quinta-feira, maio 11

Da série: na minha tropical ausência não darás pela minha falta

Se parto, é apenas na esperança que um dia me digas para ficar.

Deixo sempre tudo arrumado, como se voltasse na manhã seguinte, à excepção do gato e do frigorífico.
Deixo o livro de receitas na prateleira da cozinha, não vá faltar-te a sopa.
Deixo toda a roupa lavada e recados para não te perderes na minha ausência.
E mais, para que não me sintas a falta, vou dando notícias.
Deixo as chaves de casa com o Manel para que a varanda se mantenha florida, caso passes na rua lá em baixo.
As luzes são solares, pelo que a cozinha, pelo final do dia, terá sempre um cheiro a mim, como se ali estivesse a ler à janela, sentada no tanque da roupa.

Se parto, tão amiúde,  é para que um dia me perguntes quando volto.

Deixo a cama feita de lavado e com os lençóis de renda impecávelmente esticados.
As saudades, faço de conta que são coisa que não me apoquenta e encaixo-to-as na garagem, junto aos outros tempos e às bicicletas.
O carro deixo-o a porta de casa, à mercê das acácias floridas longe do mar, praga que lhe come a pintura. O carro, para que saibas (e não estou a reclamar), sente a minha falta e quando volto só ressuscita à força dos cabos, não é como tu.

Parto sem dizer que fui e que se me ausento é por ti.
Parto pelo calor do voltar.
Volto pelo gato, cansada de esperar o teu convite.

domingo, maio 7

Poema à mãe

Juro, mãe, ser a tua memória.

Se o dia chegar em que o alzheimer da avó te atingir, se te esqueceres dos cheiros e do que comemos naquele dia em Tomar, contar-te-ei com pormenor e inventarei histórias ainda mais bonitas do que as nossas.
Ando, há anos, a saborear os dias devagar, mastigando todas as folhas de hortelã na sopa de feijão em Trás-os-Montes e o cheiro do leite do peito que te mirrei. Todos os dias religiosamente guardo 3h por dia para me virar para trás e para dentro para te ouvir gritar 'Helena, não te agarres ao cão que não o conheces' enquanto corrias atrás de mim entre os metrosíderos da Foz em dias de Inverno. Já apurei todas as memórias de que não me lembro e verifico, mãe, pela manhã, se a camisola pica ou não,  no pescoço ou na etiqueta e vejo, muitas vezes, o pendente de marfim do colar que agora é meu a balouçar à frente do meu nariz quando acordo - a minha primeira memória de ti.
Contar-te-ei não que cheiravas a desinfectante e a hospital e a cansaço no final do dia, mas que tinhas sombra azul sobre os olhos verdes e que tínhamos reuniões diárias no teu quarto de banho , os 5, empilhados sobre o lavatório de mármore enquanto tu fazias xixi e o pai lavava os dentes depois de almoço.
Lembrar-te-ei de como sofreste por mim o meu coração partido mesmo quando eu fingia que já o tinha colado e como sempre foste uma rocha e eu ilha -  insuflável  e tola - atei uma corda a ti para não andar à deriva demasiadas vezes para uma vida só.
Contar-te-ei de como o teu pai ressonava como uma locomotiva e ia para o carro à porta de casa aos domingos à tarde fumar e ouvir o relato do Porto e de que como a tua mãe comprou o bilhete para o céu indo a duas missas seguidas. Não te falarei da sua depressão, ou dos choques eléctricos ou dos gritos, mas falarei dos tapetes de flores na Páscoa e da doçura do cheiro das suas rosas, que fazes crescer à porta da tua casa.
Nunca que contarei que não me lembro de grandes mimos, de que ainda hoje não encontro em cafonés o conforto do amor, que tive ciúmes das mães fofinhas das minhas colegas, que lhe faziam rissóis e panados para as visitas de estudo quando eu tinha de comer uma omelete no pão, mas dir-te-ei do fundo do coração que uma sandes de omelete de salsa e cebola é a coisa mais maravilhosa do mundo.
Dir-te-ei, sem mentir, que sempre quis ser como tu, embora tenha chorado quando me disseram que pareces fria como a tua mãe. Eu que sempre quis ser fria como tu. Bola para a frente, sofrer como tu deves ter sofrido o tempo todo, para dentro, sozinha,  sem nunca incomodar ninguém.
Contar-te-ei como venceste o teu destino de agricultura rural com a luta e sem nunca te achares nada de especial.
E juro, mãe, que me sentarei na tua cabeceira da cama a ler poesia e dir-te-ei, sem mentir nem numa vírgula, que se não fosse por ti, eu nunca tinha conhecido a paixão, a sombra das árvores, o rulhar do vento e o cheiro a maresia que vivem dentro dos livros onde eu sou feliz. Ler-te-ei o Eugénio de Andrade, e a Sophia de Melo Breyner, e cantar-te-ei o melhor que conseguir a Amélia dos olhos doces que sempre foste.
Contar-te-ei, mãe, que a primeira memória que tenho de um livro é 'aquela núvem e outras' e as aguarelas do Júlio Resende me alagam os olhos de cada vez que passo à frente de uma Bertrand e que a rosa amarela à janela terá sempre a tua voz de fundo a dizer 'escolhe um livro Helena, o que tu quiseres, qualquer um, vais ver que vais gostar!' E com vergonha contar-te-ei que o gato do Botero continua nas ramblas e que se eu hoje me mato por museus a culpa é só tua e que nunca mais achei piada a piscinas em parques de campismo.
Relatarei, feito relato de futebol, de como eramos felizes nas manhãs de fim de semana e que o pai saltava de cama em cama feito cabra-cabrez e de como nós te íamos salvar e de como Moledo no inverno era magnífico.
Se algum dia, deus queira que não, mãe, o teu cérebro se esquecer, falar-te-ei dos jesuítas de Santo Tirso, do cabrito do Marco, do cão a quem puxaste o rabo, do cabrito que só gostava do teu irmão e de como tu foste magnífica a vida inteira.
Dir-te-ei que me obrigaste a ir para os Estados Unidos aprender e que quando me deixaste no aeroporto (eu não queria ir, mãe - fui porque tu disseste que eu esse era o caminho) me disseste 'tenho tanto orgulho em ti, eu não era capaz!' E de que de todas as vezes que eu quis baralhar as cartas e começar de novo tu estiveste lá a dizer 'vamos lá, tudo vai sempre correr bem!'
Se te esqueceres, mãe, contar-te-ei como foste Mãe, a toda a hora, como me salvaste mil e muitas vezes e que embora eu faça ar de enfato ao atender o telefone 'ai mãe, não tenho 15 anos! deixa-me estar!', embora eu insiste em armar-me em parva, feita Gomes, ignorando o Ferreira e Marques e Silva que me corre no sangue, os teus telefonemas são,  todos os dias, a minha força.
Tenho pena, mãe, de não poder dizer-te isto hoje, por isso, mando-te, mesmo antes do dia acabar, uma mensagem a dizer apenas que te adoro e que as rosas antigas que me ofereceste no teu dia, serão sempre o lembrete de que eu gostava de ser como tu.

sexta-feira, maio 5

O Sindicato das Cartas de Amor

Sim, Pedro, sindicarizemos as cartas.

Para cada carta amarrotada, pena suspensa por 6 meses com direito a uma tarde de limpeza da mata nacional; 
para cada carta perdida, o carteiro terá de andar 15 dias com um letreiro onde se lerá 'eu perco cartas de amor'; 
para cada carta escrita e reescrita e nunca enviada (teremos espiões de pensamento no nosso sindicato, que verificarão diariamente as vontade de escrever algo e que vasculharão sem descanso os cadernos que as pessoas escrevem nas mesas de café quando se sentam sozinhas e as hesitações nos postos de correio) um senhor do fraque a passear atrás deles durante uma tarde a gritar 'faltou-te a coragem! Faltou-te a coragem!' 
Para as cartas não respondidas, a pena capital.

Fundaremos um exército de gente com selos em punho e senhas rápidas para os postos dos CTT. Teremos uma armada de papagaios loiros disponíveis em todos os quiosque payshop dispostos a levar as cartas para o outro lado e uma legião de pombos correios de anilha na pata para cartas telegrafadas stop.
Teremos sobre a nossa alçada todos o coros de santo amaro de oeiras e uma frete de autocarros dispostos a distribuir cartas cantadas por todos os canto do país e com serviço barato para o Luxemburgo (para começar). Teremos um escriva em cada aldeia para que o analfabetismo rural não sirva de desculpa.

Postais, fotografias com marcas de baton, envelopes cor de rosa perfumados e sobrescritos com caligrafia infantil serão prioritários e agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz e pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz.

quinta-feira, maio 4

O meu país cheira a coentros

O meu país cheira a coentros e a peixe fresco ou a peixe menos fresco, às vezes, mas antes isso que cheirar a sangue! E as caves das casas das avós cheiram a tasca e a vinho mau derramado mil vezes pelo chão há mais de 20 anos, quando o avô fazia o proibido e intragável vinho americano.
O meu país também cheira a cravos que não cheiram a nada, principalmente se forem de plástico para reutilização no Abril seguinte. Ou, lá para Junho, cheira a papel chinês dos balões de S. João e logo de seguida a incêndio. O cheiro a incêndio é o cheiro do meu país no Verão,  às vezes mascarado pelo do manjerico ou do bacalhau a assar na brasa.
E a refogado. Ou estrugido, que é a mesma coisa mas com muito mais azeite e alho e muito mais queimado e que inunda as ruas às portas dos restaurantes para trabalhadores - sitios com iluminação de frigorífico e chãos que se colam aos sapatos - mas onde se comem as melhores batatas assadas no mundo. As pessoas do meu país, normalmente as mães de outros tempos e avós, também cheiram a estrugido.
Por causa do vento, quase todo o meu país cheira a maresia, menos o Alto-Douro protegido pelo Marão e pelo Alvão e pelo Montemuro. Ali a maresia não entra e o meu país, ali, cheira a fumeiro.
Há quem disfarce o cheiro do meu país com perfume francês e incenso indiano. Eu tenho pena.
Também tenho pena que cada vez mais o país cheire a tubo de escape, mas por ora prefiro não pensar nisso.
O meu país não cheira às rosas antigas inglesas que a minha mãe se desunha para manter no jardim, e a maioria das flores que se vendem nos nossos mercados são importadas. E não cheiram a nada.
Mas eu gosto mesmo é quando o meu país cheira a coentros. Li recentemente um artigo científico que explica porque é que algumas pessoas odeiam coentros. A culpa é da genética e do receptor olfactivo OR6A2 que faz sobressair os aldeídos, fazendo qualquer boa feijoada de lulas saber a sabão. Também tenho pena. Essas pessoas nunca poderão completamente saborear o meu país.