quinta-feira, janeiro 28

Help are a música que tocava. Não eram os Beatles, infelizmente. Era uma versão sofrida apropriada ao contentor frente à marina. Por mais que tente diminuir a história (via espaço físico e sonoro, sem falar do discurso retórico de que é só um café entre 2 pessoas com empatia, uma das quais - por azar não sou eu - é casada) tremiam-me as pernas.
Tremiam-me as pernas! Tentei disfarcar, lançando os calcanhares no ritmo da música (melosa) e ainda assim tremiam-me as pernas.
Abri o livro e forcei-me a aprender as relações entre a ciência e o império (a ferros, aprendi que foi o Cook que descobriu a cura para o escurbuto naquilo que todo o mundo conhece como sendo a tomada da Austrália). Virei-me de costas para a entrada para resistir ao constante levantar de olhos e espiulhar a porta.
Entretanto ele entra. Não é um homem bonito. Na verdade, ninguém levanta os olhos quando ele entra. Nem mesmo eu, antes forçosamente mas agora realmente interessada no assunto das relações da ciência com o patronato. Chega-se à mesa como se o dia 1 de Novembro (dos mortos, portanto) tivesse sido ontem. Como se eu não tivesse acabado de fazer um desvio de mais de 100km para beber a água das pedras.
- Então?  Estás aqui há muito tempo? Que tomas? Só? (e eu com vontade de dizer e já nem as águas passam, as pernas ainda tremem).
Pede um cerveja preta e começa a falar e, de facto, incrivelmente,  é 1 de Novembro, nenhuma hora passou desde que nos sentamos 6 horas seguidas numa varanda que já não existe. As pernas já não me tremem, já me inclino para a frente entusiasmada com as histórias que deitamos na mesa.
Ainda assim, olhamos os dois de forma contínua a marina, os barcos, podia contar-lhe mas não contei que ainda à pouco passou ali um corvo marinho, falamos contamos rimos e muito raramente tiramos os olhos dos barcos. Tirar os olhos dos barcos era ouvir as vozes a fraquejar e hoje era dia de não o fazer.
À partida já era certo que tínhamos 1 hora. O gato tinha consulta no veterinário para a vacina anual (eu não resisto e assumo que estou ainda convencida, tendo lido vários estudo americanos e depois de vários anos de prática clínica,  que a vacinação anual dos gatos de interior não só é desnecessária como é dos factores que mais contribui para as Insuficiências Renais Crónicas via deposição glomerulo-nefrular de complexo anticorpo-antigénio - não se preocupem caros leitores, não usei estas palavras, que não estava em disposição de me armar mas muito mais de me defender). E 1 hora, toda a gente sabe que é coisa para durar menos de 15 minutos, quando uma pessoa está bem. E nós estavamos bem - olhos pousados nos barcos a discutir futuros mais próximos e as malignidades do marketing digital.
É claro que em menos de 7 minutos e meio o nosso tempo tinha acabado.  O telefone dele toca - já? ainda estou aqui, no Skipper. Achas que consegues pôr o gato na caixa? Consegues? Se não conseguires eu vou aí ter. Consegues? Óptimo! Apanha-me aqui.
O tabu a cair na mesa. Sim, a mulher, que até à data podíamos (sim, podíamos - ele e eu, dentro das nossas conversas) ignorar acabou de entrar na sala, ainda não fisicamente (lá chegaremos) mas enquanto entidade real, quase um those we don't speak of and now we do. Na boa. Juro às alminhas, na boa. Afinal de contas, não era novidade para ninguém,  era só um dos muitos assuntos que ainda não falamos.
Relaxado, vira-se para mim e talvez pela primeira vez naquilo que pareceram 3 minutos olhou-me nos olhos e disse que o gato é tramado de meter na caixa mas assim temos mais 5 minutos. E continuamos a falar como se minutos antes não estivéssemos a evitar olhares pousando-os nos barcos.
A Catarina entrou,  foi-me apresentada - é simpática, rimos mais 5 minutos e fomos embora. Eles tinham a consulta e eu tinha de tentar perceber o que é que tinha acabado de acontecer.
Antes de nos despedirmos a Catarina voltou a insistir - tens a certeza que não queres jantar connosco?
Entrei no carro e cantei pulmões afora até chegar a Lisboa e juro-vos que nunca me senti tão livre na vida.

terça-feira, janeiro 19

Amanhã,  cedo (para quem não tem horas para acordar) dou uma cambalhota. Adoro, desde os 10 anos, dar cambalhotas. Começa-se de pé, dobra-se ligeiramente os joelhos, lançam-se os braços para a frente, mãos firmes atentas no chão (ainda longe, na expectativa) e atiramo-nos de cabeça - há que lembrar que já fomos bichos de conta, o medo causa sempre um frio na barriga, enroscar é preciso! Ainda assim é de cabeça. Como o mergulho que aprendi anos antes de fazer ginástica, quando fazia natação - de cabeça! atira-te! sem medo! e se antes foi na água e agora é no chão é só porque cresceste! Pior! Depois das cambalhotas vieram os mortais, os mortais encarpados, com pirueta, salta! força nos joelhos, consegues pirueta e meia, voa! A minha mãe religiosamente falhava as exibições (nunca falhava os recitais onde eu falhava o ataque ao piano), nunca me quis ver voar que isso não é de gente e era quase certo que um dia havia de bater com os dentes e de dentes no piano nunca ninguém morreu.  Nunca dei com os dentes do chão - claramente estamos a falar de sorte, e voou em continuo ha mais de mil anos.
Aos 12, para além da poesia, dos romances, das histórias, já me lançava feita louca em cambalhotas, mortais, mergulhos para a piscina (da prancha mais alta) e agora queriam-me quieta?

Amanhã,  cedo, dou mais uma cambalhota e termino com os braços no ar, pés assentes na terra, firme, costas direitas, como manda a etiqueta da ginástica. E com sorriso na cara, depois de tudo baralhado, pernas no ar, e a certeza de que isto de baralhar tudo de novo é só a delícia de nos deixarmos enrolar nas ondas do mar.

segunda-feira, janeiro 11

As memórias da tua ausência fui eu que as inventei. E mais, a tua personagem nos meus dias, as vezes que nunca nos sentamos a comer peixe à beira mar, os concertos nos quais nunca acidentalmente nos cruzamos, os poemas e os livros que ainda e talvez nunca partilharemos, é tudo uma decisão  minha de ser feliz sem te conhecer.
Por outro lado, levares-me no bolso até à Índia e sentares-me junto ao Ganges ou em silêncio  me deixares meditar num templo a Shiva, aqueles 3 minutos por dia em que me depositas um beijo ou a esperança de um bom futuro, essas tuas memórias da minha ausência nos teus dias, és tu, caríssimo, que as inventas.
E mesmo que cada um em seu canto, eu na Galiza e tu em Goa, mesmo que parvos, nós os dois temos um espaço que é só nosso e que só por azar ou graça divina havemos de nos encontrar nesta coisa que é a vida real e assim, complicar ainda mais a vida.

Mas o que eu gostava mesmo, era não  ter de te de contar estas coisas a ti, que me és tão  profusamente distante e ao mesmo tempo como unha. Poder não  querer contar-te este parágrafo  de livro, não  to enviar electronicamente até aos teus dias, tão  distantes dos meus. Queria que não  fosse contigo que eu quisesse falar, querer contar isto a um dos meus 13 amigos com quem passei os últimos  2 dias e o virar de mais um ano, mas só por mania (ou será mau hábito) a tua ausência é-me deliciosamente próxima e tivesse eu coragem acordar-te-ia agora mesmo 8 da manhã, agora que aqui quase 3 da manhã foi toda a gente dormir só para te dizer que aqui já foram todos dormir e que também eu estou pronta. Abandono-me ao mundo dos sonhos e assim tens tu cerca de 8h para me passeares por esse lado - deixo-te a chave para os meus sonhos debaixo do tapete, está um pouco empenada pela falta de prática, tens de puxar a maçaneta para a esquerda enquanto rodas a chave e dizer baixinho 'this is a man's world' 

domingo, janeiro 10

Os concertos de Dead Combo são  sempre uma delícia. Têm pés descalços  e barcos que nunca encontraram bom porto, têm batom borratado e dores de alma, têm Argentina, Lisboa, Spaguetti-Texas e Cabo Verde, mil mulheres com maquilhagem em excesso, cenas de burlesco, meias de vidro rasgadas, vielas, becos, toalhas aos quadrados com nódoas de vinho e um intenso cheiro a cigarros mal apagados. Têm cheiro a bifanas de beira de estrada e muamba, engates de fim-de-noite, olheiras, dores de um país que já foi e ainda é, embora só às escuras. Têm aquele sabor único a saudade, o travo amargo de se ser Português. Têm o som de gatos a roçarem-se nas pernas.
Hoje, sem vergonha, como se fosse só para mim, começaram com o 'e esse olhar que era só teu' (juro que pela primeira vez em quase 2 anos resisti à lágrima - haverá sempre sons que nos levam para sítios onde já não moramos) e acabaram com a 'lisboa mulata'. Impecáveis.
Pelo meio tiveram 'fado a pilhas' e não é difícil ser-se feliz assim