Tremiam-me as pernas! Tentei disfarcar, lançando os calcanhares no ritmo da música (melosa) e ainda assim tremiam-me as pernas.
Abri o livro e forcei-me a aprender as relações entre a ciência e o império (a ferros, aprendi que foi o Cook que descobriu a cura para o escurbuto naquilo que todo o mundo conhece como sendo a tomada da Austrália). Virei-me de costas para a entrada para resistir ao constante levantar de olhos e espiulhar a porta.
Entretanto ele entra. Não é um homem bonito. Na verdade, ninguém levanta os olhos quando ele entra. Nem mesmo eu, antes forçosamente mas agora realmente interessada no assunto das relações da ciência com o patronato. Chega-se à mesa como se o dia 1 de Novembro (dos mortos, portanto) tivesse sido ontem. Como se eu não tivesse acabado de fazer um desvio de mais de 100km para beber a água das pedras.
- Então? Estás aqui há muito tempo? Que tomas? Só? (e eu com vontade de dizer e já nem as águas passam, as pernas ainda tremem).
Pede um cerveja preta e começa a falar e, de facto, incrivelmente, é 1 de Novembro, nenhuma hora passou desde que nos sentamos 6 horas seguidas numa varanda que já não existe. As pernas já não me tremem, já me inclino para a frente entusiasmada com as histórias que deitamos na mesa.
Ainda assim, olhamos os dois de forma contínua a marina, os barcos, podia contar-lhe mas não contei que ainda à pouco passou ali um corvo marinho, falamos contamos rimos e muito raramente tiramos os olhos dos barcos. Tirar os olhos dos barcos era ouvir as vozes a fraquejar e hoje era dia de não o fazer.
À partida já era certo que tínhamos 1 hora. O gato tinha consulta no veterinário para a vacina anual (eu não resisto e assumo que estou ainda convencida, tendo lido vários estudo americanos e depois de vários anos de prática clínica, que a vacinação anual dos gatos de interior não só é desnecessária como é dos factores que mais contribui para as Insuficiências Renais Crónicas via deposição glomerulo-nefrular de complexo anticorpo-antigénio - não se preocupem caros leitores, não usei estas palavras, que não estava em disposição de me armar mas muito mais de me defender). E 1 hora, toda a gente sabe que é coisa para durar menos de 15 minutos, quando uma pessoa está bem. E nós estavamos bem - olhos pousados nos barcos a discutir futuros mais próximos e as malignidades do marketing digital.
É claro que em menos de 7 minutos e meio o nosso tempo tinha acabado. O telefone dele toca - já? ainda estou aqui, no Skipper. Achas que consegues pôr o gato na caixa? Consegues? Se não conseguires eu vou aí ter. Consegues? Óptimo! Apanha-me aqui.
O tabu a cair na mesa. Sim, a mulher, que até à data podíamos (sim, podíamos - ele e eu, dentro das nossas conversas) ignorar acabou de entrar na sala, ainda não fisicamente (lá chegaremos) mas enquanto entidade real, quase um those we don't speak of and now we do. Na boa. Juro às alminhas, na boa. Afinal de contas, não era novidade para ninguém, era só um dos muitos assuntos que ainda não falamos.
Relaxado, vira-se para mim e talvez pela primeira vez naquilo que pareceram 3 minutos olhou-me nos olhos e disse que o gato é tramado de meter na caixa mas assim temos mais 5 minutos. E continuamos a falar como se minutos antes não estivéssemos a evitar olhares pousando-os nos barcos.
A Catarina entrou, foi-me apresentada - é simpática, rimos mais 5 minutos e fomos embora. Eles tinham a consulta e eu tinha de tentar perceber o que é que tinha acabado de acontecer.
Antes de nos despedirmos a Catarina voltou a insistir - tens a certeza que não queres jantar connosco?
Entrei no carro e cantei pulmões afora até chegar a Lisboa e juro-vos que nunca me senti tão livre na vida.