segunda-feira, dezembro 26

Tinhamos pousado as malas - eu as minhas e tu as tuas, onde quer que as pousasses. Sempre que eu pousava as malas, mesmo que nem de malas andasses, era como se também tu pousasses qualquer coisa com barulho no chão.
Não foi assim.
Sempre que eu pousava as malas, ainda antes de ir buscar o gato, tu fazias um barulho no meu chão.  Eu chegava a casa, as plantas mal regadas, não há alhos em casa, ou coentros, ainda nem tenho gato nem abri a porta do quarto, e já ouço o bater das tuas malas. Ou melhor, a ausência do bater das tuas malas.
Também não é assim.
Eu chego com as malas e tão cansada que só vou buscar o gato amanhã - quem me dera que mo mandassem pelo correio. Quando tenho sorte, o companheiro de casa deixou tudo mais ou menos arrumado. Ou pelo menos a cozinha. Quando chego, tão cansada, às vezes até adio o mar, e isso é sinal de que estou mesmo cansada. E oiço o bater da ausência das tuas malas quando atiro as minhas contra o chão do corredor.
Estou a mentir. Isso não aconteceu.
As minhas malas não ressoam no chão em duo. Pouso-as devagar, para não fazerem barulho nenhum no quarto gelado. Gostava que o gato chegasse no dia anterior e remeloso levantasse as orelhas na minha chegada. Não é assim, o gato não está aqui. Amanhã pego no carro (que não pega - a bateria morre na minha ausência - é a única). Amanhã peço os cabos para acordar o carro, sujo das árvores de dois meses de outono mais um primeiro dia de inverno, para arrancar para o mar. Amanhã. O mar. O gato. Tu, não és desta história. É pena, nunca as tuas malas bateram em dueto com as minhas contra o chão. 
Vou começar outra vez.
Chego a casa e desta vez até nem está mal. Só morreram os coentros  e a salsa. O meu quarto está tão desarrumado como o deixei e o gato está de férias no resort que é a casa dos meus pais. Amanhã junto-me a ele. Somos tão felizes por lá! Ainda antes de me estragar do mimo caseiro e felino, paro o carro a frente do mar e fumo um cigarro devagar a ver as ondas a partirem-se contra a praia. Depois rapto-o para aqui e temos a casa só para nós - o sofá e a manta e a música a tocar só para nós. As malas ainda desarrumam o chão do quarto, mas ganho o andar felino e nem dou por elas. O gato cheira tudo antes de se atirar para a cama e ignorar que a dona é,  nestes dias, um caos. É o bom dos gatos - não nos julgam a primeira falha, a não ser que esta seja a ausência da taça da ração, e isso é a primeira coisa de que eu trato mal entro em casa.
Tu não chegaste. Não pousaste a mala. O gato nem sabe sequer o teu nome. A tua ausência não é visível, é apenas uma coisa que eu invento para não viver sozinha entre os bichos, só para não me chamarem  mogli.

terça-feira, dezembro 6

Resistir a enviar-te uma palavra é a minha missão do dia. Entretenho-me com quem não me interessa e só a tua ausência revolve no meu estômago. Hoje, por tua causa, ou melhor, pela tua causa perdida em mim, quase não comi. Fiquei-me pelo pequeno-almoço e quatro chavenas almoçadeiras de café. O caixote do lixo dos amores imperfeitos continua a ser vasculhado pelos ladrões de sonhos,  e as tuas cartas aparecem todas as manhãs espalhadas nesta cama que não é a minha mas que foi de onde te escrevi. Como se nos lençois já tantas vezes lavados e onde nunca te deitaste, nesta aldeia que nem sabes onde fica, tivesse ficado impresso a permanente saudade a paixoneta que te tinha.
Sai de mim coisa ruim, sussurro antes de dormir, mas pela manhã (e às vezes pela noite dentro) lá me apareces de cartas em punho, todas dobradas, apertadas numa fita vermelha, elas que nunca foram físicas, todas escritas em papel virtual, nem o meu cheiro tinham, e tu com elas na mão, de camisa engomada metida dentro das calças - neste frio, rapaz, veste uma camisola, pelo amor da santa! - a olhar como quem vê os comboios a passar. Pedro pedreiro terceiro esperando o trem. Será que alguma vez vais entrar na carruagem?

quarta-feira, novembro 30

um dos meus maiores problemas é a saudade. eu tenho saudades de tudo! e não me venham com a história de que é porque estou emigrada, que não tem nada a ver com isso. sempre tive saudades de tudo. tenho saudades de quando tinha 4 anos e subia aos metrosideros da foz com totós ridículos no alto da cabeça, tenho saudades de quando viva junto à linha do minho e acordava duas vezes por noite (no tempo em que ainda havia comboios à noite) com a casa a estremecer; tenho saudades de achar que era muito esperta e sabia muito e vai-se a ver tinha só 15 anos; tenho saudades de perseguir a empregada e fazer de conta (durante horas) que era a sua sombra até, ela no pino do desespero, me dar 50 escudos para eu ir alugar um filme. tenho saudades de quando os filmes custavam 50 escudos e saudades de quando o teclados dos computadores tinham o símbolo dos escudos. Tenho saudades (muitas muitas muitas) dos domingos de manhã em família e aquele momento esquisito em que ninguém saía do carro porque o Júlio Machado Vaz estava a falar acerca do Sexo dos Anjos e nós os 5 queríamos ouvir. Tenho saudades do tempo da universidade e do gozo que me dava chegar ao café antes da Joana para fazer as palavras cruzadas todas. Tenho saudades de atravessar o Marão no Inverno, cheia de medo, ao Domingo. Tenho saudades da minha primeira casa pequena e da minha segunda casa que era um caos até de manhã com gente feliz a jogar catan até muito depois de eu ir dormir. Tenho saudades de todos os meus amores, saudades até dos meus desamores, saudades de todos os pedaços que vivi e que anotei e das cicatrizes que trago, saudades do gato, da sala, de todos os amigos, dos amantes, daqueles com quem só falei uma vez, num hostel em Copenhagen (ou em Braga), saudades de tudo, saudades de TUDO, e isto não me digam que é ser portuguesa! isto é só ter a certeza de, até à data, ter vivido muito bem.

quinta-feira, novembro 10

23° Reunião da Associação Amizade Cena - Coiso

Porque o Mundo nos chamou, via assobio dos pássaros, mal saíram os resultados das eleições americanas, do nosso estádio de latência,  e os esquilos bateram na janela meio gelada e os patos deram 3 voltas sobre a casa em formação,  sinal que esperávamos todos os dias desde fomos mandados acalmar e tricotar os dias à lareira.
Temos sempre as malas prontas (é só apanhar as meias sujas de ontem do chão e o pijama) e sabemos o protocolo de cor e salteado e lá me faço ao caminho.
Temos de estar sempre atentos, até chegar ao ponto de encontro no meio da floresta. Por exemplo, faz parte do protocolo sair do comboio uma estação antes da estação de ligação - preferencialmente em estações internacionais que é onde a confusão é tão grande que não se dá por uma backpacker de metro e meio - e sem ninguém reparar entrar na carruagem seguinte. É assim que se despista o senhor com a caixa do violoncelo (toda a gente sabe que é a forma mais segura de transportar uma bazuca) e a senhora implacavelmente vestida de preto e de sobretudo e bâton vermelho (são mundialmente conhecidas as histórias de drama e traição em que estas personagens se envolvem, quase sempre com altos riscos para os agentes como eu). É preciso apanhar pelo menos 3 comboios diferentes e evitar os lugares perto dos wc, se possível,  embora isto seja por motivos de conforto dos próprios agentes. Às vezes é preciso ir para Sul quando na verdade se quer ir para Norte e juro-vos que uma vez fui até Minchihampton só para despistar um miúdo que viajava com uma prancha de longboard, quando o ponto de encontro era em Aberdeen e eu tinha saído de Wolverhapmton. Já me pediram até para perder aviões para confundir velhinhos em gabardines cinzentas (his bow tie was really a camera)
Eles estão em todo o lado, os agentes do medo e do ódio . Eu sei que não parece, mas isso é porque o facebook nos trata como putos do infantário e nos junta em grupinhos bonitos e homogéneos e não nos deixa ver os outros meninos. Mas eles estão aí, em todas as esquinas de todas as vilas, atrás dos balcões dos bares, nos bancos de trás das igrejas (de todas igrejas), nos bancos de jardim e da City, a empurrar rua abaixo os carrinhos de bebés tapados para ninguém ver que carregam sacos de granadas e propaganda quase tão letal como as primeiras.
Nós somos poucos e muitos são demasiado novos para intervir, como o miúdo com o boné do homem-aranha que saiu hoje comigo em Banbury.  É claramente um dos nossos, mas com 3 anos tem de se limitar à função de fazer birras em plenos pulmões dentro de áreas comerciais ou de restauração para permitir a fuga discreta de um agente sénior. Ainda assim, porque eu não estava em perigo, este não fez mais do que sorrir para mim (coisa que deveria ter evitado, já que o contacto entre agentes só deve ocorrer em lugares seguros, mas não se pode pedir tanto a uma criança de 3 anos e nós, apesar de sermos agentes, somos humanos).
Lá para as 16.17 chegarei à estação final (sempre a 4 estações da mais próxima do ponto de encontro) e esperarei cerca de 23 minutos e 33 segundos até que chegue um carro descaracterizado para me levar até à floresta.
Hoje haverá cerveja e abraços. Talvez batatas assadas. Devo ser das primeiras agentes a chegar, já que não estava estacionada muito longe.
Há cerca de 5 anos que não reunimos a associação amizade cena - coiso que tem como fachada a melhoria das relações entre Braga e Guimarães. Ninguém vai estranhar 3 minhotos numa floresta inglesa. Daqui, faremos planos sinceros para salvar o mundo.


quinta-feira, outubro 27

Deve ser o whiskey. Ou a aproximação do dia dos mortos - tenho tantos quase-mortos enterrados neste dia. Gostava que houvesse um cemitério onde ir deitar as flores. Talvez pudesse fazer como a minha mãe e deixar em cima da pedra um vaso com suculentas, daquelas que não precisam de atenção, a quem basta a água da chuva no inverno e o sol do verão. Poder esquecer-me de todos eles. Prestar homenagem uma última vez, e sentar-me em paz a fazer outra coisa que não bordar a saudade.
É do whiskey, certamente. Mas sendo escocês, não deveria saber o que é saudade. Devia só emborrachar-me e tornar a bochechas vermelhas e fazer o nariz pingar e gritar impropérios com sotaque enfrascado e nasal. Quem diz que a saudade é coisa lusa?

segunda-feira, outubro 24

O piloto apareceu na minha pensão em Aveiro. Entrou a cavalo e passeou-se pelos corredores com a cabeça baixa, como para não ser reconhecido, como se um tipo com ar de caubói (até lenço no pescoço trazia) pudesse passar despercebido. Chegou ao fim do corredor (eu estava no piso de cima, consegui ver tudo com clareza), olhou cabisbaixo para os lados, deu meia volta, atravessou novamente o corredor vagarosamente e saiu pela porta por onde 3 minutos antes havia entrado. Não houve azáfama, toda a gente o viu e todos continuaram seu ritmo lento de se mover pelo espaço.
Enquanto me dirigo para o quarto (é capaz de ser boa ideia antes que isto dê para o torto) constato que estou a ser preconceituosa. É que eu devo ser a única portuguesa que não sabe a cara do piloto - estou fora do país e sou mais de ouvir as notícias e em Portugal os 'most wanted' não aparecem nos pacotes de leite. Estou claramente a fazer a generalização piloto, caubói, malboro man, é tudo a mesma coisa - nunca fiar!
Quando chego ao quarto reparo que infelizmente este não tem paredes, mas antes umas grades baixas, à estilo de coreto e que tem até a forma arredondada. Reparo também que, como é costume, é um quarto partilhado e assim a grosso modo estamos lá cerca de 15 e um cão. Surpreendentemente, não há camas. As única peças de mobiliário são uns bancos espalhados, meio aleatoriamente, pelo espaço vazio.  Desvio com jeitinho o cão, e sento-me ao lado do velho que deve ser seu dono. Olho à volta e está tudo como eu, à espera que aconteça alguma coisa, à excepção do cão que depois do meu empurrão já encontrou novo espaço e está novamente enrolado a dormir. É então que vemos o caubói subir as escadas. Desta vez sem cavalo, mas exactamente ao mesmo ritmo pesaroso. Esta coisa de não haver paredes dá para os dois lados - se por um é óptimo porque o vemos mal ele chega ao primeiro piso, por outro ele também está de olho em nós mal põe o pé no último degrau das escadas. Obviamente, ou não fosse eu uma tipa cheia de sorte, ele dirige-se para o meu quarto. As pessoas começam enconstar-se umas às outras, uma mãe abraça uma criança pequena, eu encosto-me um pouco mais ao cão que apenas levanta a orelha e a palpebra direitas e me olha de soslaio como quem diz não sei o que se está a passar mas já estás a abusar. Olho para o velho - olha para os sapatos rotos sem vontade nenhuma de daí tirar os olhos. Tento elaborar, sem levantar sobrolho, um discreto plano de fuga, mas este é sempre mais difícil em áreas pi ao quadrado, sem esquinas obscuras ou cantos refundidos, e ainda antes ainda de me me imaginar a fazer uma pirueta e um mortal à retaguarda por cima das grades do quarto ouço uma voz metálica a chamar baixinho, com sotaque estranho 'Helêna'. Pára-se-me o coração.  Já fui! É sempre a mesma coisa! Olho para o caubói e reparo que também ele está com um ar perdido, à procura da origem da voz. Não me mexo, pode ser que ninguém saiba que me chamo Helena ou que haja outra 'Helêna' na sala. Entretanto, o 'Helêna' ouve-se outra vez, mais forte e desta vez toda a gente olha para mim.
Fecho os olhos com força e torno-me religiosa por uns segundos a pedir a dEUS que não me mate já. Abro os olhos e felizmente acordo. A senhora R chama outra vez o meu nome pelo intercomunicador e eu salto da cama e corro para a lhe dar o braço. São 6 da manhã na Inglaterra. Tudo certo. dEUS existe e safou-me desta.

terça-feira, setembro 27

À poesia contra a qual tantas vezes reclamei ter-me mal-educado, lixando à brava a minha capacidade de ter 10 dedos de pés (e plantas) presas ao chão, mesmo quando teimo em andar descalça,  culpada maior desta minha vida aérea com os olhos pousados entre as flores e o eterno copo de vinho, ignorando tudo o que não cabe num poema e para que se saiba, só li O'Neill que contém todas as coisas mundanas, e o Helberto Helder que tem até as contas do gás muito mais tarde, quando a mania estava tomada, a essa poesia, eu hoje, de joelhos no chão agradeço.
E mais, quem se atrever a dizer que a poesia não sabe para nada terá de se ver comigo. Sem dó nem piedade, argumentarei que há dias (claro que há) que temos de partilhar com perfeitos anormais e quer o bom senso e a economia de esforço (nunca mudarás um perfeito anormal, na pior das hipóteses, o perfeito anormal muda-te a ti, trazendo um azedo à boca e rugas à testa e uma profunda desilusão na espécia humana) que tenhas um mundo alternativo, povoado de mares calmos e cálidos dedos e ondas de cabelo e platónicos amores e ninfas que te abracem e que sussurrem ao ouvido palavras loucas ouvidos moucos do quadro da Iva Viana que tens na sala.
Nem sempre (ou talvez raramente, sou fraca pessoa para o atestar já que quase nunca lá vou) a realidade é o melhor sítio para se estar.

quinta-feira, setembro 22

Continua tudo na mesma. Não se preocupem. A minha mãe continua a dizer que eu sou maluca e eu a responder que maluco é o avô e em 96 anos ainda ninguém o apanhou e que já me informei que já não há internamentos compulsivos e que se houvesse, já tinha tudo combinado com a tia Lena para ela ir lá salvar-me. Continuo a cantar pior que as minhas irmãs e não me importo muito. Continua tudo na mesma.
Continua a haver muitos bons livros para ler, continua-se a fazer boa música para ouvir, bons filmes para ver, a comida nunca me soube melhor e se 2005 foi um excelente ano para o vinho nacional posso jurar que não me têm faltado bons copos. Continuo a não ter dor de costas (consta que é um problema comum a quem continua em teimar em fazer anos), a chegar com as mãos aos pés e as rugas ainda não me chateiam de manhã. Continuo a não gostar de faneca. Tudo na mesma. No pasa nada!
Continuo tão curiosa como quando tinha 5 anos, a meter-me no mesmo número de alhadas mensais e na mesmíssima espera que alguém invente o teletransporte. Continuo a achar que o importante são os pormenores e que sou demasiado pequena para as grandes questões do mundo.
Continuo a ter excelente gosto para os amigos e juro a pés juntos que não me têm faltado nem nas horas más, nem nas horas boas, nem sequer nas horas maizómenos. O meu gato continua a ser mais giro do que o dos outros. Tudo exactamente na mesma. A minha família é, como sempre foi, a melhor do mundo.  Sem tirar nem pôr.
E continuo sem perceber porque é que tanta gente manda mensagens, toques, telefonemas, telegramas cantados, whatsaps, insta-hearts, cartas, mensagens telepáticas, sinais de fumo e estrelas cadentes ao 20 de todos os meses de Setembro.
Agradeço a todos e humildemente faço a vénia. Parabéns a todos vocês por se manterem por perto.
Se tudo correr como eu penso, teremos muitos mais dias 20 (e até dias 12 ou 17) de vários e diversos meses de muitos anos para continuar a festejar esta cena super divertida que é andar em cima da Terra.
Tudo na mesma. Tudo bem. Espero que tudo esteja bem desse lado. E espero que continue tudo assim. Sou pouco dada a mudanças.


quinta-feira, setembro 15

Às vezes, quando vou fumar um cigarro à varanda e me encosto um pouco mais, tenho vontade de saltar. Não se preocupem, não sou suicída, gosto da minha vida mais do que parece, mesmo com estas coisas estranhas que me acontecem todos os dias, é só uma vontade miudinha de voar. Ou melhor, de cair, é a vertígem - a imagem utópica de pairar nem que seja durante os 7 segundos que me levariam até ao chão. É claro que isto acontece quase sempre em dias de chuva (como hoje) e normalmente quando já bebi um copo de vinho. Olho um bocadinho mais e vejo um rapaz de camisa azul à espera do autocarro e só eu sei o quando eu gosto de rapazes de camisa azul - quase tanto como odeio rapazes de chinelos. Penso em descer para lhe dizer olá, descer directamente daqui, evitar ter de pegar na carteira e nas chaves e passar por um espelho que me diga que não estou assim tão apresentável e esperar pelo elevador e cumprimentar o vizinho do 3º que me vai perguntar então por cá, como vai a vida, seguir este caminho mais curto, atirar-me de pés e ir até ao banco da central de camionagem e perguntar para onde parte este autocarro - pé torcido, roupa em desalinho, arranhões na cara e cotovelos, sangue a escorrer da testa, cabelo meio desfeito, sorriso meio manchado pelo copo de tinto. Fico a olhar mais um pouco. Parece-me mais velho, o rapaz, talvez seja já um homem, ainda assim apetece-me saltar até ele. Mas depois lembro-me do raspanete que ouvi do senhor do 1º quando um dia, em desespero, tentei salvar as sardinheiras da varanda deixando o seu terraço coberto da prova provada de que o meu companheiro de casa não quer saber das plantas, um tapete de flores e folhas e troncos mortos e de como ele (o vizinho) não só me bateu à porta furioso como fez queixa ao condomínio e de como há uma carta registada que eu nunca fui levantar mas que aposto que diz que de acordo com a alinea 6 do artigo 9º eu não posso atirar nada para a propriedade privada e decido apagar o cigarro no cinzeiro e voltar para o sofá.

terça-feira, setembro 13

de querer dias novos (apenas porque sei que não me vale de nada pedir uma vida nova embora acredite que esta ainda deveria estar na garantia e não ter dúvidas de que estava estragada logo de início e não foi por obra minha que isto descarrilou), medi a parede toda, fiz 40 cálculos e pendurei o espelho da bivó Helena na parede do quarto.
de querer novos dias e ser impossível começar de novo sem arrumar a casa, arrumei o coração acabando uma relação que nasceu morta no dia dos mortos e que assim, morta, passeei no coração e nas cartas durante quase um ano.
de querer começar com gratidão fiz um bolo para os senhores agentes da autoridade que não conseguiram salvar o cão e entreguei-lhes em mão com uma carta de sincero agradecimento.
para que ninguém saiba da mudança escrevi dois artigos de jornal a fazer de conta que o mundo ainda me interessa, que ainda estou disposta a mudá-lo nem que seja centímetro a centímetro, que está tudo bem, tudo igual.
de querer remediar a vergonha de ter enrolado e dobrado e cortado um Paul Klee há mais de 2 anos, hoje pendurei a martelo a senhora da Saxónia na parede do quarto.
o que ainda não mudou - e não sei se mudará alguma vez - foi o facto de às 19h gmt (Greenwich onde fui tão feliz durante seis  horas) ter aberto uma garrafa de tinto e lentamente ter cozinhado o jantar que às 21h já não me apetece comer.



sexta-feira, setembro 2

Com toda a raiva do mundo  (ou talvez um pouco menos, devo estar a exagerar) pego no berbequim e atiro-me contra a parede para a encher de flores. É o que dá não ter um saco de boxe no meio da sala.
Com toda a raiva do mundo bebo o gin de golada. É melhor assim, de estômago vazio, com o corpo suado do berbequim e das paredes que não querem ser furadas, das brocas número 5 demasiado rombas, das buchas 7 que desapareceram com a caixas dos parafusos. De qualquer das formas, acendi a velinha de igreja com perfume a rosas e lembrei-me com saudades que já faz muito tempo que me compro flores.
Sacudi o cão o mais que pude e conclui que não tenho perfil para ser dona de cão - este amor todo a sacudir-se à minha volta 'adoro-te adoro-te adoro-te deixa-me ficar mais perto de ti'. Não tenho perfil para ser adorada.
E digo-te com as letras todas, sem gralhas 'nunca te considerei outra coisa que não um caso perdido, Pedro'.

quarta-feira, agosto 3

Pequena história de amor

Eu disse:
- I dreamt about you last night
Ele responde:
- the smiths

Só aí me apaixonei.

Esquece-te de mim. Como eu me esqueci de ti, como o vento esquece mal arranca as folhas da árvore e as espalha pelos passeios. Assim mesmo - com a mesma gentileza com que me arrancaste da árvore, esquece-me soltando-me na cidade. Encontrar-me-ei depois da confusão, depois das pessoas recolherem uma a uma, sempre aos pares, a casa depois da cerveja ao sol, demorarei o tempo que for preciso no banco do jardim a olhar o Tamisa, mas quando o frio apertar - e sim, o frio aperta sempre em Londres, mesmo nos frios meses de Agosto - quando o frio apertar e eu reparar que saí de sandálias, que trago o casaco roto no cotovelo esquerdo (quando caí?), quando começarem a passar por mim os bem vestidos para o teatro, encontrar-me-ei.
Podes esquecer-me, sem vergonha, sem angústia, deitar-me devagarinho no caixote do lixo dos amores incompletos junto dos rabiscos que não foram mais do que um entretém entre dois cigarros. Gosto bastante desses lugares. E dos passeios junto aos rios.
https://open.spotify.com/track/354wpBzm8zfqywnBn4Ucm9

quinta-feira, julho 21

Quando o mundo era mágico e havia copos a rodos e as pessoas tinham vinte anos e os computadores não avariavam 3 semanas depois de serem comprados e exactamente 2 dias depois de eu sair do país para uma jornada de cerca de 40 dias. Ai que a vida já foi tão mais fácil.


segunda-feira, julho 18

O dia em que eu fui à bruxa

É oficial. Hoje fui à bruxa.
Sim, já há muito que estava a pensar nisso, sabia que mais cedo ou mais tarde teria de deixar de parte o preconceito e aceitar que nem tudo é acaso, que las hay las hay como las hay las macumbas e o bonequinho de voodoo pequeno e de cabelo claro com madeixas rosa nas mãos de um maluco qualquer. Eu cá não sou supersticioso mas o pai dela dá-me azar (momento musical #1) e se já aceitei que é por vocação  (e não por feitiço) que tenho a arte de perder todos os autocarros, os combóios já com o bilhete na mão e o pé no cais, os aviões, os metros a fechar as portas apenas com o meu nariz lá dentro; se já aceitei que é por feitio e não por maldade divina que perco a cabeça com facilidade e que quando a recupero me encontro quase sempre em alhadas; se já me convenci (embora não tenha encontrado dados estatísticos acerca deste assunto na net) que não devo ser a única pessoa do mundo a ter partido um joelho a posar para uma fotografia durante uma entrevista; se sei com certeza absoluta que todas estas coisas são só coisas que se me acontecem, como a outras pessoas acontecerão outras coisas (eu, por exemplo, nunca perco os óculos, que é uma coisa de que já ouvi muita gente se queixar e eu, em 30 anos de uso, nunca perdi um par que fosse! nem uma lente! perdi uma vez um daqueles parafusos das hastes mas o meu avô deu-me um dos dele e tudo teria ficado resolvido num instante e nem seria história relevante não se tivesse dado o caso de o parafuso ter caído entre as frinchas do soalho e isto ter feito o meu avô levantar todo o parquet do escritório encontrando não só o dito parafuso como algumas pequenas maravilhas como pilhas de relógio, clips, tacha, pedaços de arame, mica, feldspato e quartzo em abundância, cada cacozinho com mil histórias porque o meu avô é como os elefantes e lembrava-se exactamente do momento em que cada um dos tesouros lhe escorregou dos dedos e o que comeu ao almoço nesse dia e com quantas nódoas na gravata foi trabalhar nesse dia) mas dizia eu, obviamente não foi por nenhuma destas coisas que eu fui à bruxa hoje.
Na verdade, embora nos últimos dias tenha pensado seriamente no assunto e até ter pedido à minha irmã contemplativa e meditabunda para me acender uma velinha, ainda não tinha tomado a decisão.  Foi, como é sempre nas histórias de bruxas, ela - a própria - que me convenceu a ir lá a casa. Ao engano, biên sure, que as bruxas fazem sempre tudo pela calada.
Então foi assim - a história começa há cerca de 2 meses, quando eu me preparava para, depois de um dia de trabalho, ver um filme e o meu computador - velhinho, companheiro de 8 anos de aventuras - se lembrar morrer no meu colo, sem suspiro e sem adeus. Isto é uma coisa normal - os computadores velhos têm grande tendência para a morte, mas é um bocado chato quando estás a trabalhar durante 4 semanas na Inglaterra profunda e aquele computador (para além do pequeno telemóvel) é a tua ligação com o mundo. Mas é como dizem os franceses 'c'est la vie' e botei a mão na cintura e qual Gloria Gaynor disse I will survive! Which I did - li todos os livros que tinha trazido, depois vi todos os jogos do Europeu de Futebol e todos os debates sobre o Brexit e com afinco fui feliz até me ver em Portugal e em pleno S. João correr para o shopping (sim, eu em pleno dia feriado num shopping - aconteceu!) para me oferecer um magnifico, belo, rápido, leve (e ligeiramente mais caro do que tinha planeado) computador.
Voltei ao trabalho na Inglaterra profunda na última quarta-feira. Consegui, com esforço, sangue, suor e lágrimas (literalmente) não perder nenhum avião, nenhum autocarro e só por uma vez perder o comboio, consegui até transformar a azelhice de me ter enganado na reserva do hostel numa história engraçada (esta fica para outro dia) e chegar ao meu ponto de trabalho com as malas todas, as energias recarregadas pelo sol e pelos mimos, pronta para mais 5 semanas de trabalho intensivo. Eis senão quando, ao segundo dia de trabalho, o meu novíssimo, reluzente, cheio de mundo computador decidiu, também ele morrer. À primeira uma pessoa acredita, mas à segunda?!?!? O catraio tinha 3 semanas de vida!, nem um risco sequer, nem um autocolante, nunca tinha sequer jogado uma paciência... é claro que me deu a fúria. Admito até que chorei e disse palavrões! Mais djipois como era de costumi, obedeci (referencia musical #3) e lá me dediquei a enviar o morto via UPS para a pátria para que alguém (obrigada mamã) fosse reclamar por mim. Jurei, no entanto (e como podem confirmar, não cumpri) que nas próximas 5 semanas não havia de escrever história nenhuma!
Perdoem-me caros leitores, bem sei que estão em pulgas pela entrada da bruxa e descanso-vos já dizendo que está quase, bem como o final desta história, até porque já são 15.30 e às 16h volto ao serviço.
Ora, é claro que não há posto da UPS nesta aldeia de onde não vou sair até 17 de Agosto e, como tal, restou-me fazer os procedimentos online, empacotei o defunto com jeitinho com os restos da caixa de uma televisão que encontrei debaixo da mesa da sala, medi e pesei a olho, gastei um rolo de fita-cola para que nem uma brisa entrasse no pobre bicho (não vá a loja anunciar que a causa da morte foi um resfriado) et voilá - ready to go! Faltava apenas imprimir a etiqueta. Sem computador e, claro, sem impressora, esta tornou-se a tarefa mais trabalhosa mas eu não desisto nunca e segunda-feira de manhã, às 8.30 da manhã já estava à porta da local shop - a minha aldeia tem dois estabelecimentos comerciais: o pub e a local shop (eu preferiria ter ido ao pub mas só abria às 11). A local shop tem um letreiro na janela onde se lê, entre outras coisas, 'print', logo o sucesso era quase garantido. A local shop é como a venda do Vengança na aldeia da minha avó no Minho profundo, tem de tudo um pouco, com a diferença de que aqui vem quase tudo embrulhado em pacotes com flores e a palavra organic aparece com alta frequência. Infelizmente, não tem o famoso salpicão mas fora isso, tem detergente da loiça e limões e pensos higiénicos e biscoitos de cão e tudo mais que se possa precisar para uma vida simples. No entanto, à semelhança do que sucederia se o Vengança ainda fosse vivo (a última vez que passei em S. Pedro de Bairro a podre venda era agora um reluzente Minipreço) alguém se esqueceu de pagar a conta de internet e como tal, nada de aceder ao site da UPS. Por uns momentos puxei do génio e ponderei desenhar eu os códigos de barras e os QR code, mas nem régua tenho e entretanto a senhora, ao ver o meu franzir na testa para além do limite da testa, me convidou para imprimir as etiquetas em sua casa. Tudo é organizado logo ali no balcão, ela sai às 9 da manhã (a loja abre às 8!) e passa lá em casa para me levar. Às 9:15 lá bate à porta e ela diz, apontando para os Meadows 'Vês aquela casa azul com uma bruxa na lateral, é a minha casa' com um sorriso enorme na cara. 'Eu vou ter de sair para levar a minha sogra a Minchinhampton, mas esta lá o meu marido e ele ajuda-te' e deslizando rua abaixo, desaparece.
E foi assim que eu, hoje manhã, fui à casa da bruxa mas como ela não estava e o marido não sabia da agenda, acabei por não marcar consulta.

Caros amigos e família, se chegaram a ler estas linhas só posso pedir desculpa! Sim, poderiam ter estado a ver videos de gatinhos na Internet, mas compreendam - já só me sobram 1,5 livros dos 4 que trouxe e os Jogos Olimpícos só começam daqui a 15 dias.

Beijos a todos

quarta-feira, junho 8

Não vás ainda. Ainda há tempo. Acabei de fazer um chá de lúcia-lima com limão e bem sabes que é muito melhor frio, tomado depois do sol se pôr na varanda. Aguenta mais um bocadinho, demora-te a fazer as malas, faz de conta que não encontras o passaporte (está na primeira gaveta da cómoda do escritório, junto às fotografias tipo passe que tiraste para o ginásio há 5 anos), senta-te a dobrar as camisolas todas como se não pudesses partir com tudo amarfanhado na mochila de campismo, descobre um cd perdido e não resistas a ouvi-lo uma última vez sentado no chão na minha aparelhagem. Entretanto o chá vai arrefecendo e eu vou fingindo-me ocupada, como se nada passasse, a cabeça a mil a inventar palavras que ainda não estejam gastas (eu sei que estão, todas gastas), a ganhar coragem para te dizer que tens razão, que as palavras parecem trapos, mas temos os silêncios todos e não há nada melhor do que os nossos silêncios mas que não quero que este seja de agora para sempre. Ganhar coragem para te dizer que hoje este silêncio está bem, enquanto o chá arrefece e tu vasculhas as gavetas e eu limpo o balcão da cozinha como se fosse a coisa mais normal do mundo e dizer-te também, em silêncio, que amanhã alguém escreverá um poema e este terá de ser dito em voz alta, da minha boca para os teus ouvidos ou da tua boca para os meus ouvidos e aí nasceram novas palavras e por isso não faz sentido que já não estejas aqui porque de certeza que ainda agora mesmo alguém está a escrever um poema para nós. Em silêncio ganho coragem e ponho-me à porta do quarto e em silêncio, encostada à ombreira, enquanto guardas os sapatos que nunca usas, digo-te isto tudo e tu fechas o saco, olhas-me com tristeza e em silêncio dizes adeus. Em silêncio eu digo-te que o chá ainda não está frio, mas que posso juntar-lhe umas pedras de gelo e tu, quase em silêncio, deixas a chave junto à entrada e num silêncio longo fechas a porta. Até à próxima, sussuro apenas depois de ouvir a porta do prédio fechar
No dia em que nos casamos tu não apareceste.
A culpa foi minha - fui eu que me esqueci de te avisar que era dia de festa. Eram 15am quando me apercebi do erro e, quando me preparava para sair da cama para passar o vestido a ferro - ainda na dúvida se levava o vestido verde ou o das flores -, desisti e calcei as pantufas para, em segurança, tirar um café sem tropeçar no gato.
Também eu não compareci. Achei que não me ficava bem chegar de tacões ao cartório, sem plano maior do que passear o cabelo sobejamente bem penteado.
Haverá outras muito longas manhãs de Inverno e prometo no momento da decisão anotar lembrete no telemóvel e não nos deixar falhar a data.

domingo, junho 5

Faz muito tempo que não vejo uma estrela cadente por isso esta noite subi descalça ao cimo da aldeia e com toda a força que me restava atirei a ponta do cigarro aceso para o vale.

quarta-feira, maio 25

Hoje perdi um avião. Bem sei que não é normal perder-se coisa tão grande e nem posso culpar a miopia já que na verdade eu sou é hipermetrope. A causa é mais grave. É o excesso. É o viver sempre em excesso e beber de tudo como se amanhã não existisse. Beber o vinho, sim, mas não só - beber o ar como se amanhã pudesse não haver ar e só massa rarafeita que não passa nos pulmões, beber as conversas, beber os amigos, beber os cigarros sofregamente até arderem os olhos. Tudo mais, tudo agora, tudo hoje. Às vezes (demasiadas vezes) esqueço-me de que existe um amanhã e que esse amanhã também precisa de ter gente.  Hoje perdi o avião porque ontem me esqueci do amanhã que era hoje. Sofregamente arrastei-me de despedidas que nunca o são copo atrás de copo até ser demasiado tarde para ouvir o despertador das 5 da manhã. Acordei às 7, pouco mais de 1 hora antes do voo, a 50km de distância. Ainda ponderei a loucura de me atirar ao carro e fazer a estrada a 200km/h, mas isso seria apenas perpectuar o excesso, resolver o erro morrendo na estrada para de qualquer das formas não chegar a tempo. Resolvi o problema como fazem os adultos, pagando o erro na compra do próximo voo. Custa-me este errar diário a que por absoluta falta de auto-controlo me destino. Eu sei que não é 31 de Dezembro à meia noite e não há uvas para engolir inteiras rezando para dentro, mas ainda sendo 25 de Maio, quero pedir-me essa paz. Menos,  Helena, menos! Bebe chá de menta e faz ginástica. Aprende a caminhar sem sofreguidão,  a comer e a mastigar e lavar os dentes logo de seguida, ler para aprender e não só para saber - há uma diferença grande entre um e outro. Com calma. Sem ter de me internar em retiro budista.

Hoje escrevo isto apenas para não me esquecer. E para ver se amanhã começo um caminho com mais paz.

sábado, maio 21

Haverá histórias diferentes.
Há quem ache que é estranho o sino da igreja às 10 da noite toque 3 vezes. Para mim é normal.
Infelizmente hoje, logo hoje, o céu do Alentejo está nublado e não consigo nem encontrar a ursa maior quanto mais a cassiopeia.
Haverá outras histórias e a todas as horas, quer o sino diga 3 ou 10 da noite, sejam 7.45 ou 19.23, haverá sempre um leme, mesmo que escondido, para mudar de rumo. Esta história era não acerca de ti, mas agora é.
Enquanto aguardo uma carta, envio postais ilustrados para teu deleite.
'Vem quando quiseres. Eu provavelmente não vou estar por cá' (eu, se dEUS quiser não vou estar por cá) 'De qualquer das formas, a tua mãe deve ter saudades.' Se estivesse (por cá), quase aposto que há ultima da hora não virias até à cidade. Eventualmente, casualmente, cravavas-me para ser eu (outra vez) a pegar no carro e ir até à aldeia. Quero mentir-me que te diria que não,  mas eu sou como os viciados. Só faço o que me apetece, mesmo que magoe, e mesmo que agora diga que não vou, que não tem jeito nenhum, chegada a hora, mesmo sabendo que vai doer, lá entrarei no carro com ar de quem só faz o quer, mesmo que doa, mesmo que ache que vou por opção e não por vício.

A minha solidão, antes da tua ausência, que é como quem diz, antes de te conhecer, era mais pequena. Sendo exactamente do tamanho deste apartamento, desta cidade, e não rezando os registos que qualquer um deles tenha crescido,  estando a cidade exactamente do mesmo tamanho e o apartamento inclusivamente mais pequeno, por via de ter mais uns quadros na parede e o quarto de visitas estar finalmente alugado, a solidão cresceu. Ao meu lado no sofá, por exemplo, há a tua ausência sob a forma de não abaulamento da almofada. No armário da cozinha, a tua ausência grita dos copos de vinho que limpos e virados para cima, quando tiro o meu. As cápsulas de café que saem do frasco de metal às flores em doses únicas, deixando com frequência - tanta como a contrária - as ditas em número ímpar.  Ímpar. Im-par. A negação para definir a palavra. Ser ímpar não é ser uma coisa, uma coisa única, ser ímpar é o contrário de se ser par e o braço pendurado no ar é evidente, neste caso. A tua ausência é evidente.

E se te digo hoje que te deixo em paz não é por ti, embora realmente preferisse. Deixo-te em paz para ver se me deixas em paz. Se levas a tua ausência daqui. Podia enviar-ta em envelope selado, via email, como as cartas que trocamos diariamente, mas parece-me que não cabe no anexo e eu nunca fui boa de computadores.

É que o que me incomoda, na verdade, pior do que os gritos de vidros ou dos sofás demasiado alinhados, é o tempo que esta ausência ocupa. A solidão, por si só, já vive de horas demasiado longas, mas depois é como a Coca-Cola, primeiro estranha-se depois entranha-se. A solidão passa então a ter o charme dos cigarros em contra-luz, às garrafas de vinho abandonadas na bancada da cozinha - restos à espera de ser tempero da carne que quase já não como -, passa a ser o passo de dança que se faz a altas horas ou pela manhã cedo no corredor. A solidão passa a ter a voz dos personagens dos livros onde diariamente mergulho à procura de um eu mais louco ou mais alto, ou mais gordo com gatos nos poemas da Adília, ou a velhice amputada do Virgílio Ferreira. Deixa de ser uma solidão para ser uma casa partilhada com estranhos seres que entram e saem da televisão. Há barulho - há muito barulho - dentro dessa solidão. E pouco ruído, já que somos só nós que controlamos a estática e mudamos de canal quando chegam os anúncios, a não ser que seja o da Coca-Cola Zero e do rapaz que limpa as janelas. A tua ausência, dentro da minha solidão, tem apenas a minha voz de ler poesia a ressoar na minha cabeça enquanto te escrevo cartas a explicar tudo isto - cartas estas que não envio. O tempo que roubas, com a tua ausência, aos personagens dos livros, aos actores de cinema, ao amante que já não quero mas ainda não sei como lhe explicar, às saídas noite afora, aos flirts de bares manhosos, às idas a Lisboa, às conversas das quais abdico porque ainda estou na minha cabeça a escrever-te algo que mesmo antes da primeira linha já está condenado a nunca chegar a ter letras e forma física, o tempo que dedico à tua ausência, é um insulto. Ainda mais para mim que não estou a ir para nova.

Um dia largo a voz de mel de quem leu demasiados poemas e que por isso sabe o ritmo lento dos versos e digo-te, preto no branco, que se me queres, ainda que seja apenas sob a forma de carta, tens de vir buscar-me. E se eu não sou de pedir coisa nenhuma - nunca fui - dessa vez dir-te-ei sem medo das consequências - as tuas e as minhas - que já me fartei das palavras. Há autocarros e carros e comboios e barcos e por mim até podes vir a pé, é-me igual, mas se não vens, parto o teu copo vazio que repousa junto ao meu. Ou sirvo-o a quem não tenha pernas presas e cujos braços sirvam para mais do que apoiar as mãos nas teclas de um computador. Porque se há palavras que não pode dizer (nem escrever), valerá a pena falar?


sábado, maio 7

O número pessoas que me liga a saber onde se come bem e barato é inversamente proporcional ao número de pessoas que convida para jantar fora

(como se o oposto de mil fosse zero)

quinta-feira, maio 5

Eu sei que o dia da mãe já passou, mas nesse dia eu estava muito ocupada em acordar cedo para conseguir fazer uma pannacota de ervilhas com salmão fumado e a pannacota leva tempo no frigorífico e para conseguir cumprir a tarefa tinha que acordar muito cedo estar em Viana quase antes da minha mãe acordar. E depois tinha de lhe inventar alguma coisa para o almoço que o frango de churrasco que tinhamos combinado não era digno da minha mãe. Parece parvo, mas não sei se já tentaram agradar a um super-herói. É um problema sério. Isto de sermos humanos e querermos dar algo mais do que o cliché bouquet de flores (como poderei competir com as rosas antigas que ela tem no jardim) não é fácil.
A minha mãe não gosta de cozinhar. Lá em casa, quando eramos 5 (seremos sempre 5!, venha quem vier!) os almoços de domingo eram sanduíches. Sim, enquanto em todas as casas portuguesas uma mãe estremosa passava a manhã à voltando fogão, a minha dizia com voz sólida com a mão na maçaneta da porta 'quem quer vir, quem quer ficar, quem me quer acompanhar!' e nós corriamos para o elevador porque o convite era para o café à beira mar com um livro na mão. Seriam 10 da manhã quando saíamos de casa - os 5 - e fizesse chuva fizesse sol, fosse na Picologel da Foz ou em Moledo, ficavamos por lá até o jornal dos pais acabar ou uma culpa adulta gritar - as miúdas devem ter fome. Aí arrancavamos. Passavamos na padaria e compravamos 10 pães. Quando era cedo paravamos no Manelzinho Natário e compravamos empadas de pato e iamos para casa. Almoço de domingo - uma taça com folhas de alface, outra com tomate fatiado, a meia bola de queijo limiano, ovos cozidos, maionese, mostarda, atum, sardinhas em molho picante para os arrojados, fiambre fatiado fino fino fino fino mesmo antes dele sair desfeito. Às vezes presunto. Às vezes qualquer coisa de restos dentro do turperware - um pouco de rolo de carne, as lulas grelhadas, às vezes meia costoleta de porco. Mesa farta! Nada de batatas assadas, nada de sobremesas estrondosas, nada de carne que obriga alguém à cozinha durante uma manhã inteira quando é domingo. Cada um faz a seu gosto e era uma mesa louca - chega aí o pepino,  dá-me mais uma fatia de pimento, manhê, posso beber mais um copo de sumo, é domingo?
A minha mãe não é fofinha. Nunca nos ensinou o cor de rosa e nunca achou que nascer mulher é castigo e esta coisa de não ir ver o mar no dia de folga é coisa que não faz grande sentido. A minha mãe nunca disse coitadinha nem por nenhum momento nos achou melhores do que os outros. Deu-nos outras coisas (oh tantas!) - a gana, a resistência ao cansaço, a força contra as adversidades, a paz de espírito, o sono tranquilo quando sabemos que fizemos o possível,  o amor incondicional sem paternalismos, a independência, as orelhas moucas para os discursos loucos, a voz que diz que se vais contra a maré e ainda assim sabes que está certa, continua o teu caminho.
A minha mãe é como o super-homem. Minto! A minha mãe é melhor do que o super-homem. Muito melhor.
Tentei, no dia da mãe, conquistá-la pelo estômago (costuma resultar com o comum dos mortais) - a dita pannacota, arroz de peixe, morangos com iogurte grego e doce de framboesa, bolo de iogurte e maça para o lanche... e falhei!
Não é fácil agradar ao super-homem, quanto mais à minha mãe - Amélia, dos olhos doces.
O que devia ter feito e não fiz - trazer pães frescos da padaria, cozer 3 ovos, tirar da despensa o atum em lata e ter comprado o Público à ida para casa. Ter tempo. Ler em voz alta um poema. Pedir-te um conselho sincero e um abraço para aliviar do cansaço. Raptar-te para ires ver o mar. Não deixar haver loiça para lavar. Gabar-te a cameleira do fundo do jardim - está linda, mãe. Dizer-te que quando chegar a casa vou escrever-te uma carta e que juro do fundo do coração que quando for grande quero ser como tu - Amélia dos olhos doces ainda bem que não és apenas mulher. E antes disso mandar um sms a dizer que cheguei.



(A minha mãe não tem facebook e se tivesse não faria um like nem botava um coração na caixa de mensagens - ser mãe não é ser lamechas, é ser super-herói, e a esses, para mim, a lágrima fácil não lhes fica bem)


segunda-feira, abril 25

Jardinar é preciso

Não é a primeira vez que aproveito um feriado para a jardinagem e quase sempre a analogia salta-me aos olhos. A democracia é um canteiro de varanda, ou um jardim, que o tamanho pouco importa.
Que alguém tenha deitado a semente já é ajuda. Cortaram, em 1974, as daninhas com serra eléctrica que é a única forma quando a selva se instala. A lei da selva diz que sobrevivem os mais fortes. Os mais gordos. Os mais aptos. Os ratos. As baratas. Os vírus. As ervas daninhas.
As ervas daninhas têm raízes fundas. Sobrevivem com metade da água que sugam à má fila deixando todas as outras à míngua. E crescem. Esticam-se rápido para os pálidos raios de sol de Inverno. Está frio e o que apetece é o banho de imersão que apesar da crise ainda há dinheiro para pagar a conta do gás - deixa-as crescer, lá para Abril, quando fizer sol, porei um cravo na lapela e passearei a camisola vermelha pelo centro da cidade.
A democracia é como o canteiro da varanda e as daninhas também dão flor -
os lírios d'água à procura de espelho, o trevo que nunca é da sorte são daninhas.
Mas a democracia não se dá na selva. A natureza, por mais bela que seja, não se preocupa com coisa nenhuma - nem com os pobres nem com os coxos. A lei da selva é a lei dura. É como Wall Street - eat or get eaten!
Eu, que gosto da selva, prefiro imaginar o meu país pouco tropical um pouco mais suave.
Trato das minhas plantas,  das sardinheiras à buganvília, dos difíceis coentros à figueira-violino, dos que me são úteis todos os dias (é a hortelã) à ficus bonsai que só ornamenta a janela do quarto de banho, todos os dias. Há que regar. É preciso arejar a terra. Mudar de vaso. Cantar-lhes ao ouvido. Tirar as folhar secas. Podar. Aceitar que isto de domar a natureza nem sempre é fácil. Sujar as unhas, arranhar os braços. Defender os pequenos rebentos de salsa e saber que criar eucaliptos era muito mais fácil mas que não é o que interessa. Lembrar que na natureza crescem urtigas e que para tratar dessas há que calçar luvas ou sofrer a urticária.
Todos os dias.
E todos os dias lembrar que se exercermos a jardinagem (ou a democracia) diariamente é tudo muito mais fácil. Regarmos quando não chove, mimarmos quando faz frio, arrancarmos as daninhas pelo grito da nossa denúncia e a lembrança constante de que não vale de nada termos semeado um cravo vermelho em 1974 se não o mimamos todos os dias.
E convém ainda lembrar os que juram e prometem que quando tiverem os 6 hectares sobre o Douro é que vai ser, que se não sabem salvar os canteiros da janela da cozinha, não lhes serve de nada aspirar a sonhos maiores.

sábado, abril 23

Tudo correu como planeado e nada deu certo. Que é como dizer que perco sempre os papéis todos, que tenho mil blocos de notas, cadernos de desenhos, que trago sempre os lápis de cor na carteira não vá uma criança me pedir para desenhar um golfinho, mas que que no caos da minha cabeça nunca sei por onde começar.
Tenho a memória de um elefante de zoólogico que se lembra do caminho para atravessar a selva e que todos os dias perscruta os embondeiros pela curva certa onde apanhar o leito seco do rio. Eu sou assim. Afino a perspicácia para os dias que não hei-de cruzar, sei de cor as conversas que não hei-de ter e dos dias normais pouco mais sei do que esperar que algo de estranho aconteça para que possa reagir com normalidade.
Acordo sempre cedo de manhã e neste Abril de águas mil há sempre céus azuis radiosos pelas seis e quinze da manhã. Apago-me sempre mais um bocadinho e pelas nove já o céu se vestiu de cinzento quase fúnebre. Banho, dentes, roupa no cesto, pequeno-almoço, café, café, café, nada cai das paredes da sala para dar azo a uma discussão solitária. café. a loiça na máquina, o vento que não deixa ir jardinar e roubar as folhas velhas das sardinheiras, vento. vento. 
Abro e fecho a boca com energia para exercitar os maxilar. Quinze vezes, como os quinze goles de água que bebo da torneira do lavatório antes de ir dormir. quinze. quando faço flexões (raro) também tento fazer quinze. às vezes não consigo.
Estou absolutamente convencida que um dia alguma coisa vai acontecer e aviso-vos já que estou absolutamente preparada. Quando acontecer, vou entrar de rompante e não me faltará a palavra, o gesto será fácil e de um momento para o outro a terrível espera fará absoluto sentido. Saberei cozinhar pato na perfeição e de como pegar num crocodilo sem hesitação. Quando acontecer, não terei de pensar duas vezes no discurso e sairá em inglês coloquial, com referências precisas a Shakespeare, qual navalha, e não obstante o gume pontiagudo, ninguém sairá magoado, nuvens cor-de-rosa de algodão doce (mas sem colar) ampararão a queda e tudo será como aquele sonho que eu sonhei uma vez quando tinha sete anos e os planos faziam sentido.
O relógio digital, com os números a verde fluorescente fosforescente como se outra cor não fosse possível, aponta 20.10. São quase 11 da noite,  na verdade, tem um atraso de exactamente 2h e 43 minutos e irrita-me a necessidade de fazer contas de cada vez que olho para ele. Nunca gostei de relógios e esta sensação de que andamos a correr atrás do tempo - faltam sempre 5h para qualquer coisa, ou estamos só 15 dias atrasados, e este lembrete contínuo cria-me angústia. Ainda assim, o fluorescente não me permite não pousar os olhos no relógio de cada vez que abro os olhos e dizer faltam 7h para acabar o turno. Depois faltarão mais 3 noites para voltar para casa. Depois mais 1 semana antes de partir para Espanha. Depois depois depois como se andasse em corrida entre metas e não a viver a minha vida.
Mr. P levanta-se a cada 10 minutos. Não sabe por quê. Desenrola-se da cama com esforço e senta-se com os pés sobre o tapete que buzina no comando na minha mão ao toque dos seus pés. Fica ali sentado a olhar para o sofá onde finjo que durmo, a ver o que eu faço, a ver o que faz. Depois levanta-se. Aí levanto-me também. E convenço-o de que é tarde, que devia dormir. É fácil convencer Mr. P. a voltar a deitar-se, no entanto, todo o processo demora, pelo menos 15 minutos. E 10 minutos depois ele está de novo a levantar os cobertores e a contorcer-se para fora da cama.
O turno da noite dura 10h. Acaba 15 minutos depois da Mrs. P. entrar no quarto e perguntar como correu a noite, acordando o surdo homem, no ranger das tábuas do soalho da mansão, meio podres por baixo da carpete vermelha manchada. Vejo-o a recomeçar a roçar os pés - síndrome das pernas inquietas que não pode curar com yoga porque já mal se mexe do fundo da demência vascular e da velhice dos grandes 91 anos.
Rezo para que se aguente um pouco mais, respondo baixinho embora saiba que ele não ouve - só ouve o ranger das tábuas - que não dormiu nada, que a cada 10 minutos se levantou e disse com penar 'it's all very muddled'. Mrs. P. encolhe os ombros e do alto da sua cegueira, tacteeia a bengala até ao banho.
Os dias são lentos. Aqui as horas não  valem muito, como provam todos os relógios desfazados pela casa - o da sala não mexe, o do forno está no horário de Inverno, há um de cuco na sala de jantar ao qual já ninguém sacode o pó há mais de uma década, o relógio do pulso de Mr. P. acertei-o eu a semana passada - dizia que era dia 22 em pleno 4 de Abril. No entanto, o café é às 11 com 3 bolachas de queijo, o almoço à 1 em ponto, o chá às 4 (1 bolacha de aveia, 3 gotas de leite) e para o jantar devemos entrar na cozinha exactamente às 19.15, quando acaba a radionovela na BBC4. Mrs. P. tem um relógio de pulso sincronizado com o Big Ben que diz em voz alta as horas para a libertar daquilo que os olhos não vêem e manter a britânica tradição de cumprir horários. Se não fosse o rigor das refeições, o tempo não existia nesta casa. Toda a gente se move como um caracol, amanhã em nada será diferente de hoje, a não ser que venham o canalizador montar o lavatório ou seja terça-feira e seja dia de day center, ou quarta e seja dia de contabilista, ou um dos filhos apareça para o chá a mostrar o Bentley cinzento descapotável com cobertura cor de vinho que dá 200km/h, os dias são todos iguais. Miss Marple, Poirot, Murdoch Murders, a família real ao domingo que a rainha de copas faz 90 anos e ainda anda a cavalo (a Camila não falou no documentário).
A mansão será demolida quando eles morrerem. Foi desenhada pelo Sir John Wolfe Barry, o mesmo que desenhou a Tower Bridge em Londres, para a sua filha, mas hoje o terreno vale mais do que a mansão em si e dará para construir mais de 7 lotes na zona fina do subúrbio londrino - nenhum dos filhos hesitará em deixar demolir o Barry Lodge, nenhum dos filhos há de querer pagar a desbaratização da mansão nem calar o ranger das tábuas. Na verdade, foi assim que a família enriqueceu - sector imobiliário e multiplicação de dinheiros. Assim e a contar as maças. Ninguém fica rico sem contar as maças e claramente eu sou uma desperdiçada - nunca Mrs. P. viu tal coisa - 3 maças por dia! Fez as contas e disse-me em voz alta - 3 maças por dia são 21 maças por semana! Anuí, sim, tem razão, eu na verdade preferia desmultiplicar as 21 por 6 peras, 7 maçãs,  2 tangerinas, 4 laranjas, talvez uns kiwis de vez em quando, mas porquê complicar? A senhora precisa de saber exactamente aquilo que eu vou comer para poder providenciar tudo nas compras da quarta de manhã e prefiro manter simples - sim, 21 maças está bem. Mais o iogurte natural magro e escusa de comprar pão para mim, quero voltar a Portugal com saldo positivo de calórias a ingerir, que lá há vinho e pão e alheiras e massa e cogumelos.
Para se treinar um açor é preciso abdicar de se ser humano e ser-se açor. 'A de açor' foi o livro que a minha irmã me escolheu para esta viagem. Ela sabe-me melhor que ninguém. Sabe que também eu estou aqui a curar alguma coisa, a querer deixar de ser humana por uns tempos. A ser outra coisa qualquer que não eu, a ser velha, para me dar descanso. Aceito sem qualquer condição aquilo que os dias me reservam. Sem qualquer problema, aceito ter noventa e muitos anos, ser cega como a Mrs. P. para lhe entender o rancor, ser surda como o Mr. P., e demente, viver nesse mundo 'all very muddle' para lhe entender as insónias e com ele acordar cada 10 minutos, a cada 10 minutos rebolar-me do sofá desconfortável e perdoar-lhe a confusão por também a sentir na pele. 5 semanas a ser como eles, silenciosa, lenta, sem esperar coisa nenhuma para além do biscoito com o chá das 4, ou o final do turno, também eles esperam o final do turno, a hora a virar num relógio qualquer que diz que são horas de outra coisa.

sexta-feira, abril 22

Dos velhos ingleses aos crocodilos que apesar dos 5 anos ainda só têm meio metro, à fotografia e a mania que hei-de fotografar tudo em manual que só assim se apanham pássaros em pleno voo às 6 da manhã. Há o curso de serigrafia que ainda não contei a ninguém mas que ainda hei-de fazer. Ou o de cerâmica - por favor não digam à minha mãe!
Aprender a brincar com a máquina de costura. Estudar a fundo filosofia e fazer um master em comportamento animal e sem medo das violações (ou dos leões) viver numa tenda no meio da selva em África. E ainda ter tempo para dançar até de manhã ao som dos Joy Division - luzes epiléticas à minha volta e acabar a noite a beber uma meia de leite com um croissant com fiambre sobre o Douro.
É que o saber não ocupa lugar, ensinou-me o Sr. Santos, dono da pequena papelaria em Costa Cabral onde eu parava todos os dias pendurada na mão do meu avô,  à vinda do infantário. Cruzavamos a rua, pequeno desvio a caminho de casa, para uma inocente troca de piadas secas. Às vezes nem entravamos, o meu avô lançava a graçola da porta e o Sr. Santos, 20 anos mais novo que ele, mas amigos pelo gosto do saber, lá saía do balcão para responder à palermice. 'O saber não ocupa lugar' era o nome dos pequenos livros que ele próprio editava e assinava, com todas as curiosidades do mundo - todas as páginas começavam com
- Sabia que...
ao que se seguia qualquer conhecimento absolutamente inócuo e inútil do actual ponto de vista meramente mercantilista do conhecimento. Universidades e institutos com objectivo final de criar lucro financeiro - aprende isto e ganharás dinheiro vendendo o teu conhecimento. O Sr. Santos ganhava dinheiro (pouco) vendendo cadernos de argolas e esferográficas bic laranja de escrita fina e bic cristal de escrita normal. 12h atrás de um balcão para pagar as contas,  12h a estudar dentro da loja minúscula quase sem luz as coisas importantes do mundo - os anéis de Jupiter e os povos amerindos, as pirâmides e assuntos de física nuclear
- Sabia que
20$ pelo caderno pautado e 10$ pelo lápis de carvão pouco duro
Mais tarde, já o Sr. Santos era uma memória remota entre o gelado Epá (isto não é para contar aos pais!) e o apontar a mica feldespato e quartzo dos muros do caminho até casa, conheci um rapaz inglês hippie, 25 anos, sem eira nem beira e provavelmente não mais do que o 9° ano de escolaridade. Eilan ganhava a vida entre a construção civil e a agricultura. Quando chovia muito (acontece com frequência quando se é Inglês e se vive na terra mãe) não trabalhava. Um dia pela manhã perguntou-me - 'Helena, what are you going to study next year?' E eu do meu lugar ignorante e pouco humilde respondi que já era licenciada, tinha até post-grad - 'Eilan, I've finished my studies.' E ele, com um sorriso calmo disse não  é disso que falo - 'eu, por exemplo, para o ano vou estudar astronomia e super-nutrientes. São assuntos que quero saber. Quando estiver a chover, vou à biblioteca e leio sobre os assuntos.' Senti vergonha. Ai a sobranceria, a mania dos títulos, juro-vos que corei e lhe pedi desculpa - és melhor que eu, Eilan, que ainda hoje chegaste a Portugal e já vais para o mercado municipal de dicionário emprestado em punho para comprar legumes em português.
Hoje, ainda com medo e às vezes com vergonha do que não devia, aprendo a apanhar cobras constrictoras pela cabeça de forma rápida e a atirar a mão direita directa ao corpo frio que se vai enrolar no braço (há que respeitar a regra de 1 pessoa por metro de bicho), estudo como lidar com a demência e leio sobre a história do Sapiens que me é estranho quase todos os dias. Sonho com os dias em que hei-de meter a mão no barro e fazer a mochila para África. Sei que a utilidade é reduzida, e era bom que quisesse ficar em casa, nesta casa onde descanso hoje, 4 dias antes de nova viagem, neste palácio com sofá para 2 aninhados onde se calhar só não quero ficar para sempre - as paredes desta sala são onde os meus olhos estão em casa - porque se é para estar sozinha, prefiro o cansaço da mochila às costas - planes and boats and trains - do que com os olhos na tua ausência ao meu lado.

terça-feira, abril 19

Como se cura a utopia?

sexta-feira, abril 8

Vesti-me com se existisses.
Saí da cama onde repousava depois de tanto trabalho, depois de arrumar as malas, voltar a pôr todas as camisolas dobradas como se tivesse chegado para ficar, depois de tomar um banho de imersão como quem renova energias para um novo começo, como quem te espera.
Saí da cama onde me meti sem sequer enxugar o cabelo. Saí da cama como quem se prepara para te receber para o jantar.
Vesti-me como se fosses chegar tarde, roupa interior preta, calças largas, cintura apertada, cabelo com ganchos, limpei as olheiras e resto da maquilhagem da noite de ontem.
Saí de casa devagar, como quem sabe que não vens, para comprar cogumelos e vinho para o jantar. Lentamente,  como se o tempo não fosse factor, servi-me do vinho e mandei o Nick Cave cantar do rádio. Sem pressa, assei os pimentos no bico do fogão, grelhei os cogumelos, juntei as malaguetas e o alho sem medo, os coentros, o molho de soja, o gengibre, os sabores que invento que gostas e cozi a massa para um.
Bebi o vinho guardando para ti o copo vazio ao lado do meu.
Disse-te baixinho que devia parar de alimentar este amor portátil por ti e de guardar o teu lugar nos meus dias.

Praticar a solidão às vezes é um exercício de mentira.

domingo, março 27

Enquanto te esperava escrevi o nome das coisas no meu braço direito, das coisas que importam - escrevi o nome dos pássaros, o nome das ruas, o nome das flores, onome das horas enquanto te esperava - como 4 da tarde, ou terça-feira
Escrevi Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março
Enquanto te esperava, escrevi que não te esperava no meu braço direito, que não esperava ninguém, que já não esperava nada - só via o que estava à volta e escrevia no meu braço direito o nome de todos os pássaros, o nome de todas as ruas e todas as horas e todas as árvores e todos os livros e todos os bares e todos os cigarros e copos de vinho.
Escrevi tudo no meu braço direito e se um dia te encontrar, se reparares na camisa de manga comprida que trago em pleno verão, dir-te-ei que é cábula e levantando lentamente a manga, contar-te-ei tudo, ponto por ponto.
No braço esquerdo, por incapacidade motriz, não escreverei nada. Ficará em branco pálido até chegares.

sábado, março 19

Lá em casa eramos 5 - a minha mãe, as minha irmãs, eu e o meu pai. Com frequência eramos 6, quando a minha avó vinha passar uns dias connosco. Mais a empregada, a cadela, a piriquita Eva (os Adões não duravam muito lá em casa). No entanto, nunca tivemos grandes picos de estrogénios nem o meu pai parecia fora da caixa.
Lá em casa eramos 5 e todos sabiamos mudar uma lâmpada tão bem como dobrar uma omelete.
Lá em casa eramos 5 e não me lembro de alguma vez termos sido 4 mulheres e um homem.
Quando tinha 15 anos (talvez ainda antes) o meu pai deu-me este poema, emoldurado a vermelho para a parede do meu quarto.

If—

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,   
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;   

If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;   
If you can think—and not make thoughts your aim;   
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;   

If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;

If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,   
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,   
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;

If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,   
Yours is the Earth and everything that’s in it,   
And—which is more—you’ll be a Man, my son!

Rudyard Kippling

Obrigada Pai, pelas armas que nos destes para sermos mulheres com H grande!

terça-feira, março 8

Não é pelas flores nem pelos bombons. Não é pelo voucher para o spa ou pelo jantar fora, nem pelo pequeno-almoço na cama ou a dispensa de dobrar as meias.
É pelos 3/4 das tarefas domésticas que as mulheres ainda abraçam em Portugal, é pela disparidade salarial, é pelo crescente risco de pobreza, é pela quase ausência de mulheres nos cargos de chefias das empresas e na política. É por todas as que morreram ou foram vítimas de violência nas mãos de quem ainda acha que elas são propriedade e não pessoas. É pelas raparigas argentinas que estavam a pedi-las por viajarem sozinhas.  É pelas que não ousam usar mini-saia para não terem de ouvir o que não merecem. É pelas raparigas que ainda são chamadas de maria-rapaz quando não gostam de cor de rosa. É pelas mulheres que até têm sorte porque os parceiros até ajudam. É por mim, por em 2016 ainda ter de dar um toque quando chego a casa à noite para os amigos saberem que não fui atacada.
É por todas todas todas as mulheres de todo todo todo o mundo que ainda têm medo, ainda têm rédeas, ainda não podem ir à escola ou beber um copo de vinho num bar sozinhas depois de um dia de trabalho.
'Mrs Dalloway disse que ela própria ia comprar as flores', quanto ao resto, era bom que a sociedade se mexesse.

terça-feira, março 1

Desaparecer do mapa

Mala finalmente feita - últimos artigos mas não menos importantes - aloquete, lápis de cor, o livro que estou a ler, um outro para ler e um para reler. Estou segura que entre isto e o que não me esqueci de pôr na mala vou falhar em pouco. Um mês não é nada.
Fica para trás, por decisão e não por esquecimento (por esquecimento ficarão mil e uma coisas que descobrirei apenas amanhã à noite), uma casa cheia de plantas regadas, os livros, uma garrafa de vinho quase vazia na banca da cozinha (será a fiel testemunha de que eu não ando por lá), os discos, os quadros nas paredes, um gato abandonado em Viana, mais de metade do cabelo e as saudades dos dias normais.
O meu desaparecer do mapa será tão breve que apenas os coentros poderão dar pela minha falta.

quinta-feira, fevereiro 11

O preço de um poema

É triste constatar que um poeta consegue fazer mais tostões escrevendo ou falando da sua arte do que a praticá-la.
O lamento tem décadas e vem assinado por W.H. Auden, mas serve completamente para hoje.
Se aceitássemos, sem mais, que o valor intrínseco de um bem é aquele determinado pelo seu potencial económico, a poesia já há muito teria desaparecido.
Mas na situação actual, onde as questões de produção artística e cultural são mais ou menos remetidas para um limbo, não se pode garantir que a extinção não seja uma efectiva ameaça.
Sabemos que uma carcaça anda à volta de 20 cêntimos, e um litro de leite anda à roda dos 60 e por aí fora. São números que muito justamente nos preocupam enquanto indicadores das linhas de sobrevivência.
Mas quanto custa um poema?
Quanto custa mesmo um poema? Quanto é que nos custou o nosso poema nacional, os Lusíadas, e quanta pobreza custou a Camões? Quanto custou a obra de Álvaro de Campos, que é tão extraordinária como o claustro do Mosteiro dos Jerónimos onde jaz o seu criador.
Quanto custou Um Adeus Português  de Alexandre O'Neill, ou a Natureza Morte com Louvadeus de Fiama Pais Brandão? Que preço, colectivamente, nós pagamos por a Magnólia  de Luíza Neto Jorge ou por O Inominável de Eugénio de Andrade?
Sentimos em dívida por Armando Silva Carvalho ter escrito, no nosso tempo e a nosso lado, um conjunto tão extraordinário de poemas, como o do seu De Amore?
Os poetas precisam que a sociedade pergunte se tem a pagar alguma coisa.

José Tolentino Mendonça

De volta a casa por três dias e duas coisas me inquietam.
A primeira é grave.
É como quando faço o primeiro exercício de yoga tibetano, logo de manhã (o meu preferido) - braços abertos à altura dos ombros e rodopiar 21 vezes sobre mim própria, jogo de criança, muito rápido, mais rápido, terminando sempre naquele atraso do cérebro em perceber que o corpo já parou e os olhos, a olhar fixos para a frente, vêem o fundo da sala que estão nas minhas costas e volta devagarinho, quase tímido, 'adiantei-me, não foi?'. É o gato. Sabendo eu que ele já não mora aqui, o canto do meu olho vê-o a toda a hora em todas as esquinas - é a sombra das folhas das plantas da varanda ao vento ou só a minha sombra mas é o gato, o canto do olho vê o gato que deixei em casa da minha irmã há mais de 1 semana, o gato de quem recebo notícias diárias - continua tímido, aparece só meia hora depois dos miúdos irem dormir e mesmo assim a medo, mas ontem já ganhou coragem e se esticou no mimo do sofá ao lado do meu cunhado.
O gato é o primeiro.
O segundo são as chamadas não atendidas de números não identificados. Como o gato - sombra, canto dos óculos, folhas ao vento - as chamadas que não tocam, não oiço,  ou oiço mas não consigo atender a tempo (e corro, juro que corro) e que são  a sombra de serem tuas.

domingo, fevereiro 7

Ela não fuma, não bebe (nunca apanhou uma bebedeira), não joga. Apagou recentemente a conta de facebook. Tem medo dos vícios. Tem medo de cair dentro de um e nunca mais se encontrar.

Ele é o contrário. Vive nos excessos. Ri alto e barafusta como um louco para no segundo seguinte lhe fazer uma festa e dizer 'mas eu sou o teu ursinho'. Gosta de  medronho mais do que do ar que respira. Por respeito a ela, nunca bebe mais do que um copo.

Ela queria viver no campo, um monte no Alentejo, longe de todos. Vir à cidade só de vez em quando, para matar saudades.

Ele não gosta de comer em casa. Detesta a ideia de que depois de comer ficam pratos para lavar. Por ele, viviam num quarto de hotel e comiam todas as refeições num restaurante.

Ela mantém o instagram por trabalho. Ele tira selfies mascarado de borrego.

O ninho de um lado e a loucura do outro.
Faz um ano que passam as 24h do dia juntos. Ela calma, ele louco. Ela medo, ele  nos píncaros. A culpa é das mães - a dela sempre a achou feia, a dele abandonou-a com 9 meses.

São felizes, e eu sou testemunha.

quarta-feira, fevereiro 3

É quando estou em quartos de hotel
E a minha porta range
Que me lembro de como era bom
Saber atravessar paredes.

terça-feira, fevereiro 2

No meu sonho acordei muito mais cedo enquanto, na verdade, continuei a dormir. Também é verdade que no meu sonho estava escuro e frio e, por isso mesmo, saltei a ginástica matinal e dirigi-me para o shopping para sessão das 7 da manhã.
Entro de cabeça baixa, tentando passar despercebida entre as empregadas de limpeza. É que o shopping, como toda a gente sabe, só abre às 10.
Entretanto abro um olho, enquanto calo o despertador, e o nascer do sol, vermelho sobre Évora atira-se pela portada. Mas não há nada a fazer, já estou no shopping, agora é tarde para me levantar. É preciso continuar na fila com as empregadas para não dar nas vistas, o próprio movimento de lançar a mão para o telemóvel tem de ser muito suave, não vá a rapidez do braço alertar as senhoras. E na verdade, já não deve dar tempo para os 5 exercícios de yoga tibetano que prometi fazer.
Sigo alinhada até que me tocam no ombro - um homem, talvez 70 anos, de fato de fazenda xadrez amarelo-torrado, laço e chapéu de burel crava-me um cigarro. Fala baixo, também ele está ali infiltrado, não tem ar de vigilante e não trás um balde na mão como as senhoras. Dou-lhe o cigarro e ele segue, com ar mais ou menos confiante, até às escadas rolantes. Dá um passo para a primeira escada e ali fica, costas direitas, mão direita no corrimão de plástico , cigarro no canto da boca, à espera que as escadas comecem a subir. Às 10.
Vejo assim a minha vida andar para trás, para chegar ao cinema a horas (a sessão era às 7 ou às 7.15?) vou ter de ir pelas outras escadas, no outro canto do shopping. Há uma total falta de respeito, penso eu, em ocupar as escadas rolantes durante 3 horas. É, de facto, de um comodismo incrível. Ainda pondero usar as escadas ao lado, mas essas são para descer e mesmo paradas, correria graves riscos de, ao tentar subi-las, acabar com o nariz no chão.
Vou andando corredores fora e 4km depois começo a ficar cansada. Ligo o GPS para ver se estou no caminho certo e descubro que devia ter virado na quelha da herbanária, 200 metro antes. A menina do GPS resmunga 'vire à esquerda logo que possível' mas todos os corredores à esquerda são de sentido único e não me apetece nada galgar o separador central para fazer inversão de marcha. A menina do GPS começa a desesperar e às páginas tantas já está a gritar comigo 'vira à esquerda carago!'. Levanto a cabeça e reparo que 2 das da limpeza olham fixamente para mim. Sinto-me a corar. Não há como disfarçar - o casaco de peles por cima do pijama às flores denunciam-me. Endireito as costas, levanto elegantemente os óculos de sol e, com voz incisiva (e não canina), com travo doce a rosmaninho amadurecido em casco de carvalho (em pé) digo assertiva 'a montra da Zara tem dedadas de adolescente à espera da mesada'. Por acaso (ou destino) passa nesse momento um tuk-tuk puxado por ovelhas bordalesas com uma fadista de xaile minhoto a cantar um chorinho. Salto com ar de diva, acenando adeus às meninas da higiene suprema que já não me vêem porque correm beco abaixo atrás de um gato malhado. Pergunto inocente às ovelhas 'onde é a próxima paragem' e elas respondem num balido quase imperceptível que é na prova de vinhos nas Caves de Vinho do Porto. Olho para o relógio e constato que são 9 e 15 da manhã e eu tinha prometido estar na sala de pequeno-almoço  às 9.30 e ainda tenho que tomar banho. O vinho é tentador, até podia dar um saltinho aos avós para lhes dar um beijo e 2 de treta, mas lembro-me da máxima 'se conduzir não beba' e hoje sou a condutora até Portel.
Salto da cama, tropeço na base do chuveiro, dou uma cabeçada a um dos muitos senhores que já espera a mulher sentado no sofá à porta da H&M e mergulho no gel de banho.

quinta-feira, janeiro 28

Help are a música que tocava. Não eram os Beatles, infelizmente. Era uma versão sofrida apropriada ao contentor frente à marina. Por mais que tente diminuir a história (via espaço físico e sonoro, sem falar do discurso retórico de que é só um café entre 2 pessoas com empatia, uma das quais - por azar não sou eu - é casada) tremiam-me as pernas.
Tremiam-me as pernas! Tentei disfarcar, lançando os calcanhares no ritmo da música (melosa) e ainda assim tremiam-me as pernas.
Abri o livro e forcei-me a aprender as relações entre a ciência e o império (a ferros, aprendi que foi o Cook que descobriu a cura para o escurbuto naquilo que todo o mundo conhece como sendo a tomada da Austrália). Virei-me de costas para a entrada para resistir ao constante levantar de olhos e espiulhar a porta.
Entretanto ele entra. Não é um homem bonito. Na verdade, ninguém levanta os olhos quando ele entra. Nem mesmo eu, antes forçosamente mas agora realmente interessada no assunto das relações da ciência com o patronato. Chega-se à mesa como se o dia 1 de Novembro (dos mortos, portanto) tivesse sido ontem. Como se eu não tivesse acabado de fazer um desvio de mais de 100km para beber a água das pedras.
- Então?  Estás aqui há muito tempo? Que tomas? Só? (e eu com vontade de dizer e já nem as águas passam, as pernas ainda tremem).
Pede um cerveja preta e começa a falar e, de facto, incrivelmente,  é 1 de Novembro, nenhuma hora passou desde que nos sentamos 6 horas seguidas numa varanda que já não existe. As pernas já não me tremem, já me inclino para a frente entusiasmada com as histórias que deitamos na mesa.
Ainda assim, olhamos os dois de forma contínua a marina, os barcos, podia contar-lhe mas não contei que ainda à pouco passou ali um corvo marinho, falamos contamos rimos e muito raramente tiramos os olhos dos barcos. Tirar os olhos dos barcos era ouvir as vozes a fraquejar e hoje era dia de não o fazer.
À partida já era certo que tínhamos 1 hora. O gato tinha consulta no veterinário para a vacina anual (eu não resisto e assumo que estou ainda convencida, tendo lido vários estudo americanos e depois de vários anos de prática clínica,  que a vacinação anual dos gatos de interior não só é desnecessária como é dos factores que mais contribui para as Insuficiências Renais Crónicas via deposição glomerulo-nefrular de complexo anticorpo-antigénio - não se preocupem caros leitores, não usei estas palavras, que não estava em disposição de me armar mas muito mais de me defender). E 1 hora, toda a gente sabe que é coisa para durar menos de 15 minutos, quando uma pessoa está bem. E nós estavamos bem - olhos pousados nos barcos a discutir futuros mais próximos e as malignidades do marketing digital.
É claro que em menos de 7 minutos e meio o nosso tempo tinha acabado.  O telefone dele toca - já? ainda estou aqui, no Skipper. Achas que consegues pôr o gato na caixa? Consegues? Se não conseguires eu vou aí ter. Consegues? Óptimo! Apanha-me aqui.
O tabu a cair na mesa. Sim, a mulher, que até à data podíamos (sim, podíamos - ele e eu, dentro das nossas conversas) ignorar acabou de entrar na sala, ainda não fisicamente (lá chegaremos) mas enquanto entidade real, quase um those we don't speak of and now we do. Na boa. Juro às alminhas, na boa. Afinal de contas, não era novidade para ninguém,  era só um dos muitos assuntos que ainda não falamos.
Relaxado, vira-se para mim e talvez pela primeira vez naquilo que pareceram 3 minutos olhou-me nos olhos e disse que o gato é tramado de meter na caixa mas assim temos mais 5 minutos. E continuamos a falar como se minutos antes não estivéssemos a evitar olhares pousando-os nos barcos.
A Catarina entrou,  foi-me apresentada - é simpática, rimos mais 5 minutos e fomos embora. Eles tinham a consulta e eu tinha de tentar perceber o que é que tinha acabado de acontecer.
Antes de nos despedirmos a Catarina voltou a insistir - tens a certeza que não queres jantar connosco?
Entrei no carro e cantei pulmões afora até chegar a Lisboa e juro-vos que nunca me senti tão livre na vida.

terça-feira, janeiro 19

Amanhã,  cedo (para quem não tem horas para acordar) dou uma cambalhota. Adoro, desde os 10 anos, dar cambalhotas. Começa-se de pé, dobra-se ligeiramente os joelhos, lançam-se os braços para a frente, mãos firmes atentas no chão (ainda longe, na expectativa) e atiramo-nos de cabeça - há que lembrar que já fomos bichos de conta, o medo causa sempre um frio na barriga, enroscar é preciso! Ainda assim é de cabeça. Como o mergulho que aprendi anos antes de fazer ginástica, quando fazia natação - de cabeça! atira-te! sem medo! e se antes foi na água e agora é no chão é só porque cresceste! Pior! Depois das cambalhotas vieram os mortais, os mortais encarpados, com pirueta, salta! força nos joelhos, consegues pirueta e meia, voa! A minha mãe religiosamente falhava as exibições (nunca falhava os recitais onde eu falhava o ataque ao piano), nunca me quis ver voar que isso não é de gente e era quase certo que um dia havia de bater com os dentes e de dentes no piano nunca ninguém morreu.  Nunca dei com os dentes do chão - claramente estamos a falar de sorte, e voou em continuo ha mais de mil anos.
Aos 12, para além da poesia, dos romances, das histórias, já me lançava feita louca em cambalhotas, mortais, mergulhos para a piscina (da prancha mais alta) e agora queriam-me quieta?

Amanhã,  cedo, dou mais uma cambalhota e termino com os braços no ar, pés assentes na terra, firme, costas direitas, como manda a etiqueta da ginástica. E com sorriso na cara, depois de tudo baralhado, pernas no ar, e a certeza de que isto de baralhar tudo de novo é só a delícia de nos deixarmos enrolar nas ondas do mar.

segunda-feira, janeiro 11

As memórias da tua ausência fui eu que as inventei. E mais, a tua personagem nos meus dias, as vezes que nunca nos sentamos a comer peixe à beira mar, os concertos nos quais nunca acidentalmente nos cruzamos, os poemas e os livros que ainda e talvez nunca partilharemos, é tudo uma decisão  minha de ser feliz sem te conhecer.
Por outro lado, levares-me no bolso até à Índia e sentares-me junto ao Ganges ou em silêncio  me deixares meditar num templo a Shiva, aqueles 3 minutos por dia em que me depositas um beijo ou a esperança de um bom futuro, essas tuas memórias da minha ausência nos teus dias, és tu, caríssimo, que as inventas.
E mesmo que cada um em seu canto, eu na Galiza e tu em Goa, mesmo que parvos, nós os dois temos um espaço que é só nosso e que só por azar ou graça divina havemos de nos encontrar nesta coisa que é a vida real e assim, complicar ainda mais a vida.

Mas o que eu gostava mesmo, era não  ter de te de contar estas coisas a ti, que me és tão  profusamente distante e ao mesmo tempo como unha. Poder não  querer contar-te este parágrafo  de livro, não  to enviar electronicamente até aos teus dias, tão  distantes dos meus. Queria que não  fosse contigo que eu quisesse falar, querer contar isto a um dos meus 13 amigos com quem passei os últimos  2 dias e o virar de mais um ano, mas só por mania (ou será mau hábito) a tua ausência é-me deliciosamente próxima e tivesse eu coragem acordar-te-ia agora mesmo 8 da manhã, agora que aqui quase 3 da manhã foi toda a gente dormir só para te dizer que aqui já foram todos dormir e que também eu estou pronta. Abandono-me ao mundo dos sonhos e assim tens tu cerca de 8h para me passeares por esse lado - deixo-te a chave para os meus sonhos debaixo do tapete, está um pouco empenada pela falta de prática, tens de puxar a maçaneta para a esquerda enquanto rodas a chave e dizer baixinho 'this is a man's world' 

domingo, janeiro 10

Os concertos de Dead Combo são  sempre uma delícia. Têm pés descalços  e barcos que nunca encontraram bom porto, têm batom borratado e dores de alma, têm Argentina, Lisboa, Spaguetti-Texas e Cabo Verde, mil mulheres com maquilhagem em excesso, cenas de burlesco, meias de vidro rasgadas, vielas, becos, toalhas aos quadrados com nódoas de vinho e um intenso cheiro a cigarros mal apagados. Têm cheiro a bifanas de beira de estrada e muamba, engates de fim-de-noite, olheiras, dores de um país que já foi e ainda é, embora só às escuras. Têm aquele sabor único a saudade, o travo amargo de se ser Português. Têm o som de gatos a roçarem-se nas pernas.
Hoje, sem vergonha, como se fosse só para mim, começaram com o 'e esse olhar que era só teu' (juro que pela primeira vez em quase 2 anos resisti à lágrima - haverá sempre sons que nos levam para sítios onde já não moramos) e acabaram com a 'lisboa mulata'. Impecáveis.
Pelo meio tiveram 'fado a pilhas' e não é difícil ser-se feliz assim