quinta-feira, maio 4

O meu país cheira a coentros

O meu país cheira a coentros e a peixe fresco ou a peixe menos fresco, às vezes, mas antes isso que cheirar a sangue! E as caves das casas das avós cheiram a tasca e a vinho mau derramado mil vezes pelo chão há mais de 20 anos, quando o avô fazia o proibido e intragável vinho americano.
O meu país também cheira a cravos que não cheiram a nada, principalmente se forem de plástico para reutilização no Abril seguinte. Ou, lá para Junho, cheira a papel chinês dos balões de S. João e logo de seguida a incêndio. O cheiro a incêndio é o cheiro do meu país no Verão,  às vezes mascarado pelo do manjerico ou do bacalhau a assar na brasa.
E a refogado. Ou estrugido, que é a mesma coisa mas com muito mais azeite e alho e muito mais queimado e que inunda as ruas às portas dos restaurantes para trabalhadores - sitios com iluminação de frigorífico e chãos que se colam aos sapatos - mas onde se comem as melhores batatas assadas no mundo. As pessoas do meu país, normalmente as mães de outros tempos e avós, também cheiram a estrugido.
Por causa do vento, quase todo o meu país cheira a maresia, menos o Alto-Douro protegido pelo Marão e pelo Alvão e pelo Montemuro. Ali a maresia não entra e o meu país, ali, cheira a fumeiro.
Há quem disfarce o cheiro do meu país com perfume francês e incenso indiano. Eu tenho pena.
Também tenho pena que cada vez mais o país cheire a tubo de escape, mas por ora prefiro não pensar nisso.
O meu país não cheira às rosas antigas inglesas que a minha mãe se desunha para manter no jardim, e a maioria das flores que se vendem nos nossos mercados são importadas. E não cheiram a nada.
Mas eu gosto mesmo é quando o meu país cheira a coentros. Li recentemente um artigo científico que explica porque é que algumas pessoas odeiam coentros. A culpa é da genética e do receptor olfactivo OR6A2 que faz sobressair os aldeídos, fazendo qualquer boa feijoada de lulas saber a sabão. Também tenho pena. Essas pessoas nunca poderão completamente saborear o meu país.

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