Amanhã, cedo (para quem não tem horas para acordar) dou uma cambalhota. Adoro, desde os 10 anos, dar cambalhotas. Começa-se de pé, dobra-se ligeiramente os joelhos, lançam-se os braços para a frente, mãos firmes atentas no chão (ainda longe, na expectativa) e atiramo-nos de cabeça - há que lembrar que já fomos bichos de conta, o medo causa sempre um frio na barriga, enroscar é preciso! Ainda assim é de cabeça. Como o mergulho que aprendi anos antes de fazer ginástica, quando fazia natação - de cabeça! atira-te! sem medo! e se antes foi na água e agora é no chão é só porque cresceste! Pior! Depois das cambalhotas vieram os mortais, os mortais encarpados, com pirueta, salta! força nos joelhos, consegues pirueta e meia, voa! A minha mãe religiosamente falhava as exibições (nunca falhava os recitais onde eu falhava o ataque ao piano), nunca me quis ver voar que isso não é de gente e era quase certo que um dia havia de bater com os dentes e de dentes no piano nunca ninguém morreu. Nunca dei com os dentes do chão - claramente estamos a falar de sorte, e voou em continuo ha mais de mil anos.
Aos 12, para além da poesia, dos romances, das histórias, já me lançava feita louca em cambalhotas, mortais, mergulhos para a piscina (da prancha mais alta) e agora queriam-me quieta?
Amanhã, cedo, dou mais uma cambalhota e termino com os braços no ar, pés assentes na terra, firme, costas direitas, como manda a etiqueta da ginástica. E com sorriso na cara, depois de tudo baralhado, pernas no ar, e a certeza de que isto de baralhar tudo de novo é só a delícia de nos deixarmos enrolar nas ondas do mar.
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