quinta-feira, julho 9

Não vás ainda. Ainda há tempo. Acabei de fazer um chá de lucia-lima com limão e bem sabes que é muito melhor frio, tomado depois do sol se pôr na varanda. Aguenta mais um bocadinho, demora-te a fazer as malas, faz de conta que não encontras o passaporte (está na primeira gaveta da cómoda do escritório, junto às fotografias tipo passe que tiraste para o ginásio há 5 anos), senta-te a dobrar as camisolas todas como se não pudesses partir com tudo amarfanhado na mochila de campismo, descobre um cd perdido e não resistas a ouvi-lo uma última vez sentado no chão na minha aparelhagem. Entretanto o chá vai arrefecendo e eu vou fingindo-me ocupada, como se nada passasse, a cabeça a mil a inventar palavras que ainda não estejam gastas (eu sei que estão,  todas gastas), a ganhar coragem para te dizer que tens razão,  que as palavras parecem trapos, mas temos os silêncios todos e não há nada melhor do que os nossos silêncios mas que não quero que este seja de agora para sempre. Ganhar coragem para te dizer que hoje este silêncio está bem, enquanto o chá arrefece e tu vasculhas as gavetas e eu limpo o balcão da cozinha como se fosse a coisa mais normal do mundo e dizer-te também, em silêncio, que amanhã alguém escreverá um poema e este terá de ser dito em voz alta, da minha boca para os teus ouvidos ou da tua boca para os meus ouvidos e aí nascerão novas palavras e por isso não faz sentido que já não estejas aqui porque de certeza que ainda agora mesmo alguém está a escrever um poema para nós. Eu sei, o Eugénio morreu e  a Sophia morreu e até o Helberto Helder morreu sozinho desterrado na ilha, a reclamar do preço do gás, e já ninguém encena Shakespeare e ninguém fala das pedras do Torga,  mas pensa, o Fausto vai ao Avante este ano.  Em silêncio ganho coragem e ponho-me à porta do quarto e em silêncio, encostada à ombreira, enquanto guardas os sapatos que nunca usas, digo-te isto tudo e tu fechas o saco, olhas-me com tristeza e em silêncio dizes adeus. Em silêncio eu digo-te que o chá ainda não está frio, mas que posso juntar-lhe umas pedras de gelo e tu, quase em silêncio, deixas a chave junto à entrada e num silêncio longo fechas a porta.
Espero até ouvir a porta do prédio bater e murmuro baixinho até à próxima. O gato mia e diz já há meses que não bebe um copo de leite frio enquanto eu-me sirvo um copo de whisky.
Até à próxima

Sem comentários: