Tudo correu como planeado e nada deu certo. Que é como dizer que perco sempre os papéis todos, que tenho mil blocos de notas, cadernos de desenhos, que trago sempre os lápis de cor na carteira não vá uma criança me pedir para desenhar um golfinho, mas que que no caos da minha cabeça nunca sei por onde começar.
Tenho a memória de um elefante de zoólogico que se lembra do caminho para atravessar a selva e que todos os dias perscruta os embondeiros pela curva certa onde apanhar o leito seco do rio. Eu sou assim. Afino a perspicácia para os dias que não hei-de cruzar, sei de cor as conversas que não hei-de ter e dos dias normais pouco mais sei do que esperar que algo de estranho aconteça para que possa reagir com normalidade.
Acordo sempre cedo de manhã e neste Abril de águas mil há sempre céus azuis radiosos pelas seis e quinze da manhã. Apago-me sempre mais um bocadinho e pelas nove já o céu se vestiu de cinzento quase fúnebre. Banho, dentes, roupa no cesto, pequeno-almoço, café, café, café, nada cai das paredes da sala para dar azo a uma discussão solitária. café. a loiça na máquina, o vento que não deixa ir jardinar e roubar as folhas velhas das sardinheiras, vento. vento.
Abro e fecho a boca com energia para exercitar os maxilar. Quinze vezes, como os quinze goles de água que bebo da torneira do lavatório antes de ir dormir. quinze. quando faço flexões (raro) também tento fazer quinze. às vezes não consigo.
Estou absolutamente convencida que um dia alguma coisa vai acontecer e aviso-vos já que estou absolutamente preparada. Quando acontecer, vou entrar de rompante e não me faltará a palavra, o gesto será fácil e de um momento para o outro a terrível espera fará absoluto sentido. Saberei cozinhar pato na perfeição e de como pegar num crocodilo sem hesitação. Quando acontecer, não terei de pensar duas vezes no discurso e sairá em inglês coloquial, com referências precisas a Shakespeare, qual navalha, e não obstante o gume pontiagudo, ninguém sairá magoado, nuvens cor-de-rosa de algodão doce (mas sem colar) ampararão a queda e tudo será como aquele sonho que eu sonhei uma vez quando tinha sete anos e os planos faziam sentido.
Sem comentários:
Enviar um comentário