terça-feira, setembro 27

À poesia contra a qual tantas vezes reclamei ter-me mal-educado, lixando à brava a minha capacidade de ter 10 dedos de pés (e plantas) presas ao chão, mesmo quando teimo em andar descalça,  culpada maior desta minha vida aérea com os olhos pousados entre as flores e o eterno copo de vinho, ignorando tudo o que não cabe num poema e para que se saiba, só li O'Neill que contém todas as coisas mundanas, e o Helberto Helder que tem até as contas do gás muito mais tarde, quando a mania estava tomada, a essa poesia, eu hoje, de joelhos no chão agradeço.
E mais, quem se atrever a dizer que a poesia não sabe para nada terá de se ver comigo. Sem dó nem piedade, argumentarei que há dias (claro que há) que temos de partilhar com perfeitos anormais e quer o bom senso e a economia de esforço (nunca mudarás um perfeito anormal, na pior das hipóteses, o perfeito anormal muda-te a ti, trazendo um azedo à boca e rugas à testa e uma profunda desilusão na espécia humana) que tenhas um mundo alternativo, povoado de mares calmos e cálidos dedos e ondas de cabelo e platónicos amores e ninfas que te abracem e que sussurrem ao ouvido palavras loucas ouvidos moucos do quadro da Iva Viana que tens na sala.
Nem sempre (ou talvez raramente, sou fraca pessoa para o atestar já que quase nunca lá vou) a realidade é o melhor sítio para se estar.

quinta-feira, setembro 22

Continua tudo na mesma. Não se preocupem. A minha mãe continua a dizer que eu sou maluca e eu a responder que maluco é o avô e em 96 anos ainda ninguém o apanhou e que já me informei que já não há internamentos compulsivos e que se houvesse, já tinha tudo combinado com a tia Lena para ela ir lá salvar-me. Continuo a cantar pior que as minhas irmãs e não me importo muito. Continua tudo na mesma.
Continua a haver muitos bons livros para ler, continua-se a fazer boa música para ouvir, bons filmes para ver, a comida nunca me soube melhor e se 2005 foi um excelente ano para o vinho nacional posso jurar que não me têm faltado bons copos. Continuo a não ter dor de costas (consta que é um problema comum a quem continua em teimar em fazer anos), a chegar com as mãos aos pés e as rugas ainda não me chateiam de manhã. Continuo a não gostar de faneca. Tudo na mesma. No pasa nada!
Continuo tão curiosa como quando tinha 5 anos, a meter-me no mesmo número de alhadas mensais e na mesmíssima espera que alguém invente o teletransporte. Continuo a achar que o importante são os pormenores e que sou demasiado pequena para as grandes questões do mundo.
Continuo a ter excelente gosto para os amigos e juro a pés juntos que não me têm faltado nem nas horas más, nem nas horas boas, nem sequer nas horas maizómenos. O meu gato continua a ser mais giro do que o dos outros. Tudo exactamente na mesma. A minha família é, como sempre foi, a melhor do mundo.  Sem tirar nem pôr.
E continuo sem perceber porque é que tanta gente manda mensagens, toques, telefonemas, telegramas cantados, whatsaps, insta-hearts, cartas, mensagens telepáticas, sinais de fumo e estrelas cadentes ao 20 de todos os meses de Setembro.
Agradeço a todos e humildemente faço a vénia. Parabéns a todos vocês por se manterem por perto.
Se tudo correr como eu penso, teremos muitos mais dias 20 (e até dias 12 ou 17) de vários e diversos meses de muitos anos para continuar a festejar esta cena super divertida que é andar em cima da Terra.
Tudo na mesma. Tudo bem. Espero que tudo esteja bem desse lado. E espero que continue tudo assim. Sou pouco dada a mudanças.


quinta-feira, setembro 15

Às vezes, quando vou fumar um cigarro à varanda e me encosto um pouco mais, tenho vontade de saltar. Não se preocupem, não sou suicída, gosto da minha vida mais do que parece, mesmo com estas coisas estranhas que me acontecem todos os dias, é só uma vontade miudinha de voar. Ou melhor, de cair, é a vertígem - a imagem utópica de pairar nem que seja durante os 7 segundos que me levariam até ao chão. É claro que isto acontece quase sempre em dias de chuva (como hoje) e normalmente quando já bebi um copo de vinho. Olho um bocadinho mais e vejo um rapaz de camisa azul à espera do autocarro e só eu sei o quando eu gosto de rapazes de camisa azul - quase tanto como odeio rapazes de chinelos. Penso em descer para lhe dizer olá, descer directamente daqui, evitar ter de pegar na carteira e nas chaves e passar por um espelho que me diga que não estou assim tão apresentável e esperar pelo elevador e cumprimentar o vizinho do 3º que me vai perguntar então por cá, como vai a vida, seguir este caminho mais curto, atirar-me de pés e ir até ao banco da central de camionagem e perguntar para onde parte este autocarro - pé torcido, roupa em desalinho, arranhões na cara e cotovelos, sangue a escorrer da testa, cabelo meio desfeito, sorriso meio manchado pelo copo de tinto. Fico a olhar mais um pouco. Parece-me mais velho, o rapaz, talvez seja já um homem, ainda assim apetece-me saltar até ele. Mas depois lembro-me do raspanete que ouvi do senhor do 1º quando um dia, em desespero, tentei salvar as sardinheiras da varanda deixando o seu terraço coberto da prova provada de que o meu companheiro de casa não quer saber das plantas, um tapete de flores e folhas e troncos mortos e de como ele (o vizinho) não só me bateu à porta furioso como fez queixa ao condomínio e de como há uma carta registada que eu nunca fui levantar mas que aposto que diz que de acordo com a alinea 6 do artigo 9º eu não posso atirar nada para a propriedade privada e decido apagar o cigarro no cinzeiro e voltar para o sofá.

terça-feira, setembro 13

de querer dias novos (apenas porque sei que não me vale de nada pedir uma vida nova embora acredite que esta ainda deveria estar na garantia e não ter dúvidas de que estava estragada logo de início e não foi por obra minha que isto descarrilou), medi a parede toda, fiz 40 cálculos e pendurei o espelho da bivó Helena na parede do quarto.
de querer novos dias e ser impossível começar de novo sem arrumar a casa, arrumei o coração acabando uma relação que nasceu morta no dia dos mortos e que assim, morta, passeei no coração e nas cartas durante quase um ano.
de querer começar com gratidão fiz um bolo para os senhores agentes da autoridade que não conseguiram salvar o cão e entreguei-lhes em mão com uma carta de sincero agradecimento.
para que ninguém saiba da mudança escrevi dois artigos de jornal a fazer de conta que o mundo ainda me interessa, que ainda estou disposta a mudá-lo nem que seja centímetro a centímetro, que está tudo bem, tudo igual.
de querer remediar a vergonha de ter enrolado e dobrado e cortado um Paul Klee há mais de 2 anos, hoje pendurei a martelo a senhora da Saxónia na parede do quarto.
o que ainda não mudou - e não sei se mudará alguma vez - foi o facto de às 19h gmt (Greenwich onde fui tão feliz durante seis  horas) ter aberto uma garrafa de tinto e lentamente ter cozinhado o jantar que às 21h já não me apetece comer.



sexta-feira, setembro 2

Com toda a raiva do mundo  (ou talvez um pouco menos, devo estar a exagerar) pego no berbequim e atiro-me contra a parede para a encher de flores. É o que dá não ter um saco de boxe no meio da sala.
Com toda a raiva do mundo bebo o gin de golada. É melhor assim, de estômago vazio, com o corpo suado do berbequim e das paredes que não querem ser furadas, das brocas número 5 demasiado rombas, das buchas 7 que desapareceram com a caixas dos parafusos. De qualquer das formas, acendi a velinha de igreja com perfume a rosas e lembrei-me com saudades que já faz muito tempo que me compro flores.
Sacudi o cão o mais que pude e conclui que não tenho perfil para ser dona de cão - este amor todo a sacudir-se à minha volta 'adoro-te adoro-te adoro-te deixa-me ficar mais perto de ti'. Não tenho perfil para ser adorada.
E digo-te com as letras todas, sem gralhas 'nunca te considerei outra coisa que não um caso perdido, Pedro'.