Esta mania de dividirmos o corpo em braços e pernas e olhos e cabelos e dedos dos pés e unhas das mãos, já para não falar que o coração e alma e os calafrios que às vezes se nos percorrem o corpo que nós nem contamos como corpo, esta mania de nos vermos como partes - as pernas andam e o seu andar nada tem a ver com o que o que os meus ouvidos ouvem, pesados, nesse dia, por brincos pendentes que comprei na feira da ladra já quase vazia em Londres, como se o peso que trago nos lóbulos não me atrazasse o passo e as conversas que apanho na rua não fossem também elas o resultado do joelho que parti há 5 anos a posar para uma fotografia; esta mania de nos vermos partidos, como se não se não fossemos uma amalgama de cicatrizes antigas de arranhadelas de gato e nódoas negras recentes e dor de burro pela bebedeira de ontem, como se todas as histórias que nos moldaram todos os dias até aí e mesmo os dias que nunca fomos mas que se nos entraram via genes ou memória ancestral dos bisavós não contassem para a forma como pousamos as mãos sobre a mesa ou olhamos para a árvore do fundo da rua; esta mania de que todos os dias são um novo início; esta mania, irrita-me.
Esta ideia de que podemos arrumar em caixas os dias maus, e noutras os dias inúteis em que não fizemos nada - só passei a ferro com esmero e borrifador as camisas que vou amarrotar no sofá, um caixote de cimento de tampa hermética para os dias em que o coração nos foi partido, e os dias felizes espalhados em cima da relva, esta ideia de que as pernas ou a forma dos abraços nada têm que ver com essas história, ou o sabor do pão que amassamos não ser a consequência de um filme que vimos uma vez à socapa quando ainda não tínhamos idade sequer para ver filmes à socapa, parece-me totalmente absurda. Eu nunca fiz nada pela pela primeira vez. Nunca tive um princípio. Nunca fui nova, como aquelas coisas que antes eram terra e agora são árvores.
Pudesse, eu, ter um dia novo... um dia sem bagagem, sem nunca ter lido um livro, sem os metrosideros da Foz, sem os dois cães que se me morreram à frente, sem nunca ter visto um azulejo azul com corações no fundo da rua dos Chãos, um dia feito folha branca que nunca se deitou sobre uma secretária na sombra da hesitação de uma esferográfica, sem aquele suspense que já conhece a espera, eu, ter um dia novo, novo mesmo novo, empacotado em esferovite, novo mesmo novo, com cheiro a lavado, mas sem o cheiro a lavado da casa da avó, lavado mas com sabor a água - indolor, incolor, indelével, pudesse eu ter um desses dias, e juro que, pela primeira vez desde que me recordo, não olharia para os céus à procura de balões ou de olhos nos troncos das árvores e veria o mundo como ele aparece na televisão.
domingo, abril 30
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