domingo, abril 30

Esta mania de dividirmos o corpo em braços e pernas e olhos e cabelos e dedos dos pés e unhas das mãos, já para não falar que o coração e alma e os calafrios que às vezes se nos percorrem o corpo que nós nem contamos como corpo, esta mania de nos vermos como partes - as pernas andam e o seu andar nada tem a ver com o que o que os meus ouvidos ouvem, pesados, nesse dia, por brincos pendentes que comprei na feira da ladra já quase vazia em Londres, como se o peso que trago nos lóbulos não me atrazasse o passo e as conversas que apanho na rua não fossem também elas o resultado do joelho que parti há 5 anos a posar para uma fotografia; esta mania de nos vermos partidos,  como se não se não fossemos uma amalgama de cicatrizes antigas de arranhadelas de gato e nódoas negras recentes e dor de burro pela bebedeira de ontem, como se todas as histórias que nos moldaram todos os dias até aí e mesmo os dias que nunca fomos mas que se nos entraram via genes ou memória ancestral dos bisavós não contassem para a forma como pousamos as mãos sobre a mesa ou olhamos para a árvore do fundo da rua; esta mania de que todos os dias são um novo início;  esta mania, irrita-me.
Esta ideia de que podemos arrumar em caixas os dias maus, e noutras os dias inúteis em que não fizemos nada - só passei a ferro com esmero e borrifador as camisas que vou amarrotar no sofá, um caixote de cimento de tampa hermética para os dias em que o coração nos foi partido, e os dias felizes espalhados em cima da relva, esta ideia de que as pernas ou a forma dos abraços nada têm que ver com essas história, ou o sabor do pão que amassamos não ser a consequência de um filme que vimos uma vez à socapa quando ainda não tínhamos idade sequer para ver filmes à socapa, parece-me totalmente absurda. Eu nunca fiz nada pela pela primeira vez. Nunca tive um princípio. Nunca fui nova, como aquelas coisas que antes eram terra e agora são árvores.
Pudesse, eu, ter um dia novo... um dia sem bagagem, sem nunca ter lido um livro, sem os metrosideros da Foz, sem os dois cães que se me morreram à frente, sem nunca ter visto um azulejo azul com corações no fundo da rua dos Chãos, um dia feito folha branca que nunca se deitou sobre uma secretária na sombra da hesitação de uma esferográfica, sem aquele suspense que já conhece a espera, eu, ter um dia novo, novo mesmo novo, empacotado em esferovite, novo mesmo novo, com cheiro a lavado, mas sem o cheiro a lavado da casa da avó, lavado mas com sabor a água - indolor, incolor, indelével,  pudesse eu ter um desses dias, e juro que, pela primeira vez desde que me recordo, não olharia para os céus à procura de balões ou de olhos nos troncos das árvores e veria o mundo como ele aparece na televisão.

terça-feira, abril 25

O 25 de Abril

Antes de festa acabar (oh e é sempre bonita, a festa, pá!) gostava de ser uma desmancha prazeres. A liberdade é uma maluca e não sabe quanto vale um beijo e nós ainda não sabemos quanto vale a liberdade. A liberdade não é um presente que nos foi dado pelos que sofreram na pele os terrores da ditadura, como quem dá mais um presente no Natal às crianças. A liberdade conquistada em 1974 é uma chave, cabe-nos a nós saber usá-la. Por si só, a liberdade serve de muito pouco, se não pegarmos nela e assumirmos a responsabilidade que ela nos imputa. O facto de podermos reunir, de podermos protestar, de podermos casar e descasar e votar e viajar e de pensar e decidir, por si só, é só um luxo. É nossa obrigação,  dos filhos desta liberdade, de pegar nela e ajudar a construir um Portugal melhor. Se podemos, hoje, discutir - discutamos! Se podemos reclamar - reclamemos! Se podemos reunir, debater, intervir, participar, porque não havemos de o fazer?
Festejar o 25 de Abril com o cravo na lapela serve para homenagear quem deu tudo por ela, mas e amanhã? Não deveriamos honrar todos os dias este legado que nos foi deixado? A cidadania participativa é, na minha opinião, a nossa obrigação.  Ficar no sofá a ver a televisão já se podia antes desse Abril dos cravos.

sábado, abril 22

Helena, a bombista suicída

Também eu, um dia, farei um ataque um ataque terrorista.
Atirar-me-ei, feito bomba para a piscina, do cimo da torre eiffel ou da tocha da estátua da liberdade ou de uma linha de metro aérea japonesa ou de um arranha-céus de uma dessas cidades novas chinesas ou da piramide de Gizé ou tão somente do 8º andar direito frente do prédio Coutinho.
Quando o fizer, irei impecavelmente vestida de cetim vermelho Dior ou Versace com sapatos Laboutin que calçarei pela primeira vez quando estiver bem lá em cima, mesmo antes de saltar, para que as solas aterrem sem um risco.
Serei como um lenço de seda durante a queda, ou como aquele saco plástico a voar no passeio do American Beauty, mas aterrarei violentamente sobre 3 turistas distraídos nas suas selfies e 2 foto-jornalistas amadores especialmente convocados para o evento via dark web. Com sorte, os tacões agulha acertarão disparados num polícia desarmado que guarda a porta de uma zara do outro lado da alameda, perfurando-lhe um olho e tornando-o vedeta zarolha de talk-shows para o resto da sua vida. Espalhada no meio do chão atrapalhando o trafego, causarei ainda um tremendo acidente rodoviário por via do descarrilamento de um tuk-tuk que projectará um motociclista e um inocente senhor de fato cinzento pai de família numerosa numa distância nunca inferior a um quilometro e meio.
Para que o ISIS não possa reclamar do meu atentado, voarei para o meu fim com uma mala com a bandeira da unicef, uma pulseira orgânica de greenpeace, o vinil de apoio às vitimas das cheias de Moçambique de 1985 e um pirilampo mágico.
Oh será glorioso! Vermelho espalhado por toda a cidade, o vestido, os sapatos, o sangue meu e das minha vitimas, os mil novencentos e oitenta e quatro confetis vermelhos que tratei na mão esquerda, tudo estrelado feito um pacote plácido no passeio naufrago!
Amigos, façam atenção, será um absoluto massacre e, se estiverem bem preparados, poderão reclamar os vossos 15 minutos de fama a dar entrevistas à CMTV a dizer "ela era tão boa rapariga".


quarta-feira, abril 19

assumindo as rasuras

Ainda te apago todos os dias
Às vezes logo pela manhã,
Apago as migalhas e o copo de vinho
E disfarço a música do Chico com um sorriso.
Não tem grande mal, já me habituei.
Apago-te do sítio onde te inscrevi sem te insistir a presença.
Apago a cerveja preta de cada vez que vejo uma
Apago mesas de café bolorentas e demasiado grandes para dois
E espalho sobre elas mil tralhas para que sirvam para um.
Às vezes apago-te à noite escrevendo que te apago, só para que fique bem claro que te apago, mesmo antes de dormir.
Apago-te com quem apagava com a parte azul da borracha na escola primária,
rasgando a folha
rasgando mais um dia
marca na parede da prisão
- já passou mais um dia.
E rasgando mais um dia, o futuro livre de ti torna-se mais perto.
Todos os dias, sem nunca te esquecer,
apago-te a sombra dos dias que nunca vivemos.
E de página rasgada em página rasgada, espero pelo dia em que o caderno acabe e eu me esqueça, finalmente, de ti.