sábado, janeiro 3

a tua voz

diz mais uma mensagem. é assim - A tua voz. ponto. como se ele soubesse que eu vou pegar nela e fazer um canto.
é grave a minha voz. ainda pior hoje, depois de dias de festa, frio, cigarros e álcool. é grave mesmo quando o discurso é ligeiro. houve tempos em que pensei que era bonita apesar de grave. que tinha o peso de quem não diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça. a minha irmã goza que é a voz sexy e até poderia ser se eu fosse a Monica Belucci ou se pelo menos usasse sapatos de tacão, mas saída de coisa pequena não me parece tão bem. ainda assim, não é feia. é só algo pesada.
nós nunca conhecemos a nossa própria voz. não podemos ouvi-la como os outros. lembro-me bem da primeira vez que ouvi a minha voz gravada - fiquei realmente triste, pensei que era outra coisa. pensei que era mais leve, nunca me tinha ouvido o sotaque, nunca tinha reparado que tem um quê de ruído de fundo, um ligeiro sibilar dos esses, uma estática baixinha que me desagradou. depois passou-me. fiquei feliz por não me soar assim. voltei a cantar no banho como se fosse cantora de jazz ou de de bossa nova, fugi às fífias contornando os agudos com colheres de mel.
dou frequentemente concertos de chuveiro. o barulho da água a cair nos ombros disfarça na perfeição a estática e o público não reclama. o Adolfo mantém-se do lado de fora da porta, encostado, à espera de poder abraçar a dona. presumo que não desgoste. houve tempos em que cantava para outro público, de 2 pernas, houve tempos em que cantava a 2 vozes o Chico Buarque enquanto cozinhávamos. eu achava aquilo muito bonito. era o tempo dos aquários.
hoje sou cantora em bar mal frequentado, ou de karaoke, mas não tem mal nenhum. há dias em que até tenho energia para me bater palmas e o gato fica a olhar com ar de parvo. há dias em que até grito do público (dou um saltinho para o lado) canta mais uma rapariga, canta aquela maluca (dou o saltinho outra vez) e lá me faço a vontade. pode ser o Folhetim? ou preferem o longo drama do Diogo Soares? a Balada da Rita em tom de receita para mim mesmo?
não sei a letra de nenhuma música feliz. ando já há algum tempo à espera que alguém me ensine, alguém me mande disquinho de saltar pela sala, mas trago desde pequena o coração pintado de azul melancolia e os meus ouvidos só sabem decorar aquilo. sei de cor 423 músicas sobre corações partidos, cidades em ruínas, viagens de solidão em autocarros Greyhound, músicas tocadas a piano que encheriam de pó e teias de aranha as casas mais felizes.
tive um amor que era DJ e que quando chegava o final da noite me pedia para tomar conta do computador e acabar com aquilo - tens tanto jeito para fim de festa. sabes acabar com doçura, acalmar os públicos. tinha razão. sou boa para arrumar os copos, voz grave, mãos de cafoné, musiquinha de coração partido, passos pequeninos, rodopios lentos de quem já bebeu demasiado para saltos pela pista. e não tem mal nenhum que não podemos ser todos foguetes e quem acha que só os tristes é que ouvem Blues é porque nunca tiveram paz no coração.

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