Juro, mãe, ser a tua memória.
Se o dia chegar em que o alzheimer da avó te atingir, se te esqueceres dos cheiros e do que comemos naquele dia em Tomar, contar-te-ei com pormenor e inventarei histórias ainda mais bonitas do que as nossas.
Ando, há anos, a saborear os dias devagar, mastigando todas as folhas de hortelã na sopa de feijão em Trás-os-Montes e o cheiro do leite do peito que te mirrei. Todos os dias religiosamente guardo 3h por dia para me virar para trás e para dentro para te ouvir gritar 'Helena, não te agarres ao cão que não o conheces' enquanto corrias atrás de mim entre os metrosíderos da Foz em dias de Inverno. Já apurei todas as memórias de que não me lembro e verifico, mãe, pela manhã, se a camisola pica ou não, no pescoço ou na etiqueta e vejo, muitas vezes, o pendente de marfim do colar que agora é meu a balouçar à frente do meu nariz quando acordo - a minha primeira memória de ti.
Contar-te-ei não que cheiravas a desinfectante e a hospital e a cansaço no final do dia, mas que tinhas sombra azul sobre os olhos verdes e que tínhamos reuniões diárias no teu quarto de banho , os 5, empilhados sobre o lavatório de mármore enquanto tu fazias xixi e o pai lavava os dentes depois de almoço.
Lembrar-te-ei de como sofreste por mim o meu coração partido mesmo quando eu fingia que já o tinha colado e como sempre foste uma rocha e eu ilha - insuflável e tola - atei uma corda a ti para não andar à deriva demasiadas vezes para uma vida só.
Contar-te-ei de como o teu pai ressonava como uma locomotiva e ia para o carro à porta de casa aos domingos à tarde fumar e ouvir o relato do Porto e de que como a tua mãe comprou o bilhete para o céu indo a duas missas seguidas. Não te falarei da sua depressão, ou dos choques eléctricos ou dos gritos, mas falarei dos tapetes de flores na Páscoa e da doçura do cheiro das suas rosas, que fazes crescer à porta da tua casa.
Nunca que contarei que não me lembro de grandes mimos, de que ainda hoje não encontro em cafonés o conforto do amor, que tive ciúmes das mães fofinhas das minhas colegas, que lhe faziam rissóis e panados para as visitas de estudo quando eu tinha de comer uma omelete no pão, mas dir-te-ei do fundo do coração que uma sandes de omelete de salsa e cebola é a coisa mais maravilhosa do mundo.
Dir-te-ei, sem mentir, que sempre quis ser como tu, embora tenha chorado quando me disseram que pareces fria como a tua mãe. Eu que sempre quis ser fria como tu. Bola para a frente, sofrer como tu deves ter sofrido o tempo todo, para dentro, sozinha, sem nunca incomodar ninguém.
Contar-te-ei como venceste o teu destino de agricultura rural com a luta e sem nunca te achares nada de especial.
E juro, mãe, que me sentarei na tua cabeceira da cama a ler poesia e dir-te-ei, sem mentir nem numa vírgula, que se não fosse por ti, eu nunca tinha conhecido a paixão, a sombra das árvores, o rulhar do vento e o cheiro a maresia que vivem dentro dos livros onde eu sou feliz. Ler-te-ei o Eugénio de Andrade, e a Sophia de Melo Breyner, e cantar-te-ei o melhor que conseguir a Amélia dos olhos doces que sempre foste.
Contar-te-ei, mãe, que a primeira memória que tenho de um livro é 'aquela núvem e outras' e as aguarelas do Júlio Resende me alagam os olhos de cada vez que passo à frente de uma Bertrand e que a rosa amarela à janela terá sempre a tua voz de fundo a dizer 'escolhe um livro Helena, o que tu quiseres, qualquer um, vais ver que vais gostar!' E com vergonha contar-te-ei que o gato do Botero continua nas ramblas e que se eu hoje me mato por museus a culpa é só tua e que nunca mais achei piada a piscinas em parques de campismo.
Relatarei, feito relato de futebol, de como eramos felizes nas manhãs de fim de semana e que o pai saltava de cama em cama feito cabra-cabrez e de como nós te íamos salvar e de como Moledo no inverno era magnífico.
Se algum dia, deus queira que não, mãe, o teu cérebro se esquecer, falar-te-ei dos jesuítas de Santo Tirso, do cabrito do Marco, do cão a quem puxaste o rabo, do cabrito que só gostava do teu irmão e de como tu foste magnífica a vida inteira.
Dir-te-ei que me obrigaste a ir para os Estados Unidos aprender e que quando me deixaste no aeroporto (eu não queria ir, mãe - fui porque tu disseste que eu esse era o caminho) me disseste 'tenho tanto orgulho em ti, eu não era capaz!' E de que de todas as vezes que eu quis baralhar as cartas e começar de novo tu estiveste lá a dizer 'vamos lá, tudo vai sempre correr bem!'
Se te esqueceres, mãe, contar-te-ei como foste Mãe, a toda a hora, como me salvaste mil e muitas vezes e que embora eu faça ar de enfato ao atender o telefone 'ai mãe, não tenho 15 anos! deixa-me estar!', embora eu insiste em armar-me em parva, feita Gomes, ignorando o Ferreira e Marques e Silva que me corre no sangue, os teus telefonemas são, todos os dias, a minha força.
Tenho pena, mãe, de não poder dizer-te isto hoje, por isso, mando-te, mesmo antes do dia acabar, uma mensagem a dizer apenas que te adoro e que as rosas antigas que me ofereceste no teu dia, serão sempre o lembrete de que eu gostava de ser como tu.