sábado, julho 18

Viva a RTP2 e estes pacotes que nos permitem viver com uma semana de atraso



Triste é o cinema português ter de ser francês

sexta-feira, julho 17

Quem souber cozinhar nunca será infeliz

Por outro lado, não nos vale nada ter juízo na hora de ir ao supermercado. Não tenho em casa bolachas, natas, não compro bolos, nada de chocolates dos bons - só chocolate negro, sem amêndoas, sal marinho ou caramelo.  


Ainda assim, o gosto pela culinária dá cabo de tudo. 


Só para não ficar sozinha na coisa da gula, hoje dou em cozinheira (infelizmente dou quase todos os dias) e partilho a receita.

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Ingredientes (tudo coisas saudáveis):
- 1 maça verde
- 2cm3 de gengibre fresco ralado
- 2 colheres de sopa de aveia
- 1 colher de sopa de trigo sarraceno
- 4 nozes picadas
- 1+1/2 colher de sopa de açúcar
- 1 colher de sopa de manteiga
- 2 colheres de sopa de iogurte grego natural sem açúcar.

Numa frigideira,  bem quente,  alourar o trigo sarraceno com a aveia. Quando o trigo começar a estalar, reservar.
Juntar o gengibre à maçã cortada em cubos pequenos na frigideira e deixar alourar durante 2 minutos, em lume médio. Juntar 1 colher de açúcar e deixar caramelizar levemente.
Retirar a mistura para uma taça e sem limpar a frigideira,  juntar a manteiga. Quando estiver derretida,  juntar as nozes picadas e deixar alourar. Juntar a mistura da aveia com o trigo e misturar lentamente e juntar 1 colher de açúcar.  Deixar em lume forte, misturando sempre.
Juntar a mistura com a maçã e servir com o iogurte grego.

É um crime. Não há aqui nada de ingredientes pouco saudáveis,  nada de coisas esquisitas,  tudo simples e, mais que tudo, delicioso.

Coisas que eu tenho a menos do que o resto das pessoas:
- Medo

segunda-feira, julho 13

Na televisão (flat screen gigante herança de um divórcio, de um tempo em que raramente se via televisão mas em que as coisas se eram de oferta tinham de ser mesmo grandes) passa a novela. Sem som. A aparelhagem herdada (essa sim, boa por ser necessário, Marantz com colunas B&W, tudo comprado com cuidado e com a vontade de encher uma casa nova - estamos em 1975 - de bons sons, sem ostentação,  apenas um planeamento sério do que seria uma família altamente ligada ao ouvido) sintonizada numa outra, esta mais pobre, e mais nova, Philips,  mas que me deixa não só ouvir os vinis que durante anos implorei para não acabarem no lixo ou vendidos por atacado,  como tem ligação bluetooth (juro que só descobrir para que isto servia quando em pleno banho de imersão,  coisa que faço uma vez a cada 10 anos, apenas para confirmar que não é para mim - dedos moles, tonturas, aborrecimento (nunca mais inventam livros plastificados para adultos) - e pude, no deleite da banheira, mandar os The National tocarem o 'Reasonable Man', aos gritos pela casa) e como tal ao Spotify, toca a música que ainda me anima.
Hoje cheguei a casa às 7.30 e depois de preparar um gin (encontrei recentemente 2/4 de garrafa de gin (não me venham com com as história de que 2/4 é meia garrafa de gin porque 1/4 é de Bombay e o outro é de Gordons e eu sempre fui boa a matemática e sei que não se deve brincar com as unidades e 1/2kg de tomates mais 1/2kg de pepino nunca fez mais do que uma boa salada e 1kg de cousa nenhuma), com pepino (óbvio) e pôr um polvo a cozer (é sem água e até a cebola estar cozida), achei que valia a pena ligar a televisão,  bora ver as notícias e ver como vamos de Grécia,  eu helénica de nome e de alma. É verdade que já nem sequer me tenho em alta estima no que toca a este tipo de decisões,  mas hoje é só mesmo estúpido ouvir o enterro da Europa, os Schäuble e os
Dijsselbloem hão-de sempre dar cabo da minha hora de jantar e eu hoje decidi que ia comer salada de polvo, com pimento e cebola e tomate-coração-de-boi, e coentros, daquelas coisas que ninguém mais do norte do que o rio Minho pode ou deve destruir, deixo a televisão com a mania das grandezas a passar cores (novelas horas a fio, primeiro as trágicas europeias, depois as trágicas portuguesas, sempre mal encenadas, sempre com péssimos actores e falinhas mansas) enquanto abro um Lusitano, enquanto vejo o meu gato a babar para o polvo que arrefece e oiço isto.

quinta-feira, julho 9

Não vás ainda. Ainda há tempo. Acabei de fazer um chá de lucia-lima com limão e bem sabes que é muito melhor frio, tomado depois do sol se pôr na varanda. Aguenta mais um bocadinho, demora-te a fazer as malas, faz de conta que não encontras o passaporte (está na primeira gaveta da cómoda do escritório, junto às fotografias tipo passe que tiraste para o ginásio há 5 anos), senta-te a dobrar as camisolas todas como se não pudesses partir com tudo amarfanhado na mochila de campismo, descobre um cd perdido e não resistas a ouvi-lo uma última vez sentado no chão na minha aparelhagem. Entretanto o chá vai arrefecendo e eu vou fingindo-me ocupada, como se nada passasse, a cabeça a mil a inventar palavras que ainda não estejam gastas (eu sei que estão,  todas gastas), a ganhar coragem para te dizer que tens razão,  que as palavras parecem trapos, mas temos os silêncios todos e não há nada melhor do que os nossos silêncios mas que não quero que este seja de agora para sempre. Ganhar coragem para te dizer que hoje este silêncio está bem, enquanto o chá arrefece e tu vasculhas as gavetas e eu limpo o balcão da cozinha como se fosse a coisa mais normal do mundo e dizer-te também, em silêncio, que amanhã alguém escreverá um poema e este terá de ser dito em voz alta, da minha boca para os teus ouvidos ou da tua boca para os meus ouvidos e aí nascerão novas palavras e por isso não faz sentido que já não estejas aqui porque de certeza que ainda agora mesmo alguém está a escrever um poema para nós. Eu sei, o Eugénio morreu e  a Sophia morreu e até o Helberto Helder morreu sozinho desterrado na ilha, a reclamar do preço do gás, e já ninguém encena Shakespeare e ninguém fala das pedras do Torga,  mas pensa, o Fausto vai ao Avante este ano.  Em silêncio ganho coragem e ponho-me à porta do quarto e em silêncio, encostada à ombreira, enquanto guardas os sapatos que nunca usas, digo-te isto tudo e tu fechas o saco, olhas-me com tristeza e em silêncio dizes adeus. Em silêncio eu digo-te que o chá ainda não está frio, mas que posso juntar-lhe umas pedras de gelo e tu, quase em silêncio, deixas a chave junto à entrada e num silêncio longo fechas a porta.
Espero até ouvir a porta do prédio bater e murmuro baixinho até à próxima. O gato mia e diz já há meses que não bebe um copo de leite frio enquanto eu-me sirvo um copo de whisky.
Até à próxima

domingo, julho 5

É triste (e eu hoje não estou triste) - há exactamente um ano eu fui realmente feliz
□ recall
□ regret
■ remember
□ forget

sexta-feira, julho 3

E dos dedos nasceram flores que voaram tropegas no céu como pássaros

Dizes, sem saber do que falas mas com a sincera vontade de que uma palavra, mesmo que manca, cure o dia, ou o mês, ou o último ano e meio - 'não podes pôr o teu coração todo nas coisas. tens de saber guardá-lo.' E eu gostava, mãe,  de saber ser fria, deixar o coração no frigorífico,  na gaveta dos frescos, tirá-lo no final do dia, nas horas calmas em que o sol já se pôs mas ainda não é preciso acender a luz para se ler na varanda com um copo de vinho. Gostava, mãe,  de o trazer até esta mesa num prato preto de xisto, luzidio e baço ao mesmo tempo, e deixá-lo saborear a última luz e ver os autocarros a entrar e partir da cidade. E quando começar a ficar mais fresco, envolvê-lo em película aderente e guardá-lo de novo junto às favas e à posta de atum na gaveta do frigorífico.  Mas eu não sou assim, mãe.  Ao contrário da maioria, eu sem coração não sei ser nada. Sem coração não sei sequer fazer o jantar, não sei para que servem os lápis de cera ou as pernas, tropeço em mim própria e abro o armário 6 vezes até perceber que está frio e preciso de um casaco. Sem coração sou snob, armo-me em esperta,  armo confusão sobre a guerra israelo-palestiniana usando chavões sem saber nada sobre o assunto, piso flores nos canteiros e puxo o rabo ao gato só para mostrar que posso e quando vou ver o coração ao frigorífico está lá uma coisa murcha como as favas que a minha companheira de casa teve vergonha de roubar, não obstante as crescentes manchas e partes moles. Coração amassado e cor de vinho, arzinho nada saudável, pegajoso, o cheiro a sangue putrefacto - alguém me arranje um frasco com formol! Achas melhor, mãe? Aquela cor que já não brilha no prato de xisto, nem se vê na escuridão do cenário. Talvez não ande triste. Talvez possa sair, botar mini-saia, baton vermelho e dançar a noite toda, mas não nascerão flores dos meus dedos, mãe,  e nunca poderei ter a tristeza de as ver voar tropegas no céu como pássaros, para nunca mais voltarem.
Não devias ter-me deixado começar as leituras pela poesia.  Se tivesses tido mais calma, não tivesses desesperado com esta que não gosta de ler, se me tivesses deixado andar de fato de treino o tempo todo, subir às arvores na Foz e abraçar os cães até ser mordida, deixa lá se não gosta de ler, partir dedos à saída da praia, se não tivesses juntado a esse já eminente caos o Eugénio de Andrade e a Sophia de Melo Breyner, talvez o meu coração fosse músculo mais como o esternocleidomastoideu, estica encolhe, ombros para cima, cabeça para o lado, nada interessa para nada. Estragaste-me, como agora se estragam as crianças comprando-lhes tudo nas grandes superfícies comerciais. Com a angústia (eu sei mãe  suspeito que ser mãe seja uma angustia só) de falhar - esta não gosta de ler - viraste-te do avesso mas não deverias ter-me atirado assim tão nova, nem 10 anos ainda  para os poemas e as flores e os pássaros e as esculturas de pedra que bebem da chuva e as florestas e as fadas. A culpa é toda tua, mãe,  e por isso te agradeço.  Mesmo que hoje possa chorar e amanhã também,  prefiro sempre ver os pássaros soltos pelo céu, ainda que saiba que nunca me vão pousar na mão. 
Um beijo

quinta-feira, julho 2

Obrigada a todos os que fazem da minha vida a maravilha da anormalidade! A minha companheira de casa acha que isto é digno de novela e tive um hóspede que me dizia todos os dias, durante 9 meses (ele há hóspedes assim, que se fazem família) que a minha vida dava uma sitcom e que seria altamente.
Esta semana já fui ao cinema,  a um fino cocktail,  já empurrei um carro de vestido numa subida (obrigada rapazes, ainda há gente gentil neste mundo e ver 4 miúdos saltar do carro quase em andamento para salvar 2 raparigas em apuros é só lindo!), já fui à bomba de gasolina de garrafão na mão comprar 5l da dita, amanhã cozinho e vou ao teatro e sexta é dia de jazz no pátio.
Só não vive quem não quer.
Hoje durmo com cheiro a gasolina nas mãos,  o gato não gosta mas é o preço a pagar por não ter a vida normal que às vezes queria ter. A mim cheira-me a dias cheios, e dificilmente poderia cheirar melhor