de que com o tempo desaprendi a arte de negociar, coisa que todas as pessoas que ficam sozinhas durante algum tempo (esse tempo depende de cada um, não há um número) desaprendem - oh está-se tão bem no nosso casulo onde nada é novo nada é risco e a botija já tem o contorno das tuas cochas e eu até já me fui habituando às inúmeras discussões comigo própria que até já lhes sentia saudade. desculpar-me de preferir viver neste mundo de fantasia com o qual nenhum humano tem hipótese. que não é por continuar a procurar um amor do tamanho dos poemas do eugénio, ou das cartas do Pedro, ou das expectativas que eu finjo que já abandonei faz anos do homem que se levanta de manhã e traz pão enquanto eu sonho um último sonho com cheiro às cerejeiras do japão, que não é por isso que acabo este relação. que não é porque ergui muros tão altos que nenhum humano poderá alguma vez ultrapassar, nem o Pedro, se um dia se divorciasse e me aparecesse à porta com mala para ficar. que foi o que ele me disse, quando o deixei à porta de casa e ele triste percebeu que eu não ia voltar atrás, ele a olhar para mim e eu a olhar para o fundo da rua, os dois com a mesma tristeza do fim, também eu sem querer ir embora, mas sem poder fazer outra coisa.
era isso que eu vinha aqui deixar em pratos limpos. a culpa não é minha nem deixa de ser. as coisas são como são, e eu até abracei a sugestão dos amigos e baixei a guarda e até falei de cicatrizes que embora curadas ainda sofrem, em dias de nevoeiro, de dor fantasma. dizer-me a mim própria que fiz o melhor que pude dadas as circunstâncias (sendo que dentro das circunstâncias cabe tudo o que me aconteceu desde 20 de setembro de 1979), mas que tendo atingido este grau de (hesitação de vários e diversos segundos na escolha da palavra, eu que escrevo sempre em catadupa o que me vai na alma) paz que me custou tanto a atingir, não vou abdicar dele por um namorico qualquer. e que não tem nada a ver com o facto de ele só conhecer o Chico por alto ou de falhar redondamente na conjugação do verbo haver na 3a pessoa do singular. sou ranhosa, mas não é por aí. e que também não era por medo de abrir os muros, pelo suposto medo das relações de que fui acusada. são as guerras. há já vários anos que eu descobri que ir à guerra é imediatamente entrar a perder e eu, estando na minha paz de pedra e cal, não quero ir a guerra nem que o prémio seja o céu, até porque isso é depois e eu tenho sempre medo que o depois não chegue e entretanto já perdi as 2 pernas.
era isso que eu vinha aqui esclarecer para que não ficassem as dúvidas que o silêncio do meu carro e as mãos dadas a não quererem deixar-se me deixaram no coração.

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