quarta-feira, abril 19

assumindo as rasuras

Ainda te apago todos os dias
Às vezes logo pela manhã,
Apago as migalhas e o copo de vinho
E disfarço a música do Chico com um sorriso.
Não tem grande mal, já me habituei.
Apago-te do sítio onde te inscrevi sem te insistir a presença.
Apago a cerveja preta de cada vez que vejo uma
Apago mesas de café bolorentas e demasiado grandes para dois
E espalho sobre elas mil tralhas para que sirvam para um.
Às vezes apago-te à noite escrevendo que te apago, só para que fique bem claro que te apago, mesmo antes de dormir.
Apago-te com quem apagava com a parte azul da borracha na escola primária,
rasgando a folha
rasgando mais um dia
marca na parede da prisão
- já passou mais um dia.
E rasgando mais um dia, o futuro livre de ti torna-se mais perto.
Todos os dias, sem nunca te esquecer,
apago-te a sombra dos dias que nunca vivemos.
E de página rasgada em página rasgada, espero pelo dia em que o caderno acabe e eu me esqueça, finalmente, de ti.

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