sexta-feira, setembro 8

À gajo

Lembro-me de uma crónica do Lobo Antunes. Foi mais ou menos assim. Acabar uma relação à gajo. Não votei no cliché apenas por ele não ser verdade. Não és tu, sou eu é uma treta. Mas a verdade é que o problema não era ele, éramos nós, e a mim não me doem os falhanços.
Arquei, à gajo, sem lhe apontar o dedo ou sequer me defender, com as acusações de que era por 'medo que fugia da relação', que era por 'ter sofrido e ter medo de sofrer outra vez' que desistia ao primeiro sinal de alarme e que era por 'insegurança que levantava muros que não deixavam os outros entrar'.
Olhei fixamente, à gajo, para o fundo da praça para não me dar esta cena de gaja que é querer ver sempre toda a gente bem e de me ver tremer a voz ao dizer que 'eu gosto de ti mas não funciona. e que preferia que fossemos apenas amigos, como antes'.
À gajo.
Que nem é à gajo, foi só à pessoa honesta, nem fria nem quente, mas prática. As coisas são o que são e quem não acredita em contos de fadas ou mudanças de personalidade não pode inventar desculpas esfarrapadas só para ter boa companhia para jantar.
Não,  podia ter dito, não é por medo nem é uma fuga. É só a constatação básica de que não quero continuar. E também não,  o que eu sofri não foi no amor. Desse, tenho as melhores memórias - dúvido que a maior parte das pessoas tenha tido relações tão felizes como as minhas. Sim, acabaram e nessa fase sofri como a quem lhe amputam o coração,  mas do amor nunca terei medo. Apenas saudades.
É talvez esse o problema, meu caro - e não o disse, já bastava ter de dizer que não queria continuar, que da minha paz, conquistada a pulso, não abdico nem a ferros - por saber a cara do amor, por saber o que me faz à cara, à pele, aos ossos, como me torna as pernas longas e me rouba o sono e a fome e a alma ao ponto de derrubar todos os muros que por feitio e não por defeito ou medo ou dor construí à minha volta, por saber tão bem o travo do medo de me perder - ai que só de me lembrar já não tenho pé e as correntes são tão forte - (ai tão bom!), por saber o que me faz abdicar de tudo, até da paz, é que digo ponto final.
À gajo.
Sem sequer peso na alma.
À gajo (como se os gajos tivessem menos alma que nós e não soubesse que é por dor, ainda que miudinha, hoje este me acusa de mil coisas). Mas vá, à gajo, que na gíria ainda infeliz dos dias de hoje significa à insensível com à gaja vale de histérica.
À gajo, chamei o empregado de mesa e pedi a conta. Cada um pagou a sua. À gajo, e porque estava de carro, ofereci-me para o levar a casa embora não me apetece. À gajo, ele, recusou a boleia mas levou-me ao carro, à gajo. E disse, fico em tua casa e depois desço a pé, até me vai saber bem. Insisti, à gajo, que não custava deixá-lo em casa e à gaja aceitei a desculpa da caminhada. Como dois ex-amantes despedimos-nos com um abraço mal saímos do carro e ele com o coração afrouxado desceu rua abaixo.
À gajo subi até casa e esperei 5 minutos.
À gaja, que é o que sou, voltei a descer, meti-me no carro e fui para casa de uma amiga limpar-me de culpas numa garrafa de vinho.
(É que estas coisas também custam a quem está do lado da mau da história.)

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