Dizes, sem saber do que falas mas com a sincera vontade de que uma palavra, mesmo que manca, cure o dia, ou o mês, ou o último ano e meio - 'não podes pôr o teu coração todo nas coisas. tens de saber guardá-lo.' E eu gostava, mãe, de saber ser fria, deixar o coração no frigorífico, na gaveta dos frescos, tirá-lo no final do dia, nas horas calmas em que o sol já se pôs mas ainda não é preciso acender a luz para se ler na varanda com um copo de vinho. Gostava, mãe, de o trazer até esta mesa num prato preto de xisto, luzidio e baço ao mesmo tempo, e deixá-lo saborear a última luz e ver os autocarros a entrar e partir da cidade. E quando começar a ficar mais fresco, envolvê-lo em película aderente e guardá-lo de novo junto às favas e à posta de atum na gaveta do frigorífico. Mas eu não sou assim, mãe. Ao contrário da maioria, eu sem coração não sei ser nada. Sem coração não sei sequer fazer o jantar, não sei para que servem os lápis de cera ou as pernas, tropeço em mim própria e abro o armário 6 vezes até perceber que está frio e preciso de um casaco. Sem coração sou snob, armo-me em esperta, armo confusão sobre a guerra israelo-palestiniana usando chavões sem saber nada sobre o assunto, piso flores nos canteiros e puxo o rabo ao gato só para mostrar que posso e quando vou ver o coração ao frigorífico está lá uma coisa murcha como as favas que a minha companheira de casa teve vergonha de roubar, não obstante as crescentes manchas e partes moles. Coração amassado e cor de vinho, arzinho nada saudável, pegajoso, o cheiro a sangue putrefacto - alguém me arranje um frasco com formol! Achas melhor, mãe? Aquela cor que já não brilha no prato de xisto, nem se vê na escuridão do cenário. Talvez não ande triste. Talvez possa sair, botar mini-saia, baton vermelho e dançar a noite toda, mas não nascerão flores dos meus dedos, mãe, e nunca poderei ter a tristeza de as ver voar tropegas no céu como pássaros, para nunca mais voltarem.
Não devias ter-me deixado começar as leituras pela poesia. Se tivesses tido mais calma, não tivesses desesperado com esta que não gosta de ler, se me tivesses deixado andar de fato de treino o tempo todo, subir às arvores na Foz e abraçar os cães até ser mordida, deixa lá se não gosta de ler, partir dedos à saída da praia, se não tivesses juntado a esse já eminente caos o Eugénio de Andrade e a Sophia de Melo Breyner, talvez o meu coração fosse músculo mais como o esternocleidomastoideu, estica encolhe, ombros para cima, cabeça para o lado, nada interessa para nada. Estragaste-me, como agora se estragam as crianças comprando-lhes tudo nas grandes superfícies comerciais. Com a angústia (eu sei mãe suspeito que ser mãe seja uma angustia só) de falhar - esta não gosta de ler - viraste-te do avesso mas não deverias ter-me atirado assim tão nova, nem 10 anos ainda para os poemas e as flores e os pássaros e as esculturas de pedra que bebem da chuva e as florestas e as fadas. A culpa é toda tua, mãe, e por isso te agradeço. Mesmo que hoje possa chorar e amanhã também, prefiro sempre ver os pássaros soltos pelo céu, ainda que saiba que nunca me vão pousar na mão.
Um beijo
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