sábado, janeiro 31

A vida é uma complexidade de conexões que apenas o monopólio das informações pessoais detidas por entidades e empresas poderia explicar.
Somos todos a favor da cultura, do teatro, do cinema de autor vs Hollywood,  das pequenas e alternativas bandas, dos eventos no parque, yoga para todos. E nunca vamos. Advocamos, nós classe média jovem (mais ou menos), que o estado é o garante da educação e cultura e quando ela acontece, sacudimo-la para debaixo do tapete porque bom bom é ficar a ressacar no sofá e a dizer mal da programação da RTP 1.
Poder ser que eu seja sortuda e por isso esteja aqui a falar de boca cheia, mas esta semana, na Segunda, fui ao Theatro Circo ver um filme francês por 3,5€, na Quinta fui com bilhete oferecido ver o 'Som e a Fúria' do Faulkner pelo Teatromosca, amanhã tenho bilhete duplo para o Mário Laginha e não sei como me vou amanhar para dar um salto a Ponte de Lima para ver o Cão Danado no Domingo.
Eu sei que não sou a maioria, sei que faço parte da uma elite sortuda, mas a verdade é que na maioria das vezes tenho bilhetes duplos e vou sozinha a salas vazias onde a cultura de alto nível deste país são oferecidas a públicos que vão por favor,  ou para aparecer na revista local.
Sim, o google e o facebook fazem-me o favor de passar a palavra de que gosto destas coisas, o blogger também cumpre a sua função em explicar que às vezes me dói ficar sozinha em casa, talvez alguns amigos comentem nas minhas costas a aparente calma solidão que trago nos ombros,  a todos,  embora que custe a devassa da privacidade (juro que gostava de saber ser ermita com estilo), vos agradeço.
Tenho para mim (e posso estar redondamente errada) que da vida levamos aquilo que aprendemos,  os sabores, os cheiros, as ideias e todos os contrapontos. Comigo levarei tudo o que conseguir emborcar, dos vinhos (é o mais fácil,  há sempre uma garrafa cá em casa) aos poços que são os museus e os teatros do mundo.
Já dizia a Tiny Ruins - 'nobody feels old at the museum, nobody feels cold at the winter gardens'


sábado, janeiro 17

Incrível o número de músicas que já se escreveram sobre mim, sobre a minha vida. O Beck, o Nick Cave, o Jarvis Cocker, os Air, a Feist, gente que eu pensava que nem sabia da minha existência.  Ter-se-ão sentado na mesa atrás da minha no café? Serão eles os anónimos leitores deste blog? Ou exponho tudo em demasia no tumblr?  E as histórias que nunca contei a ninguém?, as angústias, os segredos, os medos, onde os foram desencantar para os voltarem a contar assim ao meu ouvido?  E o Chico?, como inventou ele a minha vida toda mesmo antes de eu ter nascido?
E quem lhes disse, a eles todos, que podiam escarrapachar tudo por cima de meia dúzia de acordes e cantá-las ao mundo?
É que nem estou preocupada com os royalties! É mesmo uma questão de devasa da vida privada. Tivessem ao menos a decência de me convidar para um copo, tocar agora a campainha,  cabelo molhado, camisa meio colada da chuva fria que cai lá fora (o Chet Baker insiste agora mesmo, outra vez - tantas vezes - 'Everything happens to me'), partilharia de bom grado esta garrafa de tinto que acabei de abrir. Olhar-me nos olhos, aquecer-me as mãos,  não lhes ficava nada mal sentarem-se ao meu lado no sofá enquanto eu vejo um BBC vida selvagem. Afinal, quem não gosta de embondeiros e lemures de Madagáscar? Tenho alguns episódios gravados e aa delícias da natureza sabem melhor a dois. Quem sabe se não daria uma música bacana, melhor até do que aquela outra meio básica do Discovery Channel.
Pensem lá nisso, meus queridos de vozes meladas e guitarra em punho. É o 5ºdto. Prometo não avançar com nenhuma acção judicial nem chamar os paparazzi. É só o justo acerto de contas. Isso ou umas musiquinhas felizes a fazer sentido nos meus dias.

quinta-feira, janeiro 15

2015 é outra coisa.

Sobre o dia de hoje, surpreendentemente, não há nada a dizer. As efemérides são mesmo assim. 2015 não é 2014 e essa coisa do hoje faz um ano que não tem jeito nenhum. Olhando a lista de efemérides,   os 14 de Janeiro nunca foram nada de jeito - sim, foi o primeiro dia de Jogos Olímpicos de Inverno em 1952 ou início do 2º mandato da Indira Gandhi. Diazinho insignificante,  tendo em conta as maravilhas que já ocorreram neste mundo.
Seria igualmente insignificante para mim, não tivesse eu hoje pendurado o meu quadro preferido na parede e feito do 14/01 o dia do 'the woman who couldn't live with her faulty heart'

quarta-feira, janeiro 14

Só para que saibam, sou gaja para ter super-poderes e, ainda para mais, comi espinafres ao jantar todos os dias desta semana. No entanto, nada a temer, bandidos deste mundo, tenciono ir para a cama cedo.
Poderão dizer - ai! Isso é do vinho! E eu não digo que não. Também as bruxas sabiam das melhores ervas para a clarividência, e eu hoje pus para trás das costas a crónica falta de dinheiro e comprei um melhorzinho mas também não perdi a cabeça porque, como diriam os quais, tortelini ou couscous (neste caso tagliatelli com cogumelos e espinafres) não pedem um tremendo excesso.

O que faz a diferença, se alguma coisa faz a diferença, é o jejum.



Mal cheguei a casa, vinda do ginásio (há alguns dias tive um momento triste em que me apercebi que sou velha porque que tive da googlar o meu ginásio e pensei ‘já não é assim que se chamam aqueles sítios onde se sua e se corre e se sofre por um corpo jeitoso’ e só depois de 1 ou 3 minutos me lembrei que é fitness center) e pronto, perdi-me (perdoem-me caros leitores, é do vinho, senhores, é do vinho, é da coisa que eu mais adorava!). Voltando ao fio condutor, cheguei a casa do ginásio e cometi a grande asneira (oiçam-me miúdos, aprendam com o erro dos outros, não se obriguem aos mesmos erros) de abrir a garrafa de vinho e pôr os Artic Monkeys a tocar aos berros mesmo antes de comer alguma coisa, mesmo antes de tomar banho - asneira! Absolutamente errado! Para além de uma falsa sensação de bem estar profunda - o Alex Turner a dizer aos berros na sala ‘I wanna be your vacuum cleaner’, eis que chega a clarividência! E a clarividência, embora seja um super-poder altamente apetecível para a maioria das pessoas (mentira, que a maioria das pessoas nem sabe o que isso é) é coisa para gente grande e eu, pequena do alto do meu metro e cinquenta e sete, ainda estou aqui às voltas a ver como digiro a coisa.

domingo, janeiro 11

Juro que o que vou levar desta vida (e quase de certeza, é o que trouxe doutras) são as conversas à mesa de café

sábado, janeiro 3

Acerca do outras cartas ou o amor inventado que por sorte me calhou em zapping, rara coisa, lembro-me de que o que procuro é com quem partilhar o meu sossego. Ou este documentário.

a tua voz

diz mais uma mensagem. é assim - A tua voz. ponto. como se ele soubesse que eu vou pegar nela e fazer um canto.
é grave a minha voz. ainda pior hoje, depois de dias de festa, frio, cigarros e álcool. é grave mesmo quando o discurso é ligeiro. houve tempos em que pensei que era bonita apesar de grave. que tinha o peso de quem não diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça. a minha irmã goza que é a voz sexy e até poderia ser se eu fosse a Monica Belucci ou se pelo menos usasse sapatos de tacão, mas saída de coisa pequena não me parece tão bem. ainda assim, não é feia. é só algo pesada.
nós nunca conhecemos a nossa própria voz. não podemos ouvi-la como os outros. lembro-me bem da primeira vez que ouvi a minha voz gravada - fiquei realmente triste, pensei que era outra coisa. pensei que era mais leve, nunca me tinha ouvido o sotaque, nunca tinha reparado que tem um quê de ruído de fundo, um ligeiro sibilar dos esses, uma estática baixinha que me desagradou. depois passou-me. fiquei feliz por não me soar assim. voltei a cantar no banho como se fosse cantora de jazz ou de de bossa nova, fugi às fífias contornando os agudos com colheres de mel.
dou frequentemente concertos de chuveiro. o barulho da água a cair nos ombros disfarça na perfeição a estática e o público não reclama. o Adolfo mantém-se do lado de fora da porta, encostado, à espera de poder abraçar a dona. presumo que não desgoste. houve tempos em que cantava para outro público, de 2 pernas, houve tempos em que cantava a 2 vozes o Chico Buarque enquanto cozinhávamos. eu achava aquilo muito bonito. era o tempo dos aquários.
hoje sou cantora em bar mal frequentado, ou de karaoke, mas não tem mal nenhum. há dias em que até tenho energia para me bater palmas e o gato fica a olhar com ar de parvo. há dias em que até grito do público (dou um saltinho para o lado) canta mais uma rapariga, canta aquela maluca (dou o saltinho outra vez) e lá me faço a vontade. pode ser o Folhetim? ou preferem o longo drama do Diogo Soares? a Balada da Rita em tom de receita para mim mesmo?
não sei a letra de nenhuma música feliz. ando já há algum tempo à espera que alguém me ensine, alguém me mande disquinho de saltar pela sala, mas trago desde pequena o coração pintado de azul melancolia e os meus ouvidos só sabem decorar aquilo. sei de cor 423 músicas sobre corações partidos, cidades em ruínas, viagens de solidão em autocarros Greyhound, músicas tocadas a piano que encheriam de pó e teias de aranha as casas mais felizes.
tive um amor que era DJ e que quando chegava o final da noite me pedia para tomar conta do computador e acabar com aquilo - tens tanto jeito para fim de festa. sabes acabar com doçura, acalmar os públicos. tinha razão. sou boa para arrumar os copos, voz grave, mãos de cafoné, musiquinha de coração partido, passos pequeninos, rodopios lentos de quem já bebeu demasiado para saltos pela pista. e não tem mal nenhum que não podemos ser todos foguetes e quem acha que só os tristes é que ouvem Blues é porque nunca tiveram paz no coração.